terça-feira, 22 de setembro de 2009

Por uma Honduras livre

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Se você quer se informar sobre o que verdadeiramente está acontecendo em Honduras, não procure nos grandes jornais escritos ou televisivos. Eles, há muito tempo, já não são meios idôneos de informação para vários assuntos. Recomendamos para acompanhamento os links abaixo:

Reinaldo Azevedo

Coturno Noturno

 

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Dom das Línguas, segundo o Padre Vieira

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Padre Vieira 

Por Prof. Pedro M. da Cruz

“E que grande mercê seria do Espírito Santo, se neste mesmo lugar sagrado onde estamos aparecessem agora as línguas, e com elas nos achássemos de repente com socorro de missionários...” [1]
O Pe. Antônio Vieira (1608 – 1697) é, segundo os mais entendidos, uma das maiores glórias do Brasil no século XVII. Jesuíta incansável, muito lutou pela evangelização do Novo Mundo. Deste modo, seguindo as pegadas de Santo Inácio de Loyola, buscava, junto à Companhia de Jesus - onde fora ordenado sacerdote em 1635 – uma sempre maior receptividade quanto às línguas faladas nas Colônias; assim, pretendia alcançar melhores frutos na evangelização local...
Afim de defender seu ponto de vista, fez, no Colégio da Bahia, uma interessantíssima exortação, onde, inclusive, falou da idéia que se tem na Igreja Católica sobre o incompreendido Dom das Línguas. Ali, durante a véspera do Espírito Santo, presenteia-nos com mais uma prova de tudo quanto se tem defendido neste blog sobre o assunto em questão.
Observai, caro leitor, que o Padre Vieira, em nenhum momento, trata o Dom de Línguas como qualquer coisa não idiomática ou ininteligível; nem se refere a ele como algo semelhante a um simples balbuciar de sons desconexos, murmúrios infantis, ou gemidos chorosos. Muito ao contrário, sempre se refere a este Dom do Espírito Santo como sendo a maravilhosa capacidade de falar idiomas estrangeiros, até então, desconhecidos pelos missionários.
Portanto, para Antônio Vieira, assim como, para os Padres da Igreja primitiva, o Dom de Línguas, de que nos fala as Sagradas Escrituras, não é, de forma alguma, uma “Shiriacândara, cândara, lai, laiálaiá cãndara, cândara, cândara ...” – entre outras coisas semelhantes que se pronuncia como e quando se quer – é, isto sim, a possibilidade, sobrenatural, infundida por Deus (gratis data) do domínio de línguas humanas desconhecidas pelos servos de Deus que lutam na causa evangélica.
Em outros artigos trataremos novamente da questão, oferecendo diversos exemplos deste Dom na vida de muitos Santos. Por hora, contentemo-nos com as palavras do grande orador brasileiro, como orgulhosamente é chamado:
“ 444. Apareceram sobre os Apóstolos línguas de fogo partidas, as quais se assentaram sobre cada um deles. Este foi o sinal visível com que o Espírito Santo desceu sobre o Colégio Apostólico, e esta a traça maravilhosa com que a misericórdia divina, sobre as ruínas de uma fábrica que sua justiça tinha derrubado, levantou e edificou a maior obra que nunca intentaram os homens. A maior obra que intentou a ambição e vaidade humana foi aquela que depois se chamou Torre de Babel, tão alta nos seus pensamentos que chegasse até o céu.[2] E Deus, que nunca sofreu altivezas muito menores, que meio tomaria para desfabricar aquela máquina, para desbaratar aqueles intentos, e para fazer que antes de ser torre fosse ruína? ‘Vinde, confundamos a sua língua.’[3] Aqueles homens, que eram quantos então havia no mundo, todos falavam uma só língua, e esta língua confundiu Deus de tal maneira que de repente se começaram a falar e ouvir em toda aquela multidão de trabalhadores tantas línguas quantos eram os mesmos homens. Todos depois disto falavam, e todos ouviam, mas, como bem notou Filo Hebreu, todos no mesmo tempo ficaram surdos e mudos. Surdos, porque falando nenhum percebia o que diziam.
445. Tal foi o delito e tal o castigo antigamente; mas hoje estamos na véspera de um dia em que, trocada a justiça em misericórdia, querendo Deus edificar outra torre própria sua, do mesmo delito tomou a traça, e do mesmo castigo os instrumentos. O delito daqueles homens foi quererem edificar uma torre que chegasse até o céu, e Deus, seguindo a mesma traça e o mesmo desenho, não se contentou com menos que com edificar outra torre, que não só chegasse ao céu, mas levasse e metesse no céu os mesmos autores daquele pensamento. Esta torre é a Igreja Católica, a qual desceu a fundar o Espírito Santo por sua mesma pessoa, e na qual se verifica propissimamente o cujus culmen pertigant ad caelum [4]- porque, sendo militante na terra, é juntamente triunfante no céu. E para que a Segunda circunstância fosse tão maravilhosa como a primeira, assim como do delito tomou Deus a traça da sua obra, assim do castigo tomou os instrumentos dela, fundando e levantando uma torre com os mesmos instrumentos com que tinha abatido a outra. Quais foram os instrumentos com que Deus abateu e confundiu a Torre de Babel? Foram as novas e várias línguas em que dividiu e multiplicou aquela língua universal e única que todos falavam. Pois, por isso desceu o Espírito Santo sobre os apóstolos em forma também de línguas, muitas e repartidas: “Apareceram repartidas umas como línguas...” (At. 2,3) – para que por este modo, assim como, confundindo as línguas nos edificadores da torre, impediu a obra que eles intentavam, assim, infundindo as línguas nos apóstolos e pregadores da fé, fundasse, estabelecesse e propagasse a sua, que era a Igreja.
446. Qual fosse o número das línguas cuja notícia receberam os apóstolos não se pode definir ao certo. Só se sabe que foram tantas, nem mais nem menos, quantas originalmente tiveram seu princípio na Torre de Babel. Na Torre de Babel nasceram, dali se dividiram em várias nações, depois se estenderam por todo o mundo, e ultimamente se tornaram a ajuntar no Cenáculo de Jerusalém, sendo tão milagrosa esta última união como tinha sido milagrosa sua primeira origem. E se alguém perguntar como, sendo estas e aquelas línguas em tudo as mesmas, tiveram tão diversos e contrários efeitos, que umas impediram e fizeram parar a obra, e as outras a adiantaram e fizeram crescer tanto, a razão é manifesta. As línguas dos edificadores da torre eram línguas que os homens ignoravam e não entendiam, e essas mesmas línguas no Cenáculo de Jerusalém eram línguas que os apóstolos entendiam, e de que tiveram inteira e perfeita ciência, e essa é a grande diferença que há em obrar com ciência das línguas ou com ignorância delas. Todos os homens quantos havia no mundo, com ignorância das línguas, não puderam acrescentar à torre uma pedra sobre outra pedra; e doze homens no Cenáculo, com ciência das línguas, puderam fundar a Igreja, e estendê-la por todo o mundo: “O Espírito do Senhor encheu o universo, e, como abrange tudo, tem conhecimento de tudo o que se diz.”[5] (...) porque o mundo teve ciência das vozes, que foi quando os apóstolos receberam o dom das línguas, esse foi o modo e o meio com que eles encheram o mundo do Espírito Santo, ou o Espírito Santo por eles encheu o mundo: ‘O Espírito do Senhor encheu toda a terra.’
447. De todo este discurso se convence quão importante coisa é, e quão totalmente necessária a todos os que imitam o espírito apostólico e se ocupam na conversão das almas, a ciência e inteligência das línguas. Mas se o dom das línguas se acabou com a primitiva Igreja, e passou com os fundadores dela, que faremos nós, empenhados na mesma obrigação, sem esta ajuda de custo, e mandados trabalhar na mesma obra, sem Deus nos dar os mesmos instrumentos? (...) se aos apóstolos deu as línguas de fogo, aos que têm espírito apostólico dá o fogo das línguas. No mesmo texto o temos, coisa muito digna de se advertir: Apareceram sobre os apóstolos línguas de fogo, o qual fogo se assentou sobre eles.[6] – De maneira que não foram as línguas as que se assentaram, senão o fogo. E por quê? Porque as línguas vieram de passagem, e passaram com a primitiva Igreja; porém o fogo das mesmas línguas este não passou, mas permaneceu e ficou de assento: Sedit . E que fogo de línguas é este? É o zelo e fervor ardente que tem e sempre tiveram os herdeiros do espírito apostólico de saber, estudar e aprender as línguas estranhas, para com elas pregar o Evangelho, propagar a fé e amplificar a Igreja.
448. (...) O que fez Santo Inácio foi fundar e levantar outra terceira torre, também fornecida e armada de todas as línguas, para que, instruidos repartidamente seus filhos em todas, pudessem ensinar e converter com elas todas as nações. A primeira torre foi a de Nembrot, em que se confundiram as línguas; a segunda torre foi a do Espírito Santo, em que se infundiram; a terceira torre é a de S. Inácio, em que não se confundem nem se infundem. Não se confundem, porque se aprendem distinta e ordenadamente; nem se infundem, porque não são graça gratis data, como o dom das línguas, mas adquirida e comprada a preço de muito estudo e grande trabalho, e por isso com muitos e grandes merecimentos.”
Org.: Paulo L. F.
Conferir: VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. VIII. Revisão e adaptação de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Erechim, EDELBRA , 1998. Pág. 44-59. (Os negritos são nossos. No mais, retiramos citações em latim para suavizar o texto, e distribuímos citações em notas de rodapé.)
 
