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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ano da Fé e Grupos de Estudos – parte I


Por Pietro Mariano dos Santos

“Meu povo se perde por falta de conhecimento.” (Oséias 4,6)

A – Ano da Fé em tempos de crise

O “Ano da Fé”, proclamado por Bento XVI[1], é uma grande resposta às necessidades do tempo presente. As palavras do Papa em um seu documento[2] referentes à “Porta da Fé” [3] - que nos introduz na única e verdadeira Igreja de Cristo - são, para bom entendedor, uma conversão ao mais essencial da eclesiologia tradicional, infelizmente abandonada por tantos pseudo-teólogos da modernidade.

Não é segredo para ninguém a evidente manobra de certo ecumenismo modernista, que pretende a Igreja Católica como, tão somente, “mais uma” instituição ao lado de todas as outras que se dizem cristãs. Nessa falsa perspectiva teológica, “tanto faz” ser católico ou não, pois “o mais importante é o amor” – dizem. Como se fosse possível a caridade sem o concurso da verdadeira revelada pelo Pai através de Cristo à Sua Igreja. “A fé sem caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida”. (Porta Fidei, Bento XVI, n.14).

Estamos perante a mais completa rejeição de um dogma Católico: “Extra Ecclesiam nulla salus” (Fora da Igreja não há salvação); proclamado, não só por Inocêncio III (1208), como também no Concilio Lateranense IV (1215) e no Concilio Florentino (1442). Graças a Deus, tal verdade fora ultimamente retomada por J. Ratzinger em “Dominus Iesus”, para espanto dos “progressistas”. Sobre esse tema central afirmara o Cardeal Giacomo Biffi:
“À luz destes testemunhos, não se vê como se possa contestar o principio: ‘fora da Igreja não há salvação’, a menos que se relativize toda doutrina eclesial e se considere que não existe no âmago da concepção católica nenhum ensinamento certo e irrevogável.” [4]

Porém as loucuras não param por aqui...

Outros vão ainda mais adiante em sua revolta: além de afirmarem o “tanto faz” ser católico ou pertencer a qualquer outra suposta “igreja cristã”, chegam a defender que nem mesmo o cristianismo seria tão necessário assim, uma vez que poderíamos pertencer a qualquer outra religião (Judaísmo, Budismo, Islamismo, Hinduísmo etc.). Defendem-se afirmando que “Deus é o mesmo” (Sic) e que, portanto, qualquer religião seria válida. A centralidade do cristianismo para esses “moderninhos paz e amor” seria um ato orgulhoso de padres e bispos “quadrados”, “fechados” e fundamentalistas.



Ora, vá dizer a certo tipo de Maometano que Alá é “Pai e Filho e Espírito Santo”, e tente voltar vivo para nos comunicar sua resposta...
Sobre este ponto, assevera-nos Bento XVI que crer em Jesus é o caminho para se chegar definitivamente à salvação. Ele é, de acordo com o atual para emérito, o único salvador do mundo (Porta Fidei, Bento XVI, n.6).

É por vermos idéias tão distantes da verdade, que entendemos um pouco mais a decadência atual. Além disso, somente um número reduzido de cristãos têm tido a ousadia de pregar destemidamente a fé de sempre (Porta Fidei, Bento XVI n. 8).  Tal carência na evangelização acaba por impedir a muitos de cruzarem o limiar daquela Porta que nos conduz ao batismo na única Igreja realmente fundada por Nosso Senhor. Afirmamos assim – “realmente fundada” – porque a lábia modernista de alguns padres (é com tristeza que o dizemos) tem enganado aos incautos com a falsa doutrina de que a Igreja Católica estaria tão somente “fundamentada em Cristo”. Isso equivale a defender que o catolicismo não foi - segundo eles - de fato, histórico e objetivamente, fundado pelo Filho de Deus.
“Já não nos defrontamos com adversários ‘em pele de cordeiro’, mas com inimigos aberta e desavergonhadamente assumidos na nossa própria casa, os quais, tendo feito um pacto com os maiores inimigos da Igreja, estão decididos a arrasar a fé [...]” [5] (S. Pio X)

Eis o motivo de vermos tantas “velhinhas bondosas” ensinando aos seus netinhos por aí sandices como esta: “Não, meu filho, Jesus nunca fundou uma Igreja... isso é coisa dos homens. A gente só vai à missa porque é bom cada pessoa ter sua crença. Eu vou morrer católica porque nasci nessa ‘lei’.”

Alguns anos depois...
Olha lá a velhinha com seu netinho pulando e dançando - apesar da osteoporose e Cia - em cultos protestantes ou terreiros de macumba...

Acima, "missa sertaneja' em uma famosa rede de tv católica. Abaixo, o "pastor fazendeiro" ($$$), Waldomiro Santiago.
 Semelhanças não são mera coincidência. 
Deste modo, aumentam-se as convulsões que se seguiram após o Concilio... Um a um, como em fila bem organizada, vão saindo uns pobres fiéis da Igreja Católica e se perdendo em seitas dos mais variados tipos: não auscultaram a fé de sempre, e, se a ouviram, ela não lhes plasmou o coração pela graça...

S.S. Paulo VI vira no Ano da Fé por ele proposto em 1967 uma conseqüência e exigência do período pós conciliar. Ele estava ciente das graves dificuldades daquele tempo, sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira Fé e da sua reta interpretação (Porta Fidei, Bento XVI, n. 5). Com efeito, chegara ao ponto de afirmar que, por alguma brecha, a fumaça de satanás entrara na casa de Deus.

