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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Confiança em Deus

 

São Policarpo

De São Policarpo, bispo e mártir.

 

Caminhando êste santíssimo prelado com um seu diácono, por nome Camério, agasalhou-se em certa estalagem; e já alta noite o seu anjo o acordou, avisando-o que se saísse logo, porque a casa havia de cair. Acordou êle também ao companheiro; porém êste, como estava cansado do trabalho da jornada, recusava deixar o sono, e lhe disse: Padre, creio em Deus que, enquanto vós aqui estais, não há de cair a casa; deixemo-nos estar. Respondeu o santo: Também eu creio em Deus; mas não creio nestas paredes: saiamo-nos depressa. - Apenas tinham pôsto o pé fora, quando o edifício se veio abaixo.

REFLEXÃO E DOUTRINA

Camério queria cama, e dormir mais um pouco sôbre os merecimentos do companheiro, e que o aviso do céu não fôsse tão madrugador. Era o mesmo que dizer: A minha preguiça pega de mim, e eu de vós: Vós santo, tendo mão em Deus, e Deus tenha mão na casa; tempo tem esta de cair, depois que caírem as estrêlas, e se levantar o sol; tempo tem de cair, depois que eu arrecadar o de dormir. Bem sei que o sono é imagem da morte, mas eu tomara escapar do original, sem me desabraçar da imagem; pela manhã terei os olhos mais despegados para ver a maravilha. Grande é o benefício de não caírem os telhados sôbre mim; porém não é pequena a pensão de me levantar eu dos colchões. Ora, padre, creio em Deus, que, enquanto vós aqui estais, não há de cair a casa. - Dêste modo lhe subministra confiança falsa a sua preguiça verdadeira. Bem disse Valério Máximo que o espírito humano, impelido da temeridade, não sabia avaliar nem os perigos próprios nem as ações alheias: Temeritatis impulsu hominum mentes concussae, nec sua pericula respicere, nec aliena facta justa aestimatione prosequi valent (1).

Disse o santo: Também eu creio em Deus; porém não creio nessas paredes. - Não pareça ao leitor que falta no mundo gente que crê ou creu em paredes. No sentir do Apóstolo, e de São Gregório Magno, os hipócritas são paredes; e, ainda mal, que tantos crêem nos hipócritas (2). Os judeus cercados por Tito em Jerusalém, por muito que êste os rogou se entregassem a partido, porque de outro modo todos haviam de parecer, ou dentro, à espada da fome cruel, ou fora, à fome da espada vingativa, nunca se quiseram render, e a causa desta pertinácia foi o muito que criaram nas paredes do seu Templo, persuadidos a que não havia de permitir Deus que padecessem ruína ou incêndio. Os setenta idólatras que Deus mostrou ao profeta Ezequiel, estavam todos diante de uma parede pintada com as formas de vários animais e sevandijas; e tinham nas mãos turíbulos com que incensavam esta parede, na qual criam (3). A letra do Testamento Velho não foi outra coisa que uma parede, detrás da qual estava como escondido o Messias, dando-se a conhecer sòmente aos profetas e sábios por alguns resquícios de revelação de seus ministérios, ou da interpretação das Escrituras (4). E só nesta parede crêem e ainda esperam os israelitas; esta - como diz o profeta Isaías (5), e expõe entendendo o seu sentido. Nesta - como diz o profeta Amós (6) - se encostam totalmente, e dela sai a cobra da infidelidade que os morde. Finalmente, as igrejas dos hereges, onde não há ver cruz, nem imagens sagradas, nem altares, nem missas, nem outros divinos ofícios, que são senão sòmente paredes? E nestas paredes crêem êles, nestas confiam que vão a salvamento. E nenhuma destas paredes creiamos, porque tôdas ou já caíram ou hão de cair.