"Ora pro nobis Sancta Dei Genetrix, ut digni efficiamur promissionibus Christi"
 

[1] VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. VIII. Revisão e adaptação de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Erechim, EDELBRA , 1998. pg. 51.
[2] Gênesis 11,4
[3] Ibid. 7.
[4] Parte do texto de Gên. 11, 4 onde se lê: “... cujo cume chegue até o céu.”
[5] Sabedoria 1,7
[6] Atos 2, 3
Referências Bibliográficas:
VIEIRA, Pe. Antônio. Sermões, Padre Antônio Vieira. Vol. VIII. Revisão e adaptação de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Erechim, EDELBRA , 1998. 478 pg.
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. Vol. I. 2 Ed. Rio de janeiro: Sul Americana, 1968. 400 pg.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Da necessidade da direção espiritual para se santificar - São Francisco de Sales

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CAPÍTULO IV

Necessidade de um diretor espiritual para entrar e progredir nos caminhos da devoção

Querendo Tobias mandar o filho a uma terra longínqua e estranha, disse-lhe: Vai em busca de algum homem que te seja fiel, que vá contigo.É o que te digo também a ti, Filotéia; se tens uma vontade sincera de entrar nas veredas da devoção, procura um guia sábio e prático que te conduza. Esta é a advertência mais necessária e importante.

Em tudo o que fazemos - diz o devoto Ávila - só temos certeza de estar fazendo a vontade de Deus, enquanto não nos apartamos daquela obediência submissa, que os santos tanto encomendaram e praticaram tão fielmente.

Ouvindo Santa Teresa da austeridade e penitências de Catarina de Cardona, concebeu grande desejo de imitá-la e foi tentada a não seguir o seu confessor, que lho proibia.

Entretanto, como se submetesse, Nosso Senhor lhe disse: “Minha filha, o caminho que segues é bom e seguro; tu estimavas muito essas penitências, mas eu estimo mais ainda tua obediência”. Desde então ela devotou-se tanto a esta virtude que, além da obediência devida a seus superiores, ela se ligou, por um voto especial, a seguir a direção de um homem prudente e de bem, o que sempre a edificou e consolou muito. De modo semelhante, já antes e depois dela, muitas almas santas, que queriam viver inteiramente sob a dependência de Deus, submeteram a sua própria vontade à de um de seus ministros. É essa a sujeição humilde que Santa Catarina de Sena tanto encomia em seus diálogos. Foi também a prática da santa princesa Isabel, que prestava uma obediência perfeita à direção do sábio Conrado. Nem outro foi o conselho que, ao morrer, deu a S. Luís, seu filho.

“Confessa-te a miúdo e escolhe em confessor insigne por sua ciência e sabedoria, o qual te ajude com suas luzes em tudo o que for necessário para a tua direção espiritual”.

O amigo fiel é uma forte proteção - diz a Sagrada Escritura - Quem o achou achou um tesouro. O amigo fiel é um medicamento de vida e de imortalidade, e os que temem o Senhor acharão um tal amigo.

Trata-se aqui principalmente da imortalidade da vida futura; e, se a quisermos alcançar, convém ter um amigo fiel ao nosso lado, que dirija as nossas ações com uma mão segura, através das ciladas e embustes do inimigo. Ele será para nós um tesouro de sabedoria para evitar o mal e praticar o bem de uma maneira mais perfeita; ele nos dará conforto para aliviar-nos em nossas quedas e nos dará o remédio mais necessário para a cura perfeita de nossas enfermidades espirituais.

Mas quem achará um tal amigo? Diz o sábio que é aquele que teme a Deus, isto é, o homem humilde que anseia com ardor o seu adiantamento espiritual. Se é, pois, tão importante, Filotéia, ter um guia experimentado nos caminhos da devoção, pede com todo o fervor a Deus que te mande um segundo o seu Coração e não duvides nem um instante que ele te enviará um diretor sábio e fiel, ainda que fosse um anjo do céu, como ao jovem Tobias.

De fato, esse amigo deve ser um anjo para ti, isto é, uma vez que o tenhas obtido de Deus, já não o deves considerar como um simples homem. Não deposites a tua confiança nele senão com respeito a Deus, que, por seu ministério, te quer guiar e instruir, suscitando no seu coração e nos seus lábios os sentimentos e as palavras necessárias para a tua direção. Por isso deves ouvi-lo como a um anjo que vem do céu para te dirigir. Ajunta a esta confiança uma sinceridade a toda prova, tratando-o franca e abertamente e deixando-lhe ver em tua alma todo o bem e o mal que aí se encontram: o bem será mais certo e o mal menos profundo; a tua alma será mais forte nas adversidades e mais moderada nas consolações. Um religioso respeito também deves ajuntar à confiança, de tal forma que o respeito não diminua a confiança, nem a confiança o respeito. Confia nele como uma filha em seu pai e respeita-o como um filho sua mãe. Numa palavra: esta amizade, que deve unir a força com a doçura, tem que ser toda espiritual, toda santa, toda sagrada, toda divina.

