quinta-feira, 26 de março de 2009

Bento XVI, AIDS e preservativos

 

UM DOS MAIORES ESPECIALISTAS DO MUNDO NO COMBATE À AIDS DIZ: “O PAPA ESTÁ CERTO”. MAS ESSA NOTÍCIA FOI DEVIDAMENTE SONEGADA DOS LEITORES

Há coisas que você jamais vai ler na imprensa brasileira porque, dada a sua “isenção” de propaganda, às vezes letal para a inteligência e a verdade, pouco importa a consideração de uma autoridade científica ou religiosa se o que elas dizem não coincide com a metafísica politicamente correta. Aceita-se a chamada pluralidade, mas sem exageros, é claro. Querem ver?
Vocês se lembram que, em Camarões — e, de fato, foi uma mensagem para o continente africano —, o papa Bento 16 afirmou que a distribuição maciça de camisinhas não era o melhor programa de combate à AIDS. E disse que o problema poderia até se agravar. A estupidez militante logo entendeu, ou fingiu entender, que Sua Santidade contestara a eficiência do preservativo para barrar a transmissão do vírus. Bento 16 não tratava desse assunto, mas de coisa mais ampla. Referia-se a políticas públicas de combate à expansão da doença. Apanhou de todo lado. De todo mundo. No Brasil, noticiou-se a coisa com ares de escândalo. Os valentes nem mesmo investigaram os números no Brasil — a contaminação continua alta e EM ALTA em alguns grupos — e no mundo. Adiante.
Se você pesquisar um pouco, vai saber que o médico e antropólogo Edward Green (foto) é uma das maiores autoridades mundiais no estudo das formas de combate à expansão da AIDS. Ele é diretor do
Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS (APRP, na sigla em inglês), do Centro de Estudos sobre População e Desenvolvimento de Harvard. Pois bem. Green concedeu uma entrevista sobre o tema. E o que ele disse? O PAPA ESTÁ CERTO. AS EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS CONFIRMAM O QUE DIZ SUA SANTIDADE. Ora, como pode o papa estar certo? Vamos sonegar essa informação dos leitores.
Em entrevista aos sites
National Review Online (NRO) e Ilsuodiario.net, Green afirma que as evidências que existem apontam que a distribuição em massa de camisinha não é eficiente para reduzir a contaminação na África. Na verdade, ao NRO, ele afirmou que não havia uma relação consistente entre tal política e a diminuição da contaminação. Ao Ilsuodiario, assumiu claramente a posição do papa — e, notem bem!, ele fala como cientista, como estudioso, não como religioso: “O que nós vemos de fato é uma associação entre o crescimento do uso da camisinha e um aumento da AIDS. Não sabemos todas as razões. Em parte, isso pode acontecer por causa do que chamamos ‘risco compensação” — literalmente, nas palavras dele ao NRO: “Quando alguém usa uma tecnologia de redução de risco, freqüentemente perde o benefício (dessa redução) correndo mais riscos do que aquele que não a usa”.
Pois é… Green também afirma que o chamado programa ABC — abstinência, fidelidade e, sim, camisinha (se necessário), que está em curso em Uganda — tem-se mostrado eficiente para diminuir a contaminação. E diz que o grande fator para a queda é a redução de parceiros sexuais. Que coisa, não?
NÃO É MESMO INCRÍVEL QUE SEXO MAIS RESPONSÁVEL CONTRIBUA PRA DIMINUIR OS CASOS DE CONTAMINAÇÃO? Pois é... Critico as campanhas de combate à aids no Brasil desde o Primeira Leitura, como sabem. E, aqui, desde o primeiro dia. Há textos às pencas no arquivo. A petralhada que se pensa cheia de veneno e picardia erótica gritava: “Você quer impor seu padrão religioso ao país...” Ou então: “Você não gosta de sexo...” Pois é. Vai ver Harvard escolheu um idiota católico e sexofóbico para dirigir o programa...
Bento 16 apanhou que deu gosto. E apanhou pelo que não disse — e ele jamais disse que a camisinha facilita a contaminação de um indivíduo em particular — e pelo que disse: a AIDS é, sim, uma doença associada ao comportamento de risco e, pois, às escolhas individuais. Sem que se mude esse compartamento, nada feito.
Pois é... O mundo moderno não aceita que as pessoas possam ter escolhas. Como já escrevi aqui certa feita, transformaram a camisinha numa nova ética. E, como tal, ela é de uma escandalosa ineficiência.