Note - se quanto valeu a Camério a companhia de São Policarpo. É Deus tão pio e amigo de não puxar pela espada da sua ira que, por amor de algum servo seu, costuma perdoar não só a outros menos justos, senão ainda a muitos pecadores. A companhia de São Paulo valeu a vida duzentos e setenta e seis pessoas, que com êle navegaram, e sem êle certamente pereceriam: Donavit tibi Deus omnes qui navigant tecum (7). - A companhia de Josafá, rei de Judá, valeu a outros dois reis, que estavam com êle em campanha, para não morrerem à sêde, êles, e todos seus exércitos: Si non vultum Josaphat erubescerem, non attendissem quidem (8). - Por dez justos que houve na Pentápole vinha Deus em perdoar-lhe: Non delebo propter decem (9). - São os santos na Igreja Católica trigo bom no campo de Cristo: o misturar-se com êle a cizânia lhe aproveita para não ser logo arrancada: Sinite utraque crescere usque ad messem (10). - Do louro dizem que vale contra os raios; por isso o imperador Tibério nunca deixava de andar coroado dêle (11); muito mais valerão contra a ira do Onipotente os laureados pela vitória de si mesmos. Quando alguém se salvava de algum perigo evidente, lhe diziam por adágio: Trazeis bordão de louro. - Quem acompanha com o varão amigo de Deus, leva bordão de louro, que o livra de muitos casos infelizes. Chagar-se aos bons é ditame prudentíssimo: só êles sabem manter as leis da boa amizade: E a boa amizade - como gravemente disse Cassiodoro (12) - para os ricos serve de glória, para os pobres de renda, para os desterrados de pátria, para os fracos de esfôrço, para os enfermos de medicina, e até para os mortos de vida. - Não parece que pode haver melhor símil para intimar o quanto pode uma boa companhia que o da água misturada com vinho no cálice que se consagra. Porque desta mistura lhe vem a nobreza, e - para o dizermos assim - a ventura de se converter em sangue verdadeiro de Cristo, o que é verdade ainda quando a água se não tinha convertido já em vinho ao tempo da consagração, se seguirmos a sentença dos cardeais Alano, Barônio, Lugo e Toledo, que parece ser de muitos santos padres antigos, e é de graves teólogos modernos (13). E eis aqui a altura a que subiu a criatura da água, só porque acompanhou com a do vinho, matéria dêste cálice do Novo e Eterno Testamento. Por isso os companheiros dos santos patriarcas das sagradas religiões ordinàriamente também foram santos: como se vê em Paulo, o simples, companheiro de Santo Antão Abade; Geraldo, companheiro de São Bernardo; Mauro, companheiro de São Bento; frei Leão e frei Egídio, companheiros de São Francisco; Antão Martins, companheiro de São João de Deus; Ana de São Bartolomeu, companheira de Santa Teresa; e outros muitos exemplos. Oh! Quantos espíritos, frouxos e frios como água, se tornariam fortes e generosos como vinho, se acompanhassem com outros, que o são, no fervor e alegria com que servem a Deus!

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Notas:

1. Dictorum Memorabilium, lib. 9, cap. 8.

2. Percutiet te Deus, paries dealbate: Deus te ferirá a ti, parede branqueada (At 23,3).

- Greg., relatus in c. Nisi bella, 23, q. I.

3. Éz 8, 10s.

4. En ipse stat post parietem nostrum, respiciens per fenestras: Ei-lo aí está pôsto por detrás da nossa parede, olhando pelas janelas (Cânt 2,9).

5. Palpavimus sicut caeci parietem, et quasi absque oculos attrectavimus: Andamos como cegos apalpando as paredes, e, como senão tivéssemos olhos, fomos pelo tacto (Is 59,10).

6. Quomodo si... innitatur manu sua super parietem, et mordeat eum coluber: Como se um homem... segurando-se com a sua mão à parede, o mordesse então uma cobra (Am 5,19).

7. Deus te há dado todos os que navegam contigo (At 27,24).

8. Se não fôsse por respeitar a pessoa de Josafá, eu sem dúvida não atenderia ( 4 Rs 3, 14)

9. Eu a não destruirei por amor dos dez (Gên 18,32).

10. Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa (Mt 13, 30).

11. Sueton. In ejus vita.

12. In proemio lib. De Amicitia: Amicitia est divitibus pro gloria, pauperibus pro censu, exuribus pro patria, imbecillibus pro virtude, pro medicina aegrotis, mortuis pro vita.

13. Cyprian., Hieron., Ambros., Pascas., Justin., M. Iraenaeus, quos citat et sequitur Rhoad., disp. I de Euchar., q. 2, § 3, Conink., Pasqualig., Salmer., et alii.