“Escolhe, pois, um entre mil - diz Ávila” - e eu te digo: escolhe um entre dez mil, porque se acham muito menos do que se cuida, que sejam capazes deste ofício. Deve ser cheio de caridade, ciência e prudência; se faltar uma destas três qualidades, a escolha será arriscada. Repito-te ainda uma vez: suplica a Deus um diretor e, quando o achares, agradece à divina Majestade; persevera então em tua escolha, sem ir procurar outros; caminha para Deus com toda a simplicidade, humildade e confiança e tua viagem será certamente feliz.

***

Autor: S. Francisco de Sales - Bispo e príncipe de Genebra
Obra: FILOTÉIA ou Introdução à vida devota - Traduzida por Frei João José P. de Castro, O.F.M
14º Edição
Editora Vozes - Petrópolis 2002
Páginas: 38 a 42

sábado, 12 de setembro de 2009

Padres e bispos heréticos?

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Huguet - Santo Agostinho derrotando as heresias
 
Por Prof. Pedro M. da Cruz
 
“Onde houver perigo iminente para a fé, os superiores devem ser argüidos, mesmo publicamente, pelos subordinados.” (Santo Tomás de Aquino)
Escrevendo sobre o Mistério da Omissão em seu Livro “Igreja e Anti-Igreja, Teologia da Libertação”, o autor, Paulo Rodrigues, faz interessantes reflexões sobre a possibilidade de heresia entre Padres e Bispos que, muitas vezes, se julguem superiores ao Magistério da Igreja fundado pelo próprio Jesus Cristo para assegurar a pureza da fé católica.
Os comentários giram em torno do texto paulino de Gálatas (2,11-14) onde São Paulo, sendo inferior em autoridade a São Pedro sobre o qual fora edificada a Igreja, vê-se no direito de criticá-lo e adverti-lo publicamente. Paulo Rodrigues, recorrendo aos ensinamentos universalmente aceitos de Santo Tomás, vai tentar expor da forma mais clara possível, sobre a necessidade de todos os Cristãos, apesar de inferiores aos padres e bispos em autoridade, deverem, em função de seu batismo, defender a verdade proclamada desde sempre pela Igreja universal sempre que for preciso. Mostrar-nos-á, de fato, a necessidade de, algumas vezes, ser imperativo resistirmos publicamente a certos erros que venham a ferir o depósito da fé cristã e causar a ruína espiritual dos cristãos.
“Quando, porém, o termo praelatus (Superior) (...), for referido à pessoa, não de Pedro, mas de um bispo, a aplicação do que ensina Santo Tomás torna-se mais clara – embora permaneça sempre a delicadeza da questão por se tratar de sucessores dos apóstolos - porque traz o aval de inúmeros exemplos históricos.
Se, de um lado, não registra a História o caso de um só papa herege ou cismático, por outro lado abundam – ao lado de muitos santos bispos – exemplos de bispos que não foram fiéis à Igreja e a Jesus Cristo. Senão vejamos:
Representantes do arianismo, heresia condenada pelos Concílios Ecumênicos de Nicéia (325) e Constantinopla (381) : os bispos Acácio, de Cesaréia (†366), e Eunômio, de Cícico (†395). O herege fundador, Ário (256-336), era bispo da Igreja de Alexandria._ Nestório (380-451), herege que fundou o nestorianismo (condenado pela Concílio de Éfeso, em 431) era patriarca de Constantinopla._ Fócio (820-895), que deixou aberto o Cisma do Oriente, era patriarca de Constantinopla. Foi excomungado pelo Papa João VIII, em 881. _ A heresia prisciliana (séc.IV), condenada pela Igreja, vem do bispo de Ávila chamado Prisciliano._ O donatismo (cisma) vem de Donato, bispo de Casa Nigra (África) . _ Ao pelagianismo (heresia que deve o nome ao sacerdote Pelágio, do séc. V) aderiram 18 bispos italianos, dentre os quais o principal discípulo de Pelágio, o bispo Juliano; todos recusaram o anátema do papa Zózimo, na Encíclica Epistola tractoria (418), contra o pelagianismo._ O apolinarismo, heresia condenada por vários concílios, como por exemplo, pelo grande Concílio de Constantinopla (381), vem de Apolinário, bispo de Laodicéia._ O monofisismo, heresia difundida pelo monge Êutiques, de Constantinopla (séc. V), é condenado pelo Concílio de Calcedônia (451). Os bispos egípcios recusam o dogma definido no Concílio (heresia portanto), consideram o monofisismo (ou eutiquianismo) a doutrina verdadeira e partem para o cisma declarado. _ O monotelismo, heresia de Sérgio, patriarca de Constantinopla, condenado pelo VI Concílio Ecumênico (680-681), de Constantinopla. _ O adocionismo e sabelismo, duas heresias professadas simultaneamente pelo bispo Paulo de Samasate, do século III, que foi condenado em 268 no Concílio de Antioquia._ Lutero (1483-1546), pai do protestantismo, era padre._ Jansenismo, heresia condenada pela Igreja, vem de Jansenius, bispo de Yepres; em 1636 deixou para ser impressa sua obra herética Augustinus.
Quietismo, heresia condenada por Inocêncio XI, em 1687, oriunda do padre espanhol M. de Molinos._ Modernismo, afluxo de todas as heresias no princípio deste século, e condenado pela Santa Sé pelo decreto Lamentabili (1907) e pelo Papa São Pio X na Encíclica Pascendi, teve no padre Alfredo Loisy, exegeta e professor no instituto católico de Paris, seu principal iniciador e fomentador. Igualmente o ex-padre jesuíta Tyrrel, na Inglaterra.
Evidentemente, estes exemplos são exceções na história da Igreja. A grande maioria dos sucessores dos Santos Apóstolos foram Bispos dignos e virtuosos, muitíssimos até elevados à honra dos altares. O que pretendemos é chamar a atenção do leitor adulto para os tempos terríveis que vivemos hoje, em que, por toda a parte, surgem novos ários, novos nestórios, novos pelágios, novos modernistas, e conclamar o leitor adulto para o ensinamento perene de Santo Tomás naquele difícil mas obrigatório ad secundum: ‘Onde houver perigo iminente para a fé, os superiores [praelati] devem ser argüidos, mesmo publicamente, pelos subordinados.’_ como outrora o povo fiel, com São Cirilo de Alexandria, aclamava nas ruas contra o patriarca Nestório: Theotókos! Theotókos! Mãe de Deus!”1
Este texto faz-nos recordar algumas palavras do Papa Bento XVI ainda Cardeal. Ele nos afirmava, com referência aos hereges do tempo moderno, que os mesmos “... não pretendem aparecer como tais.” Afinal, o próprio Cristo já nos precavia contra os lobos que apareceriam astutamente disfarçados em pele de Cordeiro. Vejamos:
“Eu fico cada vez mais admirado com a habilidade dos Teólogos que conseguem defender justamente o oposto do que se encontra claramente escrito nos documentos do Magistério. E, no entanto, aquelas deturpações são apresentadas, através de hábeis artifícios dialéticos, como o ‘verdadeiro’ significado do documento em questão.”2 (J. Ratzinger)
Virgo Potens, ora pro nobis!