Autor: Reinaldo Azevedo

Fonte:http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

sábado, 21 de março de 2009

Quaresma: Oração

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Monge cartuxo

 

“A necessidade da oração funda-se na necessidade da graça atual. É uma verdade de fé que, sem esta graça, nos achamos em impotência radical de nos salvarmos e, com maior força de razão, de atingirmos a perfeição. De nós mesmos, por melhor uso que façamos da liberdade, não podemos nem dispor-nos positivamente para a conversão, nem perseverar por tempo notável, nem sobretudo perseverar até à morte: Sem mim, diz Jesus a seus discípulos, nada podeis fazer, nem sequer ter um bom pensamento” (Adolf Tanquerey, Compêndio de Teologia Ascética e Mística, 645).

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“São muito claros os textos, que nos mostram a necessidade de rezar, se quisermos alcançar a salvação: ‘É preciso rezar sempre e nunca descuidar’ (Lc 18, 1). ‘Vigiai e orai para não cairdes em tentação’ (Mt 25, 41). ‘Pedi e dar-se-vos-á’ (Mt 7, 7). Segundo a doutrina comum dos teólogos, as referidas palavras: ‘É preciso rezar, orai, pedi’, significam e impõem um preceito e uma obrigação, um mandamento formal” (Santo Afonso Maria de Ligório, A Oração, cap. I, 2).

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São Basílio Magno, São João Crisóstomo, Clemente de Alexandria e  Santo Agostinho, “ensinam que a oração para os adultos é necessária, não somente por ser um mandamento de Deus, como também por ser um meio necessário para a salvação”, e: “É impossível que um cristão se salve sem pedir as graças necessárias para a sua salvação”.

Santo Tomás de Aquino: “Depois do batismo, a oração contínua é necessária ao homem para poder entrar no céu. Embora sejam perdoados os pecados pelo batismo, sempre ainda ficam os estímulos ao pecado, que nos combate interiormente, o mundo e os demônios que nos combatem externamente”; “A oração é necessária não para que Deus conheça as nossas necessidades, mas para que nós fiquemos conhecendo a necessidade que temos de recorrer a Deus, para receber oportunamente os socorros da salvação. Assim, reconhecemos Deus como único Autor de todos os bens, a fim de que nós conheçamos que necessitamos de recorrer ao auxílio divino e reconheçamos que Ele é o Autor dos nossos bens” (Santo Afonso Maria de Ligório, A Oração, cap. I, 2).

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“É, pois, necessário que rezemos com humildade e confiança. Entretanto, isto só não basta para alcançarmos a perseverança final e, com ela, a salvação eterna. As graças particulares que pedimos a Deus, podemos obtê-las por meio de orações particulares. Mas, se não perseverarmos na oração, não conseguiremos a perseverança final, a qual compreende uma cadeia de graças e, por isso, supõe repetidas e continuadas até à morte” (A Oração, cap. III, IV), e: “Assim como nunca cessa a luta, assim também nunca devemos deixar de pedir a misericórdia divina, para não sermos vencidos” (São Boaventura), e também: “Se quisermos, pois, que Deus não nos abandone, devemos pedir-lhe sempre que nos auxilie. Fazendo assim, certamente Ele nos assistirá sempre e não permitirá que nos separemos dele e que percamos a sua amizade. Procuremos, por isso, rezar sempre e pedir a graça da perseverança final, bem como as graças para consegui-la” (Santo Afonso Maria de Ligório, A Oração, cap. III, IV).

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Oração num vitral da Catedral de Lubeck - Alemanha

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Catedral de Lubeck

 

Tu me chamas Mestre e não me obedeces.
Luz e não me vês.
Caminho e não me segues.
Vida e não me desejas.
Sábio e não me escutas.
Amável e não me amas.
Rico e não me invocas.
Eterno e não me buscas.
Justo e em mim não confias.
Nobre e não me serves.
Senhor e não me adoras.
Se eu te condenar, não me culpes.

 

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Quaresma: Jejum

 

"O que pode ser mais eficaz do que o jejum? Por sua observância nos aproximamos de Deus e, resistindo ao diabo, triunfamos da sedução dos vícios. O jejum sempre foi um alimento para a virtude. Da abstinência, enfim, procedem os pensamentos castos, a vontade reta, conselhos saudáveis; e pela mortificação voluntária do corpo, damos morte à concupiscência da carne, renovando o espírito pela prática das virtudes.
Mas como a salvação de nossas almas não é conquistada apenas pelo jejum, completemo-lo pela misericórdia para com os pobres. Seja abundante em generosidade o que retiramos ao prazer; que a abstinência dos que jejuam reverta para o alimento dos pobres. Pensemos na defesa das viúvas, no socorro dos órfãos, na consolação dos que choram, na paz aos revoltosos. Que o peregrino seja recebido, que o oprimido seja ajudado, que o nu seja vestido, que o doente seja curado, a fim de que, todos os que oferecerem o sacrifício de nossa piedade, por estas boas obras, a Deus, autor de todos estes bens, mereçam receber Dele, o prêmio do Reino Celeste." (São Leão Magno - Sermão sobre o jejum)