O atual papa emérito, reiteradas vezes, quis dar-nos a entender que os textos do Concílio Vaticano II devem ser conhecidos e assimilados no âmbito da Tradição da Igreja. “Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concilio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação [...]” [6]

Essa proposta nos faz recordar as sábias palavras de São Vicente de Lérins, citadas pelo antigo Arcebispo de Paris, o Cardeal Suhard, (que, infelizmente, auxiliava os padres Chenu e De Lubac, apesar de seu modernismo manifesto):
“Mas, dir-se-á talvez, não é a religião susceptível de qualquer progresso na Igreja de Cristo? Seguramente que sim, e muito grande. Quem seria bastante inimigo da humanidade, bastante hostil a Deus, para lhe tentar opor? Mas, com uma condição indispensável: que se trate verdadeiramente de um progresso da fé e não da sua alteração. Pois o próprio do progresso consiste em que um ser se desenvolva permanecendo ele próprio; enquanto a alteração consiste em que uma coisa se transforme em outra [...]” [7]

Cristo Rey
Caso um legítimo progresso na doutrina (claro, pela ação do Espírito Santo) - sem alteração - não seja realizado hoje em lugar do que tem ocorrido, o mundo continuará se afastando daquele ideal tão bem representado no auge da Idade Média (Século XIII). Está evidente na atualidade, para qualquer observador, o quanto a sociedade dista do projeto católico onde Cristo exercerá Seu Reinado Social. “Enquanto no passado era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.” (Porta Fidei, Bento XVI, n. 2)

Essa situação preocupante exige de nós uma atitude. É o que meditaremos na segunda e última parte deste nosso artigo. Peçamos a Nossa Senhora do Bom Conselho que nos proteja e ilumine por sua doce intercessão nos caminhos desta vida de lutas e dificuldades.

Virgem Santíssima, ora pro nobis!
Maria Sempre!




[1] O ano da fé teve inicio aos 11 de outubro de 2012 (cinqüentenário da abertura do Concílio Vaticano II) e se estenderá até 24 de novembro de 2013.
[2] Porta Fidei, sobre a o Ano da Fé, S.S. Bento XVI.
[3] Conf. At. 14,27
[4] BIFFI, Giacomo. Para amar a Igreja. Trad. Socorro Coelho. B. H., Ed. O Lutador, 2009, p. 79
[5] S.S. Papa São Pio X, Sacrorum Antistitum.
[6]  S.S. Bento XVI, Discurso à Cúria Romana (22 de dezembro de 2005)
[7] SUHARD, Cardeal. Triunfo ou declínio da Igreja. Lisboa, 1947, p. 66.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Obedecer a Deus ou ao Diabo?


                           Obedecer sempre?


Prof. Pedro Maria da Cruz

Após havermos tomado consciência da triste situação em que se encontram tantos membros da Igreja na atualidade, e, mesmo assim, continuarmos a afirmar, resolutos, a certeza da vitória final de Jesus Cristo sobre o mal, podemos caminhar um pouco mais em nossas reflexões. Perante uma realidade tão conturbada como a nossa, em que tantos padres (e mesmo bispos) ousam colocar-se contra os ensinamentos Tradicionais da Igreja Católica, ficamos, muitas vezes, desnorteados, confusos quanto ao grave dever de obediência a que Cristo nos submeteu. Com efeito, Ele mesmo dissera aos seus apóstolos: “Quem vos ouve a mim ouve, quem vos rejeita a mim rejeita.”

Ora, não seria o caso de cumprirmos cegamente todas as diretrizes de nossos pastores sem maiores distinções ou preocupações? Se Nosso Senhor outorgou tanta autoridade a seus apóstolos, por que levantarmos a voz contra certos pronunciamentos? Não significariam aquelas palavras do divino Mestre, que todo e qualquer ensino dado por parte de nossos superiores seja, sem sombra de dúvidas, infalível e irrevogável? Como podemos perceber, estamos perante uma questão de suma importância para os católicos que, verdadeiramente, amam a fé cristã.

É por não compreenderem certos aspectos do ensinamento católico sobre a obediência que muitos se perdem em caminhos tortuosos. “Obedecer tudo e a todos na Igreja”, sem critério ou discernimento, pode significar, algumas vezes, entrar em choque com o ensino infalível da Tradição. A Deus lhe agrada corações submissos, porém ladeados pelo crivo da inteligência.

Sabemos que toda criatura deve obedecer perfeitamente ao seu Criador. “Toda”, inclusive, o que é obvio, nossos superiores... E, aqui está a chave da questão. O dever de obediência ao Deus absoluto cabe a todos os seres humanos, desde o Santo Padre, o Papa, até ao menor dentre todos os fiéis leigos. E, digo mais, desde o maior potentado ou intelectual entre os homens, (mesmo que não conheça a revelação cristã ou não queira aceitá-la) até o mais ignorante silvícola, todos possuem o grave dever de sempre procurar conhecer, amar e servir ao seu Criador da forma mais perfeita que lhe seja possível. De fato, está escrito que todos os reis da terra hão de adorar ao Deus verdadeiro, assim como, que todas as nações hão de servi-lo, porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Nesse sentido, ordenava o salmista: “louvai-o todos os povos”.

Centralidade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Afirma São Paulo, que o Pai Celestial deu ao Cristo sentar-se à sua direita nos céus, acima de todas as coisas; tudo foi sujeitado a seus pés. De fato, Ele foi constituído chefe supremo da Igreja, que é seu Corpo. Sendo assim, está claro: todos os seres humanos devem prestar uma obediência absoluta ao Verbo Encarnado! Por fim, o autor sagrado, quis ser ainda mais direto em sua assertiva; noutra oportunidade afirmou, categoricamente, que Deus exaltou sobremaneira Seu Filho outorgando-lhe o nome que está acima de todos os outros nomes, para que perante ele se dobrasse todo joelho no céu, na terra e nos infernos; e toda língua confessasse que “Jesus Cristo é o Senhor.” Ora, sendo assim, jamais poderíamos imaginar, por exemplo, um católico, padre ou bispo que seja pretendendo uma sociedade que não fosse cristã ou colocando-se contrário à “Restauração da Cristandade”. Porém, não é esse o assunto principal de nossa reflexão. Deixemo-lo para outra oportunidade.

Quanto ao ponto que se refere à soberania absoluta de Nosso Senhor, estamos plenamente de acordo! Todavia, recordemo-nos, mais uma vez, da afirmação apresentada um pouco acima. Escrevemos que toda criatura “deve obedecer perfeitamente ao seu Criador, inclusive, o que é obvio, nossos superiores”. Haveria alguma possibilidade de que membros da sagrada hierarquia venham a pecar rebelando-se contra a lei da obediência? Já vimos que sim, e nosso grande exemplo fora Judas, um dos apóstolos de Nosso Senhor.