1 RODRIGUES, Paulo. Igreja e Anti-Igreja. Teologia da Libertação. São Paulo, T. A. Queiroz, Editor, 1985, pg. 265 – 267 (n.n.)
2 RATZINGER, Joseph; MESSORI, V. A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. Trad. Pe. Fernando J. Guimarães, CSSR. Sâo Paulo, E.P.U, 1985, pg. 14 (n.n)

sábado, 5 de setembro de 2009

O Concilio Vaticano II traiu a Igreja Católica?

 

image “...o Vaticano II é apoiado pela mesma autoridade do Vaticano I e do Concilio de Trento, isto é, o papa e o colégio dos bispos em comunhão com ele.” (Cardeal J. Ratzinger)

 

 

 

Transcrevemos abaixo importantes pensamentos do então Cardeal Joseph Ratzinger, atual Sumo Pontífice da Igreja Católica, em livro de V. Messori intitulado “A Fé em Crise? O Cardeal Ratzinger se interroga”. Poderemos perceber com clareza a profunda coerência de suas reflexões em íntima sintonia com o perene ensinamento da Igreja de Cristo. Não deixará de apresentar com ousadia as inegáveis mazelas de seu tempo, mesmo aquelas que se encontram dentro dos muros da Igreja; aliás, isto é um ótimo exemplo para aqueles que julgam - afundados num superficial espírito de submissão - que levantar a voz é sempre um erro; esqueceram-se da obrigação que todos os homens possuem de combater a mentira onde quer que ela se apresente!

***

“ ... as palavras do Cardeal Ratzinger por nós transmitidas, através das quais defendia o Vaticano II e suas decisões, não eram apenas muito claras como também foram por ele repetidas muitas e muitas vezes nas mais diversas ocasiões.

Entre inumeráveis exemplos, podemos citar sua intervenção por ocasião do décimo aniversário do encerramento do Concílio, em 1975. Em Bressano, recordei-lhe aquelas suas palavras, ouvindo–o confirmar que ainda hoje se reconhecia plenamente nelas.

Assim, já dez anos antes de nosso diálogo ele escrevia: ‘O Vaticano II encontra-se hoje em uma luz crepuscular. Pela chamada ‘ala progressista’, há muito tempo ele é considerado superado e, por conseguinte, um fato do passado, sem importância para o presente. Pela parte oposta, a ala ‘conservadora’, ele é julgado responsável pela atual decadência da Igreja Católica, e até se lhe atribui a apostasia com relação ao Concílio de Trento e ao Vaticano I: de tal forma que alguns chegaram a pedir a sua anulação ou uma revisão que equivaleria a uma retirada.’

E continuava: ‘Com relação a ambas as posições contrapostas, deve-se esclarecer, antes de tudo, que o Vaticano II é apoiado pela mesma autoridade do Vaticano I e do Concilio de Trento, isto é, o papa e o colégio dos bispos em comunhão com ele. Além disso, do ponto de vista do conteúdo, deve-se recordar que o Vaticano II se encontra em íntima continuidade com os dois Concílios precedentes, retomando literalmente alguns dos seus pontos decisivos.’

Daí Ratzinger deduz duas consequências: ‘Em primeiro lugar é impossível para um católico tomar posição a favor do Vaticano II contra Trento ou o Vaticano I. Quem aceita o Vaticano II, assim como ele se expressou claramente na letra, e entendeu-lhe o espírito, afirma ao mesmo tempo a ininterrupta tradição da Igreja, em particular os dois concílios precedentes. E isto deve valer para o chamado ‘progressismo’, pelo menos em suas formas extremas. Segundo: do mesmo modo, é impossível decidir-se a favor de Trento e do Vaticano I contra o Vaticano II. Quem nega o Vaticano II, nega a autoridade que sustenta os outros dois Concílios e, dessa forma, os separa de seu fundamento. E isso deve valer para o chamado ‘tradicionalismo’, também ele em suas formas extremas. Perante o Vaticano II, qualquer opção parcial destrói o todo, a própria história da Igreja, que só pode subsistir como uma unidade indivisível.’

‘Redescubramos o verdadeiro Vaticano II’

“Não são, portanto, o Vaticano II e os seus documentos que criam problemas (quase não há necessidade de recordar isto). Para muitos, na realidade, e Joseph Ratzinger está entre eles há muito tempo, o problema é constituído por interpretações de tais documentos que teriam levado a certos frutos da época pós-conciliar.

O pensamento de Ratzinger acerca desse período é claro há bastante tempo: ‘É incontestável que os últimos vinte anos foram decididamente desfavoráveis à Igreja Católica. Os resultados que se seguiram ao Concílio parecem cruelmente opostos às expectativas de todos, inclusive às de João XXIII e, a seguir, de Paulo VI. Os cristãos são novamente minoria, mais do que jamais o foram desde o final da Antiguidade.’

Assim explica ele o seu severo julgamento, repetido durante nossa conversa: ‘Os Papas e os Padres conciliares esperavam uma nova unidade católica, e, pelo contrário, caminhou-se ao encontro de uma dissensão que, para usar as palavras de Paulo VI, pareceu passar da autocrítica à autodestruição. Esperava-se um novo entusiasmo, e, no entanto, muito freqüentemente chegou-se ao tédio e ao desencorajamento. Esperava-se um impulso à frente, e, no entanto, o que se viu foi um progressivo processo de decadência que veio se desenvolvendo em larga medida, sob o signo de um presumido ‘espírito do Concílio’ e que, dessa forma, acabou por desacreditá-lo.’

Portanto, concluía ele dez anos atrás: ‘Deve-se reafirmar claramente que uma reforma real da Igreja pressupõe um inequívoco abandono dos caminhos errados cujas conseqüências catastróficas já não podem ser negadas.’

Em outra ocasião escrevia ele: ‘O Cardeal Julius Dopfner dizia que a Igreja pós-conciliar é uma grande obra de construção. Mas um espírito crítico acrescentou que é uma obra de construção onde se perdeu o projeto e cada um continua a fabricar de acordo com o seu próprio gosto. O resultado é evidente.’

É constante nele, porém, a preocupação de repetir, com a mesma clareza, que, ‘nas suas expressões oficiais, nos seus documentos autênticos, o Vaticano II não pode ser considerado responsável por essa evolução, que pelo contrário, contradiz radicalmente tanto a letra como o espírito dos Padres conciliares.’

Diz ainda: ‘Estou convencido de que os danos encontrados nestes últimos anos não são atribuíveis ao Concílio ‘verdadeiro’, mas ao desencadear-se, no interior da Igreja, de forças latentes agressivas, centrífugas, talvez irresponsáveis ou simplesmente ingênuas, de um otimismo fácil, de uma ênfase quanto à modernidade que confundiu o hodierno progresso técnico com um progresso autêntico, integral. E, no exterior, ao impacto de uma revolução cultural: a afirmação, no Ocidente, do estrato médio-superior, da nova ‘burguesia do terciário’, com sua ideologia liberal-radical, marcada pelo individualismo, racionalismo e hedonismo.’