 

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São Tomás de Aquino nos diz que a prática do jejum existe por três motivos:
"Primeiro, para reprimir as concupiscências da carne. Donde o dizer o Apóstolo (2 Cor 6, 5): «Nos jejuns, na necessidade», porque o jejum conserva a castidade. Pois, como diz Jerônimo, «sem Ceres e Baco Vênus esfria», é, pela abstinência da comida e da bebida a luxúria se amortece.
Segundo, praticamos o jejum para mais livremente se nos elevar a alma na contemplação das sublimes verdades. Por isso, refere a Escritura que Daniel (Dn 10), depois de ter jejuado três semanas, recebeu de Deus a revelação.
Terceiro, para satisfazer pelos nossos pecados. Por isso, diz a Escritura (Jl 2, 12): «Convertei-vos a mim de todo o vosso coração em jejum e em lágrimas e em gemido». E é o que ensina Agostinho num sermão: «O jejum purifica a alma, eleva os sentidos, sujeita a carne ao espírito, faz-nos contrito e humilhado o coração, dissipa o nevoeiro da concupiscência, extingue os odores da sensualidade, acende a verdadeira luz da castidade».
O jejum é objeto de preceito. Pois o jejum é útil para delir e coibir as nossas culpas e elevar-nos a mente para as coisas espirituais. Ora, cada um está obrigado, pela razão natural, a jejuar tanto quanto lhe for necessário para conseguir tal fim. Por onde, o jejum, em geral, constitui um preceito da lei natural. Mas, a determinação do tempo e do modo de jejuar, conforme à conveniência e à utilidade do povo Cristão, constitui um preceito de direito positivo, instituído pelos superiores eclesiásticos. E tal é o jejum da Igreja, diferente do jejum natural.
— Os tempos de jejum estão convenientemente determinados pela Igreja. O jejum é ordenado por dois motivos: para delir a culpa e para nos elevar a mente às coisas espirituais. Por isso, os jejuns foram ordenados especialmente naqueles tempos em que, sobretudo, devemos os fiéis nos purificar dos pecados e elevar a mente a Deus pela devoção. O que sobretudo se dá antes da solenidade Pascal, quando as culpas são delidas pelo batismo, celebrado solenemente na vigília da Páscoa, em memória da sepultura do Senhor; pois, pelo batismo, somos sepultados com Cristo para «morrer ao pecado», na frase do Apóstolo (Rm 6, 4). E também na festa Pascal devemos, sobretudo, pela devoção, elevar a mente à glória da eternidade, a que Cristo deu começo pela sua ressurreição. Por isso, imediatamente antes da solenidade Pascal, a Igreja nos manda jejuar; e pela mesma razão, nas vigílias das principais festividades, quando devemos nos preparar devotamente para celebrar as festas que se vão celebrar". (Ia IIae, q. CXLVII, a. 1, 3, 5. - P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae)

 

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Adaptado por Sociedade Apostolado

Fonte: http://www.voltaparacasa.com.br/sobre_o_jejum.htm

segunda-feira, 9 de março de 2009

Big Brother Brasil*

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Miguel Reale Júnior **

 

     Programas como Big Brother indicam a completa perda do pudor, ausência de noção do que cabe permanecer entre quatro paredes. Desfazer-se a diferença entre o que deve ser exibido e o que deve ser ocultado. Assim, expõe-se ao grande público a realidade íntima das pessoas por meios virtuais, com absoluto desvelamento das zonas de exclusividade. A privacidade passa a ser vivida no espaço público.

     O Big Brother Brasil, a Baixaria Brega do Brasil, faz de todos os telespectadores voyeurs de cenas protagonizadas na realidade de uma casa ocupada por pessoas que expõem publicamente suas zonas de vida mais íntima, em busca de dinheiro e sucesso. Tentei acompanhar o programa. Suportei apenas dez minutos: o suficiente para notar que estes violadores da própria privacidade falam em péssimo português obviedades com pretenso ar pascaliano, com jeito ansioso de serem engraçadamente profundos.

     Mas o público concede elevadas audiências de 35 pontos e aciona, mediante pagamento da ligação, 18 milhões de telefonemas para participar do chamado "paredão", quando um dos protagonistas há de ser eliminado. Por sites da internet se pode saber do dia-a-dia desse reino do despudor e do mau gosto. As moças ensinam a dança do bumbum para cima. As festas abrem espaço para a sacanagem geral. Uma das moças no baile funk bebe sem parar. Embriagada, levanta a blusa, a mostrar os seios. Depois, no banheiro, se põe a fazer depilação. Uma das participantes acorda com sangue nos lençóis, a revelar ter tido menstruação durante a noite. Outra convivente resiste a uma conquista, mas depois de assediada cede ao cerco com cinematográfico beijo no insistente conquistador que em seguida ridiculamente chora por ter traído a namorada à vista de todo o Brasil. A moça assediada, no entanto, diz que o beijo superou as expectativas. É possível conjunto mais significativo de vulgaridade chocante?