Então, por que o Filho de Deus teria proferido revelações tão fortes como essas a nossos superiores na hierarquia eclesiástica: “Quem vos ouve a mim ouve, quem vos rejeita a mim rejeita”, “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, tudo o que desligares na terra será desligado no céu”, ou mesmo aquelas outras, “ Ide , pois, e ensinai a todas as nações ... ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi”, e “ Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”? Não parece estranho que palavras como essas fossem dirigidas a seres tão limitados como os apóstolos? Na crucificação, recordemo-nos, todos abandonaram o Salvador, com exceção de João Evangelista, que permanecera ao lado da Virgem Santíssima e, por isso, aos pés da santa cruz. Aliás, belo exemplo aos que almejam uma fidelidade mais perfeita ao Divino Mestre: estar constantemente à sombra de sua cruz, e sob o manto de sua Mãe castíssima!

 Algumas distinções

As palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo jamais poderão ser tomadas de modo superficial. Nos textos apresentados, elas não se referem - como é evidente - a todos os membros da Igreja cristã. Algumas vezes Cristo fala tão somente a São Pedro, enquanto que em outras, fala aos demais apóstolos em união com ele. Basta conferirmos, por exemplo, os versículos de São Mateus (16,19; 18; 18), onde, em primeiro lugar, Cristo se dirige unicamente a Cefas, deixando para outro momento a mesma promessa, que será feita, neste caso, ao restante dos apóstolos, porém, como sempre, unidos a Pedro e sob sua autoridade.

Ademais, existe uma clara distinção entre os membros que compõem a Igreja fundada por Jesus. Nela há uns que ensinam, dirigem ou mandam, e outros, por sua vez, que aprendem, são dirigidos e obedecem. A primeira parte é chamada “Igreja docente”, enquanto que a última, recebe o designativo de “Igreja discente”. Ambas as partes não formam, evidentemente, duas Igrejas distintas, mas por vontade de Cristo, Nosso Senhor, uma só e mesma Igreja, do mesmo modo que no corpo humano a cabeça é distinta dos outros membros, e, não obstante, forma com eles somente um corpo. A Igreja Docente compõe-se de todos os Bispos - quer se encontrem dispersos, quer se encontrem reunidos em Concílio – porém, e recordemos insistentemente, sempre unidos à sua cabeça, o Romano Pontífice, sucessor direto de São Pedro. A Igreja Discente, finalmente, composta de todos os padres, diáconos e fiéis leigos, possui o grave dever de prestar obediência aos seus superiores, sob pena de incorreram em condenação eterna, a menos que estes – os superiores - se desviem da fé verdadeira.

E, se tal estado de coisas criado pelo Filho de Deus surpreende aos espíritos orgulhosos, relativistas e anti-hierárquicos de nosso tempo, terminemos por lembrar, que além do poder de ensinar, a mesma Igreja possui também, e, especialmente, o poder de administrar as coisas santas. Pode, sim, dentro da lógica do próprio evangelho, fazer leis e de exigir a sua reta observância, impondo inclusive, se preciso for, as penas correspondentes aos erros cometidos.

Voltemos, entretanto, aos textos bíblicos em questão. Quando o Verbo Divino fez aquelas impressionantes afirmações (“Quem vos ouve a mim ouve, quem vos rejeita a mim rejeita”, “Tudo o que ligares na terra será ligado no céu, tudo o que desligares na terra será desligado no céu”, entre outras...), não se referia propriamente aos fiéis leigos, e nem mesmo aos simples religiosos, diáconos, sacerdotes e párocos de forma direta e imediata, mas tão somente, aos apóstolos e seus legítimos continuadores no exercício do ministério: os Papas e os outros bispos a eles subordinados.

Isso é de importância fundamental para não cairmos no exagero de atribuir uma autoridade singular como esta a quem não a possua por direito. De fato, Nosso Senhor não conferiu aos leigos esta função de ensino; e, mesmo os padres, eles simplesmente participam dum poder que cabe por direito à Igreja docente na pessoa dos legítimos sucessores apostólicos, o Papa e os Bispos a ele submissos. Isso explica tantos erros serpenteando entre os católicos, pois aqueles que deveriam seguir com extrema fidelidade os ensinamentos constantes da Igreja, todos eles revelados por Cristo, desprezam a autoridade conferida aos nossos pastores fiéis à Tradição. Julgando-se “doutores da verdade” põe-se a ensinar terríveis heresias.

Lembremo-nos: é sobre o fundamento dos Apóstolos que estamos edificados, por isso mantemos ininterruptamente desde o primeiro século da era cristã a crença numa única fé, assim como a submissão a um só Senhor e a aceitação de um único Batismo. Aqueles que se afastam desse caminho traçado pelo Filho de Deus, vivem como crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Muitos, por pretenderem obedecer cegamente e sem discernimento, acabam por prestar vassalagem ao Demônio.

Maria Santíssima, mãe e rainha, rogai por nós!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Crise na Igreja: Dupla Gênese

                     Lutero inspirado pelo Demônio


Prof. Pedro M. da Cruz

Como entender a possibilidade de uma crise tão delicada no interior da Igreja fundada pelo próprio Cristo, Nosso Senhor? Recordemos, ainda outra vez, o caso arquetípico por nós já tantas vezes apresentado: “a traição de Judas Iscariotes.” Não era ele membro do seleto grupo apostólico?

De fato, ele fora escolhido diretamente pelo Salvador. Este apóstolo comia com o Cristo, andava ao seu lado, escutava de seus lábios divinos os mistérios do Reino dos céus... Entretanto, mesmo provando tão altas honrarias, traiu vergonhosamente ao Filho de Deus.

Ora, se algo tão desastroso se deu inclusive com um dos doze apóstolos, selecionados pessoalmente pelo Redentor, não é de se admirar que o mesmo continue a ocorrer atualmente entre alguns membros da hierarquia eclesiástica. Ao encontrarmos nas Sagradas Escrituras a lastimosa realidade da traição mesmo entre os mais íntimos do Cristo, sentimo-nos precavidos sobre bispos e padres que possam revoltar-se contra o Salvador. À imagem de Judas, trocam a fonte de toda felicidade por qualquer bem aparente.