Portanto, a sua ordem de comando, a sua exortação que dirigiria a todos os católicos que quisessem permanecer católicos, não é certamente um ‘meia volta volver’ e sim um ‘ voltar aos textos autênticos do Vaticano II autêntico.’

Para ele, repete-me, ‘defender hoje a Tradição verdadeira da Igreja significa defender o Concílio. É também nossa culpa se alguma vez demos pretexto (tanto à ‘direita’ como à ‘esquerda’) para pensar que o Vaticano II tenha sido uma ‘ruptura’, uma fratura, um abandono da Tradição. Existe, pelo contrário, uma continuidade que não permite nem retorno para trás nem fugas para adiante; nem nostalgias anacrônicas nem impaciências injustificadas. É ao hoje da Igreja que devemos permanecer fiéis, não ao ontem nem ao amanhã: e esse hoje da Igreja são os documentos do Vaticano II em sua autenticidade. Sem reservas que amputem. E sem arbítrios que os desfigurem.’

Auxilium christianorum, ora pro nobis!

Bibliografia:

RATZINGER, Joseph; MESSORI, V. A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. Trad. Pe. Fernando J. Guimarães, CSSR. São Paulo, E.P.U, 1985. pgs.15-18 (n.n)

sábado, 29 de agosto de 2009

Ímpios asquerosos

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ESTARRECEDOR! HORRIPILANTE!

Isto não é nenhum exagero, leiam isto e vejam se tal devassidão não clama aos Céus por vingança. Sob o patrocínio do grupo terrorista Hamas, crianças palestinas (centenas delas, de até 4 anos!) se casaram recentemente com uma corja de malditos. É preciso divulgar isso! Rezemos, façamos o que estiver ao nosso alcance para que barbaridades como essas não aconteçam mais. Neste momento, como não lembrar do salmista que a Deus clama: "Faz-me justiça, Senhor, porque sou inocente" (Sl 25,1). Esses infelizes, se não se arrependerem, terão da parte de Deus o castigo merecido.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A Virgem Maria, a Ira, o Ódio... e Deus!


Por Prof. Pedro M. da Cruz
 
“Que comunhão tem a luz com as trevas? Que concórdia há entre Cristo e Belial? Ou, que parte tem o fiel com o infiel?” (II Cor 6,14-15)
“Não aborreço eu , ó Senhor, aqueles que te ofendem?(...) Aborreço-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos.” (Sal 138, 21-22)
“Mesmo em ira, não pequeis.” (Efe 4, 26)
Uma expressão mais áspera num artigo, o movimento brusco de certo pregador, ou mesmo, as reprovações severas de alguma outra autoridade, e logo nos vemos, como que arrancados da incompreendida “atmosfera cristã”, como se esta fosse inconciliável com determinadas variações de temperamento tão comuns aos santos, inclusive a Nosso Senhor. Parece-nos que os homens de hoje perderam a austera radicalidade, a força, a ousadia do Divino Mestre! Chegaram ao extremo de confundir tolerância com permissividade e relativismo; piedade com “arrepios”, suspiros, sentimentalismo malsão; e, por fim, bondade com asneiras como “fraqueza”, ingenuidade ou parvoíce...
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“Apresento minhas desculpas àquelas a quem possa magoar, assegurando-as que, se vier a fazê-lo, será de todo coração.” (São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição)
Que diria São Luiz Maria Grignion de Montfort?! Ele que profetizou o advento dos verdadeiros apóstolos, semelhantes a nuvens trovejantes que lançarão dardos contra o mundo? Eles que - segundo o mesmo autor – serão ministros ardendo em chamas abrasadoras pela verdade; trovejarão contra todo o pecado; serão – vejam que interessante – como flechas agudas nas mãos de Maria Santíssima prontas para traspassar todos os seus inimigos.
Quem de nós já parou para meditar neste aspecto de alma da Virgem Maria? Será correto atribuir a Nossa Senhora esse ódio mortal, essa intransigência, enfim, essa intolerância tão incompreendida por tantos católicos “bonzinhos” da atualidade? Não é ela a Virgo clemens, ou mesmo, a Regina pacis que cantamos todos os dias na Ladainha? Que clemência e paz são estas que permitem a coexistência em si do ódio e do amor? É o próprio São Luiz Maria Grignion de Montfort quem nos responde estas perguntas em seu magnífico livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”. Perceberemos, com clareza, que Nossa Senhora é a grande patrona e modelo de todos aqueles que alimentam um santo ódio, assim como, antipatias e inimizades heróicas pelo demônio e por aqueles que se juntam a ele de uma forma ou de outra. Vejamos:
“52 - Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável, que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e sequazes de Lúcifer; de modo que María é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio. Ele lhe deu até, desde o paraíso, tanto ódio a esse amaldiçoado inimigo de Deus, tanta clarividência para descobrir a malícia dessa velha serpente, tanta força para vencer, esmagar e aniquilar esse ímpio orgulhoso, que o temor que Maria inspira ao demônio é maior que o que lhe inspiram todos os anjos e homens e, em certo sentido, o próprio Deus. Não que a ira, o ódio, o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Santíssima Virgem, pois as perfeições de Maria são limitadas, mas, em primeiro lugar, Satanás, porque é orgulhoso, sofre incomparavelmente mais, por ser vencido e punido pela pequena e humilde escrava de Deus, cuja humildade o humilha mais que o poder divino; segundo, porque Deus concedeu a Maria tão grande poder sobre os demônios, que, como muitas vezes se viram obrigados a confessar, pela boca dos possessos, infunde-lhes mais temor um só de seus suspiros por uma alma, que as orações de todos os santos; e uma só de suas ameaças que todos os outros tormentos.”
***
“54 – Deus não pôs somente inimizade, mas inimizades, e não somente entre Maria e o demônio, mas também entre a posteridade da Santíssima Virgem e a posteridade do demônio. Quer dizer, Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Vírgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor, nem correspondência íntima existe entre uns e outros. Os filhos de Belial, os escravos de Satã, os amigos do mundo (pois é a mesma coisa) sempre perseguiram até hoje e perseguirão no futuro aqueles que pertencem à Santíssima Vírgem, como outrora Caim perseguiu seu irmão Abel, e Esaú, seu irmão Jacob, figurando os réprobos e predestinados. Mas a humilde Maria será sempre vitoriosa na luta contra esse orgulhoso, e tão grande será a vitória final que ela chegará ao ponto de esmagar-lhe a cabeça, sede de todo orgulho. Ela descobrirá sempre sua malícia de serpente, desvendará suas tramas infernais, desfará seus conselhos diabólicos, e até ao fim dos tempos garantirá seus fiéis servidores contra as garras de tão cruel inimigo.”
Referência bibliográfica:
DE MONTFORT, S. Luíz Maria Grignion. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 30a Edição. Petrópolis, Editora Vozes, 2002. Pg. 54 - 60

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Haja demagogia...