 

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- Dados da Obra -


Obras Completas - Padre Manuel Bernardes.
Editora das Américas.
Volume IV
Matéria contida neste volume:
NOVA FLORESTA
Nova Floresta - Tomo IV
Nihil Obstat - Padre Antônio Charbel. S.D.B
Imprimatur - São Paulo, 10 de Julho de 1959

† Paulo Rolim Loureiro - Bispo Auxiliar e Vigário Geral

Páginas: 301 a 305

Título V - Confiança em Deus

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Heresias

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VI

Do mesmo Tomás Moro

Censurando o mesmo Tomás Moro as diversas e encontradas seitas e doutrinas dos hereges, dizia: Hoje quero saber dêstes homens a verdade: é o mesmo que se algum caminhante perguntasse pela estrada que deve tomar a uns ociosos pícaros, que estão em roda conversando, e cada um dêles, voltando as constas para dentro, apontasse com o dedo para fora, dizendo: Vá Vossa Mercê por aqui, que vai direito.

ANOTAÇÃO

Santo Agostinho diz que desde os apóstolos até o seu tempo se contavam já noventa seitas heréticas (1). Desde então até a prevaricação de Lutero e Calvino, romperam outras noventa. Nicolau Sandero conta até o ano de 1500 cento e oitenta e uma heresias. Hossio, Lindono e Pratéolo já até o ano de 1616 contam duzentas e setenta seitas diversas, que procederam de Lutero e Calvino, com que podemos dizer aquilo de Santo Hilário: Tot existere fides quot voluntates: Que há entre os homens tantas fés quanto quereres - e aplicar também aquêle verso do Salmo 106: Effusa est contentio supor principes, et errare fecit eos in invios, et non in via (2). - Isto é: Multiplicou-se a oposição e diferença entre os seus príncipes, mestres ou cabeças, e enganaram o povo com os seus descaminhos - apartando-o do caminho, que é Cristo. - Profecto - expõe São Gregório - plebes subditas non in eam viam, quae Christus est, sed in invium trahunt: super quos recte effusa contentio dicitur, quia suis sibi vicissim allegationibus contradicunt (3). - Rabi Salomão, hebreu, disse que o gigante Golias fôra filho de cem homens e um cão. É delírio semelhante às outras fábulas dos rabinos, para significar o vasto da sua corpulência e o intrépido da sua ousadia; mas o que se pode dizer com verdade é que a heresia dos nossos tempos é filha de mais de cem heresiarcas e do diabo, porque de todos participa alguma coisa; porém, sai a pedra da funda de Davi, isto é, Pedro constituído pela mão de Cristo, pedra primária do edifício místico da Igreja, a qual vence e prostra êste soberbíssimo monstro de monstros, e nesta pedra se funda a verdadeira Igreja, que é uma só, e tem uma só fé, que tiveram os apóstolos, e um só mestre, que é o Espírito Santo. Elegante ritmo de sete anagramas a êste intento traz Oven; note-se a circunstância de que, sendo êle herege, ficava fora da união, que aqui louva, pegado ao barro, que aqui vitupera.

CERTA fides nos unico

ARCTE conectit vinculo:

CRETA non est, quae fictilis

CARET firma compagine,

CREAT qui vires spiritus

RECTA sugillans dogmate

ARCET a membris schismata (4).

Notas:

(1) Floresceu êste santo doutor no IV século.

(2) Assim lêem êste verso Arnóbio, Cassiodoro, Haymon, Hugo Lombardo, Richélio, Ludolfo e São Gregório.

(3) Na verdade, conduzem os povos que lhes são submissos, não aos caminhos de Cristo, mas aos descaminhos, e por isso se diz com muita propriedade que sôbre êles caiu o desprêzo, porque com seus pareceres contradizem-se mùtuamente (Lib. 19 in Job, c. 11, vel 14).

(4) A verdadeira fé nos une por laço estreito. Não é argila maleável, que carece de unidade sólida. A fé dá origem às fôrças do espírito, inspira os dogmas sagrados, e mantém seus adeptos afastados do cisma.

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Fonte:

NOVA FLORESTA -Continuação do Tomo V (Padre Manuel Bernardes); H - Título I - Heresias, Hereges, Apóstatas -Capítulo VI - Do mesmo Tomás Moro, páginas: 61 - 63.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

ALGUNS SINAIS MAIS RAROS E CERTOS DE GRANDE APROVEITAMENTO NAS VIRTUDES


Padre Manuel Bernardes

  1. Cair muito raramente em pecados veniais.

  2. Grande horror ao pecado e grande esforço e diligência em evitar até as mínimas imperfeições.

  3. Contínuo ou quase contínuo fervor em fazer com perfeição os exercícios e obras quotidianas.

  4. Exata paciência nas adversidades sem movimentos (ainda primeiros) de ira, indignação, ou aversão às pessoas que as causaram.