Sim! A possibilidade de traidores dentro da Igreja de Deus, como já temos observado, sempre esteve presente na mente dos primeiros cristãos. São Paulo afirmara-o aos anciãos de Éfeso:

“Sei que depois de minha partida se introduzirão entre vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho. Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas com o intento de arrebatarem após si os discípulos. Vigiai!”

E noutra parte também escrevera: “Se o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz, é bem normal que seus agentes se disfarcem em ministros da justiça.”

Portanto, não é de espantar o fato de encontrarmos falsários e operários desonestos, disfarçados em apóstolos de Nosso Senhor. Na verdade, os mesmos permanecerão juntos aos bons até o fim dos tempos; e, essa é uma assertiva do próprio Evangelho: “Assim como se recolhe o joio para jogá-lo ao fogo, também será no fim do mundo. O filho do homem enviará seus anjos, que retirarão de seu Reino todos os escândalos e todos os que fazem o mal e os lançarão na fornalha ardente...” Vejam bem, caros leitores: isso se dará tão somente “... no fim do mundo...”. Sendo assim, que os filhos da luz não se iludam numa esperança infundada.

- A Dupla Gênese

Mas, o que levaria essas pessoas ao péssimo caminho do erro? Tendo podido alcançar os cumes da ortodoxia, por que chegaram à negação de verdades tão fundamentais da fé cristã? Dom Antônio de Castro Mayer, em interessante Carta Pastoral sobre os problemas do apostolado moderno, esclarece-nos sobre assunto tão pertinente.

Segundo o autor, a gênese destes erros está, por um lado, na própria fraqueza da natureza humana decaída. “A sensualidade e o orgulho suscitam e sempre suscitarão até o fim dos séculos a revolta de certos filhos da Igreja contra a doutrina e o espírito de N. S. Jesus Cristo.”

Por outro lado, no entanto, junto a essa “gênese natural” dos erros e das crises de que nos ocupamos, a explicação para tão delicado sistema de coisas, encontra-se, também, na incansável ação do demônio contra os planos de Deus. A ele foi dado, até o fim dos tempos, o poder de tentar os homens em todas as virtudes, inclusive na virtude da fé.

Assim, como nos explica o próprio D. Mayer, é obvio que até a consumação dos séculos a Igreja estará exposta a surtos internos do espírito de heresia, e não há progresso que, por assim dizer, a imunize de modo definitivo contra esse mal. “Quanto se empenha o demônio em produzir tais crises, é supérfluo mostrá-lo. Ora, o aliado que ele consegue implantar dentro das hostes fiéis é seu mais precioso instrumento de combate.”

Porém, não desanimemos, pois o Deus de toda graça conhece as limitações humanas, e, jamais nos há de abandonar nas agruras desta vida. No mais, já escrevera o autor sagrado: “Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados para além das vossas capacidades, mas com a tentação Ele vos dará os meios de suportá-las e delas sairdes.” Pobres dos que não se agarrarem aos pés de Nossa Senhora, Rainha do céu e da terra.

Virgem Aparecida, Rogai por nós!





sábado, 20 de fevereiro de 2010

Desobedecer, se necessário for!

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Theotokos (Mãe de Deus) de Vladimir
 
Prof. Pedro M. da Cruz.
 
Muitas vezes temos que desagradar aos homens para obedecer a Deus. Em situações banais, se assim podemos dizer, isso se dá de modo mais tranqüilo. De fato, quem não se afastaria dos companheiros, por exemplo, quando esses decidissem, democraticamente, que todos deveriam ver filmes pornográficos? Ou mesmo, quem não se colocaria abertamente contra o aborto numa roda de conversa, por ser esta questão evidentemente contrária à doutrina cristã? É óbvio que me refiro aqui a católicos verdadeiros, e não aos hipócritas que usam da religião como uma máscara, imaginando poder zombar de Deus. Esses, falam uma coisa e vivem outra; vão à Santa Missa por mera desculpa; não escutam uma única frase do sacerdote, e ainda se entretém em olhar freneticamente ao redor de si - até mesmo na sagrada fila da Comunhão - invejando os calçados e as roupas alheias, procurando maliciosamente sorrizinhos soltos... nem preciso me estender demais nesta questão, pois, os leitores estão fartos de ver estes tipinhos envergonhando a Igreja de Cristo.
Porém, a situação torna-se mais complicada quando somos obrigados a desobedecer a alguém que amamos com particular afeto; quando somos obrigados, pela consciência, a desobedecer aos pais, ao padre, ao Bispo... Ah, como dói no coração esta possibilidade. No entanto, uma vez que é o amor a Deus que o exige, deve-se estar pronto para tudo, até mesmo a desobedecer; e com alegria! Sim, porque a Deus deve-se amar sobre todas as coisas!
Disseram os santos apóstolos aos judeus que os haviam aprisionado: “Julgai vós mesmos se é justo diante do Senhor abedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar ...[1]. Realmente, se a justiça é a virtude de dar a cada um a parte que lhe cabe, jamais poderemos furtar-nos de entregar a Deus um coração submisso e filial, uma vida correta e santa. Esta é a parte que lhe é devida! Assim, amando a Deus de todo o coração, com toda alma e com todo o entendimento, cumpriremos com a Justiça.
O cânon 753 do Código de Direito Canônico, nos afirma que os Bispos - quer individualmente, quer reunidos nas Conferências ou em concílios particulares - embora não gozem de infalibilidade no ensinamento, são autênticos doutores e mestres dos fiéis a eles confiados, desde que se achem em comunhão com o Sumo Pontífice e os membros do Colégio episcopal. Neste caso, os cristãos estão obrigados a aderir, com religioso obséquio de espírito, a esse autêntico magistério de seus Bispos.
Mas, e quando um Bispo não estiver em comunhão com o Santo Padre, o Papa? E quando ele agir de forma contrária aos ensinamentos católicos? Estaremos obrigados a obedecer aos conselhos errôneos daquele que ensina a mentira e a engano? Claro que não! De igual maneira, um padre que pretendesse colocar-se acima do Magistério da Igreja, ensinando doutrinas condenáveis, não poderia jamais ser obedecido ao proclamar suas heresias.[2] Brademos, pois, com radicalidade: obediência pronta ao autêntico magistério de nossos pastores, e desobediência heróica a todos aqueles que ousarem se revoltar contra a Igreja! De fato, mesmo sendo oficial o ensinamento ordinário de cada Bispo, ele, no entanto, não é infalível. É possível que, um ou outro, venha a cair em erro, o que nos comprova a própria história do cristianismo.
Em circunstâncias tão dolorosas, o primeiro dever do fiel consiste em manter todo o respeito à pessoa sagrada do Pastor que lhe foi dado pela Providência, e acatar-lhe filialmente as ordens, em tudo quanto não obste à fidelidade direta e mais alta que se deve ao Vigário de Cristo.[3]
Exemplo de santa intolerância e radicalidade perante o erro, nos é narrado por Dom Mayer numa de suas Cartas Pastorais. Citando o caso de Nestório, um dos grandes heresiarcas da história, fala-nos que, no natal de 428 d.C, ano de sua eleição ao trono episcopal, aproveitando a grande multidão que se aglomerava na Basílica Catedral, ele – Nestório – anunciara terrível blasfêmia contra Nossa Senhora: “Maria – dizia ele em sua pregação - não deu a luz a Deus; seu filho não era senão um homem, instrumento da divindade”. Grande frêmito de horror percorreu os ouvintes, e um leigo, vejam bem, um leigo, Eusébio, levantando-se do meio da multidão protestou vivamente contra a impiedade do senhor Bispo. Sabemos que toda a História se alegra, até hoje, com a atitude heróica deste homem que soube defender a doutrina cristã. Que este exemplo de amor à verdade possa fecundar em nossa alma intenso ardor pela ortodoxia.
Finalmente, peçamos a Nossa Senhora a graça duma virtude heróica ao cumprirmos nosso dever apologético. Reconheçamos que, no tesouro da Revelação, há pontos essenciais cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão, independente de pertencer ou não à hierarquia da Igreja. Os verdadeiros fiéis são aqueles que extraem de seu Batismo, nas circunstâncias mais urgentes, a força necessária na luta contra a falsidade e a mentira.