Sinceridade não é com esse sujeito.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Esses católicos intolerantes e radicais... Que dizer?

Por Prof. Pedro M. da Cruz.
 
“Deus estabeleceu inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demônio. Não há entre eles a menor sombra de amor...”[1] (São Luiz Maria Grignion de Montfort)
“É sempre preferível exceder-se um pouco no advertir contra o mal, do que calar-se e deixá-lo crescer.”[2] (Cardeal de Lai)
“É lícita a ira justa, manifestada na indignação razoável por causa de um pecado, ou que exige a justa punição dele.”[3] (Pe. Teodoro da Torre del Greco, O.F.M. Cap.)
Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança. Isso explica o ódio dos bons a tudo o que ofende à verdade, assim como sua natural aspiração ao belo, e, por fim, o indizível enlevo que experimentam ante toda e qualquer expressão da bondade divina. De fato, o amor ao verdadeiro gera no coração do homem aversão à mentira e ao erro.[4]
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Foi exatamente este estado de espírito que levou o Divino Mestre a fazer seu tão incompreendido chicote de cordas, espalhar pelos ares o dinheiro dos trocadores que escandalosamente comercializavam no Templo, e derrubar ao chão as mesas dos cambistas. Onde estava a mansidão ingênua e fraca com que caricaturam o Filho de Deus? Será este, o mesmo que nos pregava a paciência e a humildade? O fato é, que com esta quase inacreditável aspereza impetuosa, expulsara do santuário ovelhas e bois, assim como todos os que ofendiam a Deus.[5]
Bem nos recordava Régis Jolivet que “... o próprio ódio pode reduzir-se ao amor, pois o ódio de um objeto não aparece senão pelo amor que se tem por outro, que lhe é contrário”.[6] Daí ser tão claro o Gênesis ao nos relatar aquelas palavras proféticas do Criador após a triste queda original: “Porei inimizade entre ti e a mulher...”. Inimizade? Sim! Pois, o ódio santo é tão real num coração bondoso, quanto maior for seu amor à verdade. Onde há pecado, malícia, mentira ou erro, ali haverá também, por parte dos bons, luminosa e operante “inimizade”! Então, ouviremos novamente aquelas mesmas palavras proferidas com austera ousadia pelo Cristo, Nosso Senhor: “Tirai isto daqui!”[7] Não pensemos, caro leitor, que havia certa mansidão piegas e malsã na enérgica expressão desta frase...
Num tempo, infelizmente, tão relativista como o nosso, escravo de um vil antropocentrismo, onde Deus não ocupa mais o centro da vida de tantas pessoas, escravas que são de seus pérfidos desejos egoístas; num mundo como este, essa postura austera, enérgica e viril do Salvador parece desaconselhável ou, até mesmo, reprovável. Porém, Ele próprio nos afirmou categoricamente: aprendei de mim que sou manso e humilde de Coração.[8] Ora, se para o Filho de Deus, a mansidão e a humildade não dispensam - algumas vezes - uma cólera justa e voraginosa em defesa da verdade, quem somos nós para afirmarmos o contrário? Se o Redentor do mundo deixou-se consumir por um santo zelo pela Casa de Deus, quem somos nós para criticá-lo? Muito pelo contrário, aprendamos dele e imitemo-lhe as virtudes.
Também São Paulo serve-nos de exemplo nesta questão. O apóstolo não se nega a exercer até mesmo a excomunhão; expulsa da comunidade cristã todos aqueles que se opõem à verdadeira doutrina.[9] Chega, inclusive, a usar de expressões fortíssimas contra aqueles que seguiam infiéis ao Evangelho, entregando-os a Satanás para mortificação dos seus corpos.[10] Outras vezes, vai ao extremo de afirmar que não se furtaria a ir aos seus “com vara”[11], na caridosa esperança de corrigir os transviados.
Já nos ensinava o grande teólogo Joseph Ratzinger, hoje Sumo Pontífice da Igreja Católica, que estes posicionamentos paulinos nada tem a ver com o ideal da anarquia pneumática que alguns pensadores quiseram extrair apressadamente da Primeira Carta aos Coríntios como imagem ideal da Igreja.[12] De fato, ao falar-nos sobre os Dons carismáticos em seu décimo segundo capítulo, muitos quiseram entender a mensagem de São Paulo como um posicionamento anti-hierárquico e anti-institucional. O apostolo das gentes, dizem eles, permitiria a cada um – os quais, supostamente, teriam um livre acesso a Deus, sem necessidade da mediação de uma Igreja específica - agir do modo que “Deus lhes tocasse o coração”. Eis aqui, mais um agravamento do infeliz subjetivismo moderno que serpenteia entre tantos membros incautos da Igreja cristã.
Não! Jesus Cristo é o único mediador entre Deus e os homens; e, através de seu Corpo Místico, a Igreja, tem nos sucessores de São Pedro, seus legítimos representantes na Terra. Por isso, fez dessa mesma Igreja uma Casa para o Deus vivo, uma coluna e um sustentáculo para a verdade.[13] Portanto, os homens podem ter plena confiança nos ensinamentos imutáveis desta Igreja edificada pelo próprio Cristo. Este é um outro aspecto interessantíssimo ligado ao assunto em questão... Por hora, voltemos, mais exatamente, às nossas reflexões iniciais.
Em outros momentos também, Jesus Cristo dera forte exemplo de Santa Cólera na defesa das coisas de seu Pai Celestial. Em presença de escribas e fariseus não temeu pronunciar seus provocadores: “Ai de vós”. Taxou seus inimigos, perante todos, de “hipócritas”, “Raça de víboras venenosas”, “Guias cegos”, “Insensatos”, “Sepulcros caiados”, “Cheios de toda espécie de podridão”, “Filhos de assassinos”, “Matadores”, e “Serpentes”.[14]
Nosso Divino Redentor só fazia eco às palavras destemidas dos antigos profetas que lutaram com veemência contra todo erro e mentira de seu tempo. O profeta Amós, por exemplo, enchia o peito para intitular as mulheres levianas de sua época como semelhantes às “Vacas de Basã”;[15] é óbvio que a conotação de tal expressão era eminentemente religiosa, porém, não deixava de ser negativa àqueles a quem se destinava, além de possuir uma fina textura crítica. Ezequiel era ainda mais ousado em suas manifestações proféticas; valente, intitulava de “prostitutas” todos aqueles que se desviavam dos caminhos de Deus, e não deixava de comparar seus atos errôneos aos mais sórdidos pecados humanos. Escreveu: “...ela multiplicou seus desregramentos, lembrando o tempo de sua mocidade quando se desonrava no Egito. Ardeu ali em amor por luxuriosos, cujo membro era como um membro de asno, e sua lubricidade igual à dos cavalos. Voltaste às licensiosidades de tua juventude, do tempo em que os egípcios apertavam teus peitos, e afagavam seu seio juvenil.” [16]
Será essa uma forma vazia de se comunicar? Não quererá, o Senhor Deus, como que, sacudir a alma adormecida e narcotizada de seus leitores com tais declarações tão fortes? A virulência de certos atos não atingirá com mais efeito o terreno insensível de tantos corações entorpecidos? Talvez, isto explique esta humilhante comparação em Oséias: “O Jumento selvagem anda sozinho, mas Efraim assalaria os aliados.”[17] Ou, quiçá, aquela outra, proferida pelo próprio Deus: “O Boi conhece seu possuidor, o burro, o estábulo de seu dono; mas Israel não conhece nada, meu povo não tem entendimento.”[18]
Não estou aqui defendendo que nossos textos devam ser, todo o tempo, permeados de – como dizem alguns – “comparações humilhantes e fortíssimo teor crítico”. De fato, no mais das vezes, para não dizer, quase sempre, o melhor caminho é a mansidão, a paciência, ou, até mesmo, o silêncio salutar. São Francisco de Sales nos ensina que se pega muito mais abelhas com uma simples gota de mel, que com um grande barril de vinagre. Porém, não nos esqueçamos desses exemplos de tão grande importância deixados por parte de, nada mais nada menos que o próprio Deus. No mais, o profeta Ezequiel, ao chamar seus inimigos de “Chacais”[19] e “Crocodilos monstruosos”[20], também falava em nome do Senhor! E disso ninguém pode duvidar...
Inclusive, por citarmos São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição, recordemo-nos que o mesmo não se esquivava jamais de, quando necessário, portar-se semelhante a um “cirurgião” em suas pregações; trazia remédios, mesmo que dolorosos, para aplicar nas feridas de seus ouvintes, embora os mesmos viessem a gritar de dor. “Se fizer alguma incisão, minhas filhas - dizia ele às Religiosas da Visitação- hão de sentir dor; mas não me incomodo (...), apresento minhas desculpas àquelas a quem possa magoar, assegurando-as que, se vier a fazê-lo, será de todo coração.”[21] Isso para que nunca nos esqueçamos de que a mansidão não é sinônimo de moleza, pieguice ou permissividade. São Jerônimo é outra grande prova para tal argumentação. Aparecendo em suas epístolas quase sempre irritado, seus escritos demonstram severidade e intransigência perante os erros de sua geração.[22]
Finalmente, citemos, ainda mais, outro grande exemplo aos homens de hoje; falemos de Santo Afonso de Ligório, tão louvado por sua bondade e paciência heróicas! Ele mesmo afirmava-nos que, algumas vezes, dadas as circunstâncias, é conveniente falar ou responder com aspereza a algumas pessoas, a fim de melhor fazê-las “cair em si”; deste modo, perceberiam seus erros. Porém - e sabiamente - não deixava de chamar a atenção ao fato de que, em tais situações, dificilmente se portam os homens sem cometer alguma falta diante de Deus. Daí a necessidade do máximo de discernimento, sabedoria e autocontrole em todas as situações.[23] Aqui, o terreno em que se cultiva esse tesouro pedagógico é o da caridade, toda ela trasbordante da mais sublime temperança, num sincero desejo pela glória de Deus e salvação das almas.
Perante todo o exposto, esforcemo-nos por compreender a virulência santa de tantos combatentes de nossa época em defesa da única Igreja fundada por Cristo. Não é verdade que possuem a heróica vontade de aniquilar todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus ?[24] Por este nobre motivo, insistem oportuna e inoportunamente, repreendem, ameaçam, e exortam com todo o empenho de instruir.[25] Sim! É tempo de se reencontrar a coragem do anticonformismo, a capacidade de se opor, de denunciar muitas das tendências da cultura que nos cerca[26], pois, a intransigência é para a virtude o que o instinto de conservação é para a vida. Uma virtude sem intransigência, ou que odeia a intransigência - escrevia-nos Dom Mayer - não existe ou só conserva a exterioridade. Sendo a fé o fundamento da vida sobrenatural, a tolerância em matéria de fé é o ponto de partida para todos os males, especialmente para as heresias.[27]
Portanto, supliquemos insistentemente a Nossa Senhora,“Regina pacis”, que nos conceda a graça da Santa Intransigência. Só assim, poderemos nos assemelhar aos primeiros apóstolos do Senhor, que souberam bradar, destemidamente, perante todos os seus inimigos, aquele radical e invejável “non possumus”;[28]ele deve ressoar com ardor e sabedoria, até o último suspiro, nos atos firmes e ousados daqueles que se dizem seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo.
 Mater Boni Consilli, ora pro nobis
 