  5. Amar a Cruz e qualquer humiliação, abatimento, ou injúria pessoal em tal grau, que quando sucedem de presente, ou quando se representam à memória as passadas, ou futuras, logo sem repugnância (por benefício de Deus) se levante um ardente desejo e gosto delas: do modo que nos imperfeitos se levantam movimentos maus, quando se oferece algum olgum objeto pecaminoso.

  6. Contínuo ou quase contínuo desvelo de aproveitar nas virtudes, e fome insaciável de justiça.

  7. Crescer a esperança com repentino e notável esforço, quando se oferecem trabalhos ou dificuldades grandes.

  8. Oração limpa de distrações; e então mais fervorosa, quando é tempo de alguma perseguição pessoal; e desejo insaciável de orar.

  9. Gozo nas humilhações e desprezos, junto com perseverança e alacridade nos exercícios começados.

  10. Tristeza sensível, ainda na parte inferior da alma, quando se vêem ou ouvem graves ofensas de Deus.

  11. Maior paz e tranquilidade nas tribulações que nas consolações.

  12. Aversão a deleitos dos sentidos ainda lícidos, nascida de ódio santo de si próprio, e desprezo das coisas mundanas.

  13. Maior inclinação a tratar com os varões mais perfeitos do que com os menos; e à conversação em matérias espirituais, do que à de coisas profanas, ainda que lícitas; e aos livros santos, do que aos de história, ainda que não torpe.

  14. Achar-se prontíssimo para fazer, ou deixar de fazer, qualquer coisa que insinuar o arbítrio do Superior, sem exceção mínima.

  15. Desejo ardente de padecer calúnias e opóbrios e trabalhos; e amor sincero àqueles por cuja mão lhe vierem.

  16. Fugir das comodidades e alívios do corpo e buscar as incomodidades.

  17. Extinção das tentações da carne, ou, ao menos, a notável diminuição em idade florida; e isto ainda em ocasiões que se não procuram.

  18. Nos casos adversos repentinos conservar o interior sem pertubação, ainda involuntária.

  19. Extinção total da tibieza e negligências nas obras do serviço de Deus.

  20. Não dar por respeitos humanos, junto com liberdade de espírito, asim para fazer o que descontenta aos imperfeitos e agrada a Deus; como para deixar de fazer o que estes queriam se fizesse.

  21. Domínio sobre as paixões, especialmente da ira, temor e amor.

  22. Nas humilhações públicas, ou nenhum ou notavelmente diminuido o sentir vergonha e confusão.

  23. Afetuosa união com Deus, tornada a levantar depois de qualquer ação de seu gênero distrativa, como quando acordamos de noite várias vezes.

  24. Acompanhar o trabalho de mãos, com atual devoção, e exercício de atos pios em grau intenso.

Estes sinais não só justos, mas ainda separados, indicam grande aproveitamento nas virtudes sólidas e verdadeiras, porque andam encadeadas.

Não vem incoerente ao mesmo intento a seguinte descrição do varão espiritual, que traz o P. Cornélio à Lápide, e damos sem a traduzir por lhe não quebrar a energia.

Accipe descriptionem, et hypotiposin viri sancti.

Vir Sanctus hominem interius ordinat, exterius ornat: à rebus turpibus cohibet: sermones rectos, et utiles amat.

In risum non effunditur: non clamat, nec vocem attollit: modeste incedit.

Aliorum facta curiose non inquirit.

Admonitiones hilari vultu recipit: errori aliarum facile condonat.

Humilis est, mitis, et benignus: miseris quibuslibet ex visceribus miserando compatitur.

Laudibus non extollitur: detractione non dejicitur.

Interroganti facile leniterque respondet: contendenti facile cedit: patienter alios audit.

In omnibus alios aedificare, et perficere studet.

Rari est, et gravis sermonis.

In cibo parcus, in potu sobrius, compositus in vultu et verbis.

Odit mendacium, fabulas et nugas: filius est veritatis: oculos habet demissos, et simplices.

Puritate candidus, obedientia promptus, patientia perfectus.

In oratione assiduus, in fide stabilis, in opere diligens.

In abstinentia rigidus, in moribus exemplaris, in conversatione gratus.

In verbis affabilis, in dando liberalis, amicis fidus, inimicis benignus.

Deo resignatus, sibi mortuus, mundo crucifixus: omnibus omnia, et omnes lucrifaciat.

Zelotes pro honore Dei, et salute animarum.

(Excerto de Luz e Calor – Doutrina IV)

Fonte: www.capela.org.br