[1] Atos dos Apóstolos 4, 19-20
[2] Chama-se heresia a negação pertinaz após o Batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela.
[3] MAYER, D. Antônio de Castro. Por um cristianismo autêntico. Editora Vera Cruz, 1971. Pg. 115.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Heresias

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VI

Do mesmo Tomás Moro

Censurando o mesmo Tomás Moro as diversas e encontradas seitas e doutrinas dos hereges, dizia: Hoje quero saber dêstes homens a verdade: é o mesmo que se algum caminhante perguntasse pela estrada que deve tomar a uns ociosos pícaros, que estão em roda conversando, e cada um dêles, voltando as constas para dentro, apontasse com o dedo para fora, dizendo: Vá Vossa Mercê por aqui, que vai direito.

ANOTAÇÃO

Santo Agostinho diz que desde os apóstolos até o seu tempo se contavam já noventa seitas heréticas (1). Desde então até a prevaricação de Lutero e Calvino, romperam outras noventa. Nicolau Sandero conta até o ano de 1500 cento e oitenta e uma heresias. Hossio, Lindono e Pratéolo já até o ano de 1616 contam duzentas e setenta seitas diversas, que procederam de Lutero e Calvino, com que podemos dizer aquilo de Santo Hilário: Tot existere fides quot voluntates: Que há entre os homens tantas fés quanto quereres - e aplicar também aquêle verso do Salmo 106: Effusa est contentio supor principes, et errare fecit eos in invios, et non in via (2). - Isto é: Multiplicou-se a oposição e diferença entre os seus príncipes, mestres ou cabeças, e enganaram o povo com os seus descaminhos - apartando-o do caminho, que é Cristo. - Profecto - expõe São Gregório - plebes subditas non in eam viam, quae Christus est, sed in invium trahunt: super quos recte effusa contentio dicitur, quia suis sibi vicissim allegationibus contradicunt (3). - Rabi Salomão, hebreu, disse que o gigante Golias fôra filho de cem homens e um cão. É delírio semelhante às outras fábulas dos rabinos, para significar o vasto da sua corpulência e o intrépido da sua ousadia; mas o que se pode dizer com verdade é que a heresia dos nossos tempos é filha de mais de cem heresiarcas e do diabo, porque de todos participa alguma coisa; porém, sai a pedra da funda de Davi, isto é, Pedro constituído pela mão de Cristo, pedra primária do edifício místico da Igreja, a qual vence e prostra êste soberbíssimo monstro de monstros, e nesta pedra se funda a verdadeira Igreja, que é uma só, e tem uma só fé, que tiveram os apóstolos, e um só mestre, que é o Espírito Santo. Elegante ritmo de sete anagramas a êste intento traz Oven; note-se a circunstância de que, sendo êle herege, ficava fora da união, que aqui louva, pegado ao barro, que aqui vitupera.

CERTA fides nos unico

ARCTE conectit vinculo:

CRETA non est, quae fictilis

CARET firma compagine,

CREAT qui vires spiritus

RECTA sugillans dogmate

ARCET a membris schismata (4).

Notas:

(1) Floresceu êste santo doutor no IV século.

(2) Assim lêem êste verso Arnóbio, Cassiodoro, Haymon, Hugo Lombardo, Richélio, Ludolfo e São Gregório.

(3) Na verdade, conduzem os povos que lhes são submissos, não aos caminhos de Cristo, mas aos descaminhos, e por isso se diz com muita propriedade que sôbre êles caiu o desprêzo, porque com seus pareceres contradizem-se mùtuamente (Lib. 19 in Job, c. 11, vel 14).

(4) A verdadeira fé nos une por laço estreito. Não é argila maleável, que carece de unidade sólida. A fé dá origem às fôrças do espírito, inspira os dogmas sagrados, e mantém seus adeptos afastados do cisma.

***

Fonte:

NOVA FLORESTA -Continuação do Tomo V (Padre Manuel Bernardes); H - Título I - Heresias, Hereges, Apóstatas -Capítulo VI - Do mesmo Tomás Moro, páginas: 61 - 63.

sábado, 12 de setembro de 2009

Padres e bispos heréticos?