Referências Bibliográficas: 

[1] DE MONTFORT, S. Luíz Maria Grignion. Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem. 30a Edição. Petrópolis, Editora Vozes, 2002. Pg. 56.
[2] MAYER, D. Antônio de Castro. Por um cristianismo autêntico. Campos: Editora Vera Cruz, 1971. pg. 65.
[3] DEL GRECO, Pe. Teodoro da Torre. Teologia Moral, Compêndio de Moral Católica para o clero em geral e leigos. São Paulo: Paulinas, pag.115.
[4] Gênesis 1,26; 3,15.
[5] Sâo João 2, 13-17.
[6] JOLIVET, Régis. Curso de Filosofia. Trad. Eduardo Prado de Mendonça. 15ª Edição. Rio de Janeiro, Agir, 1984. Pg.183.
[7] São João 2,16.
[8] São Mateus 11,29.
[9] Gálatas 1, 9.
[10] I Coríntios 5,5; I Timóteo 1,20.
[11] I Cor 4, 21.
[12] RATZINGER, Cardeal Joseph. Compreender a Igreja Hoje. Vocação para a comunhão. Trad. D. Mateus Ramalho Rocha, OSB. 3ª Edição. Petrópolis, Editora Vozes, 2006. pg. 66.
[13] I Timóteo 3,14.
[14] São Mateus 23, 1-36.
[15] Amós 4,1.
[16] Ezequiel 23,19-21
[17] Oséias 8,9
[18] Isaias 1,3
[19] Ezequiel 13,4
[20] Ezequiel 29,3
[21] LECLERQ, Abbé Jacques. São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição. Traduzido do Francês. 3ª Edição. Petrópolis, Vozes, 1957. Pag. 120-121.
[22] LECLERQ, Abbé Jacques. São Francisco de Sales, Doutor da Perfeição... pag. 178.
[23] LIGÒRIO, S. Afonso de. A Prática do Amor a Jesus Cristo. Trad. Pe. Gervásio Fabri Dos Anjos, C.SS.R. São Paulo: Santuário, 1982. 161
[24]II Coríntios 10, 5.
[25] II S. Timóteo 4, 2.
[26] RATZINGER, Joseph; MESSORI, V. A fé em crise? O Cardeal Ratzinger se interroga. Trad. Pe. Fernando J. Guimarães, CSSR. Sâo Paulo, E.P.U, 1985. Pg. 21-22.
[27] MAYER, D. Antônio de Castro. Por um cristianismo autêntico. Campos: Editora Vera Cruz, 1971. pg. 64. Conf. Também: Ibidem. RATZINGER, Cardeal Joseph. Compreender a Igreja Hoje...
[28] Atos 4,20 : Trad: “Não podemos ...”.
[29] São João 8, 44.
[30] São João 8, 59.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Como explicar os pecados dos que pertencem à Igreja?

Igreja santa e pecadora? (Pe. Penido)

Uma das causas comuns de apostasia [da fé] é o horror provocado pelos desfalecimentos humanos no seio da Igreja. A religião pa­rece fonte de imoralidade, ou, pelo menos, não corresponder, na prática, ao que ensina em teoria.

E se o escândalo provoca apostasias, maior ainda o número de conversões que ele faz abortar: “Eu, agregar-me aos católi­cos? Por que, se eles não valem mais do que os outros - muitos deles até valem menos? Eu, ajoelhar-me aos pés de um padre, pecador ele também, talvez mais do que eu?” Tanto mais ferinas as críticas quanto maiores as pretensões da Igreja: ela se diz di­vina, santa, imaculada? Pois mostre-nos o que vai de tudo isso na vida cotidiana!

Escândalo ilógico, digamo-lo imediatamente. Jamais foi pro­metido por Cristo que a graça supriria o esforço pessoal. Os ta­lentos que o Mestre nos dá, ele exige que os façamos frutificar; não se substituirá jamais a nosso livre arbítrio.

Deveria até confirmar a fé, o fato de que uma sociedade com­posta de homens fracos, falíveis, sujeitos às mesmas paixões que os demais, não haja todavia descambado na mais absoluta cor­rupção, mas antes mantenha rígidos os princípios de moral purís­sima e os pratique, em que pesem os numerosos e indisfarçáveis desfalecimentos individuais.

A Igreja produziu até um tipo novo, original, de homem: o Santo. Tão novo, tão original que Bergson se abalançou a atribuir ao Santo uma essência diversa da nossa. Porém somos assim feitos que menos nos impressionam as vir­tudes do que os desfalecimentos. E por isso vemos tantos e tan­tos abandonarem a fé, porque encontraram um padre cúpido ou devasso, ou simplesmente malcriado; porque tal carola não passa de grandíssimo patife; porque tal senhora misseira, e até beata, é a pior língua da localidade.

Em nossa época este escândalo revestiu forma peculiar; apresenta-se corno reivindicação de justiça social. Embora os Papas hajam condenado não apenas o comunismo senão ainda os abusos do capitalismo, é infelizmente verdade que aquele que não se con­tenta de louvores teóricos às encíclicas, mas procura aplicá-las na prática, incorre muitas vezes na ira dos chamados bem-pen­santes que lhe assacam as pechas de socialista, comunista, etc. Donde ser o catolicismo acusado de querer perpetuar as injus­tiças sociais, de ser o derradeiro baluarte do capitalismo burguês.

Apostasias ilógicas, repetimos, pois não distinguem entre a mensagens divina que merece nossa crença e seus portadores hu­manos, talvez menos dignos. Por ser portador desta mensagem, o mau padre merece ainda ser ouvido e obedecido, embora não faça o que prega. Porventura recusaríeis precioso tesouro, sob pre­texto que vos é trazido por um homem esfarrapado e imundo? pergunta Catarina de Sena. Nem deixa de ser verdadeira a re­ligião porque muitos dos seus adeptos não a praticam. Tão me­díocre a humanidade, apesar da religião, que seria sem religião?

Ademais, com suma injustiça olvidaríamos o que de sublime houve e há na Igreja: aquela plêiade de mártires, de confesso­res, de virgens, que nos causa justo orgulho; a multiplicidade de obras e instituições; as miríades de almas tiradas do lodo; os incontáveis atos de bondade, de misericórdia, de justiça; as inú­meras tentações vencidas. Quantos e quantos atestam que na re­ligião e nela só, encontram força para não resvalar, para cumprir o dever a todo custo? Além dos grandes santos, há os incontá­veis “pequenos” santos, que vivem de cotidiano heroísmo cristão.

Na Encíclica “Mit brennender Sorge”, o Papa Pio XI fez valer uma outra consideração, ao aludir à exploração pelos na­zistas, dos escândalos da Igreja:

“A divina missão que a Igreja cumpre entre os homens e deve cumprir por meio de homens, pode ser dolorosamente obscurecida pelo que de humano, talvez de demasiadamente humano, desponta por vezes qual cizânia en­tre o trigo do reino de Deus. Quem conhece a frase do Salva­dor acerca dos escândalos e dos que os dão, sabe como a Igreja e cada indivíduo deve julgar sobre o que foi e é pecado. Todavia, quem, fundando-se sobre esses lamentáveis contrastes en­tre fé e vida, palavra e ação, atitude externa e sentir interior de alguns ou mesmo de muitos, esquece ou passa sob silêncio o imenso cabedal de esforço genuíno em prol da virtude, o es­pírito de sacrifício, o amor fraterno, o heroísmo de santidade de tantos membros da Igreja, este manifesta injusta e reprovável cegueira”.

De fato, maior direito nos assistira de gemer sobre a inépcia de alguns hierarcas e a mediocridade da maioria dos católicos, se começássemos por gemer sinceramente sobre nossa própria inépcia e mediocridade, muito maiores ainda…

Todavia, não se nos aquieta inteiramente o espírito. Afigura-­se-nos a Igreja qual realidade híbrida, plasmada de crimes he­diondos e de virtudes inigualáveis - e não já, como afirma o Apóstolo: “Sem mácula, sem ruga, mas santa e irrepreensível”.

Como resolver a antinomia?

Os membros pecadores da Igreja.

Uma primeira resposta - tão fácil quanto errônea - con­siste em afirmar que a Igreja só compreende os justos. Por con­seguinte, a massa de pecadores que encontramos na cristandade faz tão pouco parte da Igreja quanto os apóstatas ou os pagãos endurecidos.

A Santa Igreja é aquele puro ser de glória que contemplava o Vidente de Patmos. E por isso mesmo se esconde a nossos olhos de carne.

Tal foi, no século IV, a solução dos Donatistas; na Idade Média, dos Valdenses e dos Hussitas; nos tempos modernos de Lutero, Calvino, Quesnel e do Sínodo de Pistóia. — No fundo, esta opinião identifica Igreja militante e Igreja triunfante.

Porém, como sabiamente adverte Leão XIII, quando inqui­rimos da natureza da Igreja, não nos devemos perder em deva­neios sobre o que poderia ter Cristo feito, senão procurar o que ele de fato quis fazer, e que fez na realidade. Ora, as próprias palavras de Jesus nos revelam o mistério da presença de pecado­res dentro do Corpo Místico.

Na alegoria da videira, Jesus nos diz, logo a princípio: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador; toda a vara em mim que não dá fruto, ele a tira, e poda aquela que dá fruto para que dê mais fruto” (Jo 15, 1-2). Temos aqui claramente indica­do que tanto o justo como o pecador estão no Corpo Místico de Cristo. Em condições bem diversas, por certo. Um como membro fecundo, destinado à fecundidade maior; outro como membro es­téril, destinado a ser cortado, a secar, e mais tarde a ser lançado ao fogo (15, 6). Só se corta fora o que faz parte de um con­junto, não o que lhe não pertence.

(PENIDO, Pe. Dr. Maurílio Teixeira-Leite: “O Mistério da Igreja”, Editora Vozes, Petrópolis, 2 ed., 1956, pp.243-245).

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Fonte: http://salterrae.org/2008/08/31/igreja-santa-e-pecadora-pe-penido/