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Huguet - Santo Agostinho derrotando as heresias
 
Por Prof. Pedro M. da Cruz
 
“Onde houver perigo iminente para a fé, os superiores devem ser argüidos, mesmo publicamente, pelos subordinados.” (Santo Tomás de Aquino)
Escrevendo sobre o Mistério da Omissão em seu Livro “Igreja e Anti-Igreja, Teologia da Libertação”, o autor, Paulo Rodrigues, faz interessantes reflexões sobre a possibilidade de heresia entre Padres e Bispos que, muitas vezes, se julguem superiores ao Magistério da Igreja fundado pelo próprio Jesus Cristo para assegurar a pureza da fé católica.
Os comentários giram em torno do texto paulino de Gálatas (2,11-14) onde São Paulo, sendo inferior em autoridade a São Pedro sobre o qual fora edificada a Igreja, vê-se no direito de criticá-lo e adverti-lo publicamente. Paulo Rodrigues, recorrendo aos ensinamentos universalmente aceitos de Santo Tomás, vai tentar expor da forma mais clara possível, sobre a necessidade de todos os Cristãos, apesar de inferiores aos padres e bispos em autoridade, deverem, em função de seu batismo, defender a verdade proclamada desde sempre pela Igreja universal sempre que for preciso. Mostrar-nos-á, de fato, a necessidade de, algumas vezes, ser imperativo resistirmos publicamente a certos erros que venham a ferir o depósito da fé cristã e causar a ruína espiritual dos cristãos.
“Quando, porém, o termo praelatus (Superior) (...), for referido à pessoa, não de Pedro, mas de um bispo, a aplicação do que ensina Santo Tomás torna-se mais clara – embora permaneça sempre a delicadeza da questão por se tratar de sucessores dos apóstolos - porque traz o aval de inúmeros exemplos históricos.
Se, de um lado, não registra a História o caso de um só papa herege ou cismático, por outro lado abundam – ao lado de muitos santos bispos – exemplos de bispos que não foram fiéis à Igreja e a Jesus Cristo. Senão vejamos:
Representantes do arianismo, heresia condenada pelos Concílios Ecumênicos de Nicéia (325) e Constantinopla (381) : os bispos Acácio, de Cesaréia (†366), e Eunômio, de Cícico (†395). O herege fundador, Ário (256-336), era bispo da Igreja de Alexandria._ Nestório (380-451), herege que fundou o nestorianismo (condenado pela Concílio de Éfeso, em 431) era patriarca de Constantinopla._ Fócio (820-895), que deixou aberto o Cisma do Oriente, era patriarca de Constantinopla. Foi excomungado pelo Papa João VIII, em 881. _ A heresia prisciliana (séc.IV), condenada pela Igreja, vem do bispo de Ávila chamado Prisciliano._ O donatismo (cisma) vem de Donato, bispo de Casa Nigra (África) . _ Ao pelagianismo (heresia que deve o nome ao sacerdote Pelágio, do séc. V) aderiram 18 bispos italianos, dentre os quais o principal discípulo de Pelágio, o bispo Juliano; todos recusaram o anátema do papa Zózimo, na Encíclica Epistola tractoria (418), contra o pelagianismo._ O apolinarismo, heresia condenada por vários concílios, como por exemplo, pelo grande Concílio de Constantinopla (381), vem de Apolinário, bispo de Laodicéia._ O monofisismo, heresia difundida pelo monge Êutiques, de Constantinopla (séc. V), é condenado pelo Concílio de Calcedônia (451). Os bispos egípcios recusam o dogma definido no Concílio (heresia portanto), consideram o monofisismo (ou eutiquianismo) a doutrina verdadeira e partem para o cisma declarado. _ O monotelismo, heresia de Sérgio, patriarca de Constantinopla, condenado pelo VI Concílio Ecumênico (680-681), de Constantinopla. _ O adocionismo e sabelismo, duas heresias professadas simultaneamente pelo bispo Paulo de Samasate, do século III, que foi condenado em 268 no Concílio de Antioquia._ Lutero (1483-1546), pai do protestantismo, era padre._ Jansenismo, heresia condenada pela Igreja, vem de Jansenius, bispo de Yepres; em 1636 deixou para ser impressa sua obra herética Augustinus.
Quietismo, heresia condenada por Inocêncio XI, em 1687, oriunda do padre espanhol M. de Molinos._ Modernismo, afluxo de todas as heresias no princípio deste século, e condenado pela Santa Sé pelo decreto Lamentabili (1907) e pelo Papa São Pio X na Encíclica Pascendi, teve no padre Alfredo Loisy, exegeta e professor no instituto católico de Paris, seu principal iniciador e fomentador. Igualmente o ex-padre jesuíta Tyrrel, na Inglaterra.
Evidentemente, estes exemplos são exceções na história da Igreja. A grande maioria dos sucessores dos Santos Apóstolos foram Bispos dignos e virtuosos, muitíssimos até elevados à honra dos altares. O que pretendemos é chamar a atenção do leitor adulto para os tempos terríveis que vivemos hoje, em que, por toda a parte, surgem novos ários, novos nestórios, novos pelágios, novos modernistas, e conclamar o leitor adulto para o ensinamento perene de Santo Tomás naquele difícil mas obrigatório ad secundum: ‘Onde houver perigo iminente para a fé, os superiores [praelati] devem ser argüidos, mesmo publicamente, pelos subordinados.’_ como outrora o povo fiel, com São Cirilo de Alexandria, aclamava nas ruas contra o patriarca Nestório: Theotókos! Theotókos! Mãe de Deus!”1
Este texto faz-nos recordar algumas palavras do Papa Bento XVI ainda Cardeal. Ele nos afirmava, com referência aos hereges do tempo moderno, que os mesmos “... não pretendem aparecer como tais.” Afinal, o próprio Cristo já nos precavia contra os lobos que apareceriam astutamente disfarçados em pele de Cordeiro. Vejamos:
Eu fico cada vez mais admirado com a habilidade dos Teólogos que conseguem defender justamente o oposto do que se encontra claramente escrito nos documentos do Magistério. E, no entanto, aquelas deturpações são apresentadas, através de hábeis artifícios dialéticos, como o ‘verdadeiro’ significado do documento em questão.”2 (J. Ratzinger)
Virgo Potens, ora pro nobis!

1 RODRIGUES, Paulo. Igreja e Anti-Igreja. Teologia da Libertação. São Paulo, T. A. Queiroz, Editor, 1985, pg. 265 – 267 (n.n.)
2 RATZINGER, Joseph; MESSORI, V. A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. Trad. Pe. Fernando J. Guimarães, CSSR. Sâo Paulo, E.P.U, 1985, pg. 14 (n.n)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pe. Fábio e o caso do livro "Cartas entre Amigos"

O sacerdote diz compreender a Ressurreição de Jesus como fruto da intuição dos Apóstolos, e diz que a Presença Real não se resume à matéria consagrada. Aos leitores, reafirmamos que, no link que citamos abaixo, não endossamos necessariamente as críticas à pessoa do padre. Se atenham ao que este escreveu.

 

No Adversus Haereses, para ver clique aqui.

 

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sábado, 20 de junho de 2009

A oração cristã desfigurada pelo erro

 Paulo L. F.

 

CistercianMonkinLectioDivina A oração é indispensável. Deixa-la, ensinava-nos Santa Teresa, é como jogar-se no inferno por si mesmo, sem necessidade dos demonios.[1] Porém, quantas dificuldades o ritmo de vida hodierno impõe a esta prática importantíssima. Sentemo-nos novamente aos pés do Mestre Divino e supliquemo-lhe confiantes: “Senhor, ensina-nos a Rezar![2] De fato, é preciso orar sempre sem jamais deixar de faze-lo.[3]

Mas o que é a oração? É uma comunicação, um encontro íntimo, pessoal e profundo entre o homem e Deus; encontro este, banhado de silêncios e diálogos, olhares e afetos; mas, nunca de uma solidão vazia, ou um aniquilamento do “eu”, nem de intimismos e fechamento egoísta. O âmago da oração cristã é o diálogo, no sentido mais amplo desta palavra. Com efeito, “comunicar”, mais que falar, é dar-se; e isto ocorre, intensamente, por exemplo, na simples comunhão de espírito entre os dois corações enamorados que se encontram. Aqui, percebe-se mais claramente a existência de um “Eu” humano e de um “Tu” divino que se abraçam sem nunca perderem suas identidades próprias.

Falamos isso, porque, atualmente, dada também a facilidade nos intercâmbios de conhecimentos, muitos cristãos tem confundido a oração cristã com técnicas orientais de meditação. Não negamos algum valor terapêutico em tais métodos, porém, criticamos suas errôneas fundamentações teológico-filosóficas, contrárias à doutrina Católica, instituída pelo Salvador.[4]

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Estas técnicas orientais de meditação que almejam um chamado “vazio mental” não tem sentido na espiritualidade cristã ,que se fundamenta no encontro profundo com o “outro”, e não em intimismos egocêntricos, ou negadores do “eu”. Na verdade, quanto mais se preocupam em “desprenderem-se de si” nestas variadas formas de meditação, mais as pessoas se apegam ao desejo velado de um autocontentamento egoísta. Santa Teresa D´avila falava-nos algo em torno disso quando nos lembrava que “o próprio cuidado que se tem em não pensar em nada, despertará o intelecto para pensar em muito.[5]

Esse esforço, estranho ao cristianismo, de uma suposta imersão no chamado “abismo indeterminado da divindade”, está fundado numa visão equivocada da realidade material criada boa por Deus, mas, que por muitos é tida como uma espécie de obstáculo à vida espiritual. Contrariando esta visão pessimista do mundo, São Paulo nos advertia: “Desde a criação, as perfeições invisíveis de Deus, o seu poder sempiterno e sua divindade, se tornam visíveis à inteligência através de suas obras.” Vê-se aqui, que longe de serem um obstáculo ao encontro com a Trindade Sacrossanta, a criação é, na verdade, uma manifestação das perfeições divinas; o que nos possibilita, segundo São Roberto Belarmino, uma elevação da mente a Deus pelos degraus das coisas criadas. “O firmamento nas alturas é a expressão de sua beleza, o aspecto do céu é uma visão de sua glória. (...) Observa o arco-íris e bendiz aquele que o fez; é muito belo no seu resplendor. São as mãos do Altíssimo que o estendem de um ponto a outro.(...) o Senhor está acima de todas as suas obras. Que podemos nós fazer para glorifica-lo?”[6]

Procurar prescindir de tudo o que é terreno, sensível e conceptualmente limitado, para, supostamente, subir ou “imergir-se” na chamada esfera do divino que, enquanto tal, não é nem terrestre, nem sensível, nem conceituável, é negar a mediação salvífica do Filho de Deus, feito homem no ventre da santíssima Virgem Maria. Ora, Cristo não se fez terreno? Não possuía um corpo sensível? Não transmitiu sua Doutrina de salvação em conceitos claros e objetivos? Sim! “O Verbo divino se fez carne e habitou entre nós.”[7] Negar, pois, o valor das coisas materiais, extensas e contingentes, no que tange a nossa vida espiritual, é prescindir do caminho ordinário, querido pelo Todo-poderoso, como meio natural de nosso relacionamento com Ele. Com efeito, o Espírito do Senhor enche todo o universo.[8]

Esta tendência de alguns grupos, cada vez mais descristianizados, em pretender o Ser Absoluto sem o concurso da imagem e de conceitos lógicos, negando assim que as coisas do mundo possam ser vistas como um vestígio que reenvie para a infinitude do Criador, é uma afronta à doutrina da Encarnação. A Sagrada Escritura é clara neste aspecto: “Há um só mediador entre Deus e os homens: Jesus Cristo, o homem que se entregou como resgate por todos.[9] Prestemos bastante atenção, caro leitor, naquilo que nos diz o Texto Sagrado: “ ... Jesus Cristo, o homem ...” . Sim! “ ...o homem...”! O único mediador entre criador e criatura é um ser plenamente humano composto de corpo material e alma espiritual; obviamente que verdadeiro Deus, porém - não nos esqueçamos – verdadeiramente homem, se bem que agora em seu estado de glorificação.

Deste modo – reconheçamos - a meditação cristã jamais pode prescindir da idéia de “Filho humanado”, Deus que se encarnou. O contrário seria uma espécie de traição ao evangelho que nos foi apresentado. Neste aspecto, a oração cristã, longe de nos conduzir a algo próximo da idéia oriental de Nirvana[10], nos coloca em um relacionamento pessoal e consciente com o mistério trinitário, onde nossa liberdade finita interage amorosamente com a liberdade infinita de um Deus boníssimo, que se deixa encontrar num céu povoado de seres gloriosos; num céu habitado pela Virgem ...

Além do mais, não podemos deixar de ver nesta aversão à pessoalidade humana e à sua individualidade, os resquícios da antiga gnose, que negava o cosmos como um todo juntamente com o criador, que ela pretendia desmascarar como um tenebroso tirano e pérfido guardião da “prisão material”.[11] Esta terrível heresia dualista, afirmava que todas as coisas materiais seriam desprezíveis, porque criadas por um “deus mau”; divindade esta, muitas vezes, identificada com Javé, o Deus do Antigo Testamento, criador do céu e da terra, e por isso mesmo, tido como o malvado aprisionador do espírito no “cárcere material”.

Partindo de tais princípios maniqueístas[12] negava-se a encarnação do Verbo, e por fim, a paixão e a ressurreição do Redentor. Para os gnósticos seria impensável um Deus que tomasse carne humana, enquanto eles pretendiam libertar-se dela para, supostamente, fundirem-se novamente no “Tudo” primordial, chamado, muitas vezes, de “Princípio indeterminado”, uma espécie de “não-ser”.

Ali, toda diferença seria suprimida, e, com ela, todo tipo de personalidade humana, segundo eles, limitadora do Ser. Os vários “eus” perderiam sua existência, uma vez que a matéria que os aprisionava teria sido vencida, e agora, reinaria novamente um perfeito “Igualitarismo”, igual ao que, supostamente, teria existido no princípio, quando o “deus-mau” ainda não havia criado a matéria.

É óbvio que o ódio pela vida e pelo mundo sensível, erigido em doutrina - já nos recordava Gustave Thibon - foi perseguido pela Igreja como uma espécie de heresia. Mas, a par da “heresia doutrinal”, fermenta a chamada “heresia afectiva”. Assim, pensa-se de um modo, porém, vive-se de acordo com a idéia oposta daquilo que se diz crêr. Com efeito, inúmeras almas, fiéis à Igreja pelo seu pensamento, orientam os seus sentimentos e as suas ações na vida espiritual de acordo com uma espécie de Maniqueísmo prático, que só ofende ao Evangelho de Cristo.[13]

Deixando para outro momento os meandros desta questão obscura e cheia de contradições, cremos haver demonstrado sucintamente a incompatibilidade entre certas práticas orientais, centradas sobre o “eu”- aqui entendido como uma parte substancial e difusa da Divindade - e a oração cristã que nos liberta duma espiritualidade intimista e nos coloca em relação pessoal com o Deus transcendente Uno e Trino, revelado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

No mais, torna-se desnecessário afirmar que, vivendo sob esta ótica católica, a prática da caridade transforma-se num imperativo. De fato, na perspectiva do evangelho, o amor a Deus implica, não somente numa postura de encanto e respeito perante natureza, mas também numa atitude resoluta de entrega amorosa de si mesmo a todos os Filhos de Deus espalhados pelo mundo.


[1] LIGÓRIO, S. Afonso de. A prática do amor a Jesus Cristo. Trad. Pe. Gervásio F. doa Anjos, C.SS.R.. São Paulo: Editora Santuário, 1996. Pg. 101

[2] S. Lucas 11,1

[3] S. Lucas 18,1

[4] Realmente, alguns livros que tratam destes métodos procuram inculcar que os mesmos se reduzem a um meio de recuperação do equilíbrio físico e cerebral através de um relaxamento geral; porém, cuidado, certas cosmovisões heterodoxas são apresentadas furtivamente entre umas e outras práticas. Confira, por exemplo: AUGUSTE, Pierre. El Yoga. Coleção Apréndalo por sí mismo. Trad. María Ángeles Aguilera Nieto. Madrid: Espasa-calpe,S.A, 1974. Pg.6.

[5] Documentos pontifícios, 233. Alguns aspectos da meditação cristã. Congregação para a Doutrina da fé. Petrópolis: Vozes, 1990. Pgs. 15-16.

[6] Eclesiástico 43, 1-37

[7] S. João 1, 14

[8] Sabedoria 1,7. Lembremo-nos, porém, do que escrevia Gustave Thibon: “Os que penetram até ao âmago da profunda e miserável natureza humana sabem quanto a carne é rica e que inefáveis colóquios ela mantém com a alma e com Deus, mas conhecem também a sua opacidade, o seu peso e a sua resistência em face do espírito. (...) ‘O segredo para viver alegre e contente – escreve Pascal – é não estar em guerra nem com Deus nem com a natureza.’” Conf. THIBON, Gustave. O que Deus uniu. Coleção Éfeso. Trad. Mário Pacheco. Lisboa: Aster, 1958. Pg.. 47-48.

[9] I Timóteo 2,5

[10] Nirvana: nos textos religiosos do budismo, um estado de repouso que consiste na extinção de qualquer realidade concreta, enquanto transitória e, por isso, causa de ilusão e de dor. Conf. Ibidem. Documentos pontifícios, 233. Alguns aspectos da meditação cristã. Pg. 16. Ver também: Biblioteca do Saber. Volume 3. São Paulo: Século XXI Editorial, 1983. pg. 98.

[11] RATZINGER, Joseph. A união das nações. São Paulo: Edições Loyola, 1975. Pg. 22. A Fé Cristã sempre apresentara o mundo e a humanidade presentes como efêmeros, insuficientes, perturbados e aviltados pelo pecado. Mas, por outro lado, nunca deixara subsistir sombra de dúvida quanto a ser este cosmos obra do próprio Deus e, por conseguinte, obra boa.

[12] Maniqueísmo: defende a existência de dois princípios divinos opostos, o princípio do Bem, criador do mundo espiritual, e o princípio do Mal, criador da matéria, da qual os homens devem se libertar. Usamos o termo, obviamente, como expressão de uma idéia que é anterior ao próprio movimento maniqueu, gerado pelo espírito gnóstico.

[13] Ibidem. THIBON, Gustave. O que Deus uniu ... pg. 36.