     Instala-se o império do mau gosto. O programa gera a perda do respeito de si mesmo por parte dos protagonistas, prometendo-lhes sucesso ao custo da violação consentida da intimidade. Mas o pior: estimula o telespectador a se divertir com a baixeza e a intimidade alheia. O Big Brother explora os maus instintos ao promover o exemplo de bebedeiras, de erotismo tosco e ilimitado, de burrice continuada, num festival de elevada deselegância.

     O gosto do mal e mau gosto são igualmente sinais dos tempos, caracterizados pela decomposição dos valores da pessoa humana, portadora de dignidade só realizável de fixados limites intransponíveis de respeito a si própria e ao próximo, de preservação da privacidade e de vivência da solidariedade na comunhão social. O grande desafio de hoje é de ordem ética: construir uma vida em que o outro não valha apenas por satisfazer necessidades sensíveis.

     Proletários do espírito, uni-vos, para se libertarem dos grilhões da mundialização, que plastifica as consciências.

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* Publicado em 02.02.2009 no jornal O ESTADO DE SÃO PAULO.

* * Miguel Reale Júnior, advogado, professor titular da Faculdade de Direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras.

domingo, 8 de março de 2009

Aborto provocado: entenda o posicionamento da Igreja Católica

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Diante da recente repercussão acerca do aborto feito em uma menina de 9 anos que engravidou por meio de um estupro, achamos oportuno publicarmos aqui o link para o documento vaticano sobre o aborto provocado. Recomendamos para quem quer saber mais sobre o caso específico, e não quer ser tragado pelo mar de parcialidade odiosa contra a Igreja e a verdade dos fatos o blog do Jorge Ferraz (www.januacoeli.wordpress.com). Abaixo, o link do excelente e elucidativo documento que mencionamos acima.

 

DECLARAÇÃO SOBRE O ABORTO PROVOCADO

 

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sexta-feira, 6 de março de 2009

Especial Quaresma: Esmola

Santa Isabel, rainha de Hungria, Edward Blair Leighton 

Santa Isabel, Rainha de Hungria - Edward Blair Leighton

 

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE
O PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2008

«Cristo fez-Se pobre por vós» (cf. 2 Cor 8, 9)

Queridos irmãos e irmãs!

1. Todos os anos, a Quaresma oferece-nos uma providencial ocasião para aprofundar o sentido e o valor do nosso ser de cristãos, e estimula-nos a redescobrir a misericórdia de Deus a fim de nos tornarmos, por nossa vez, mais misericordiosos para com os irmãos. No tempo quaresmal, a Igreja tem o cuidado de propor alguns compromissos específicos que ajudem, concretamente, os fiéis neste processo de renovação interior: tais são a oração, o jejum e a esmola. Este ano, na habitual Mensagem quaresmal, desejo deter-me sobre a prática da esmola, que representa uma forma concreta de socorrer quem se encontra em necessidade e, ao mesmo tempo, uma prática ascética para se libertar da afeição aos bens terrenos. Jesus declara, de maneira peremptória, quão forte é a atracção das riquezas materiais e como deve ser clara a nossa decisão de não as idolatrar, quando afirma: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Lc 16, 13). A esmola ajuda-nos a vencer esta incessante tentação, educando-nos para ir ao encontro das necessidades do próximo e partilhar com os outros aquilo que, por bondade divina, possuímos. Tal é a finalidade das colectas especiais para os pobres, que são promovidas em muitas partes do mundo durante a Quaresma. Desta forma, a purificação interior é corroborada por um gesto de comunhão eclesial, como acontecia já na Igreja primitiva. São Paulo fala disto mesmo quando, nas suas Cartas, se refere à colecta para a comunidade de Jerusalém (cf. 2 Cor 8-9; Rm 15, 25-27).

2. Segundo o ensinamento evangélico, não somos proprietários mas administradores dos bens que possuímos: assim, estes não devem ser considerados propriedade exclusiva, mas meios através dos quais o Senhor chama cada um de nós a fazer-se intermediário da sua providência junto do próximo. Como recorda o Catecismo da Igreja Católica, os bens materiais possuem um valor social, exigido pelo princípio do seu destino universal (cf. n. 2403).

É evidente, no Evangelho, a admoestação que Jesus faz a quem possui e usa só para si as riquezas terrenas. À vista das multidões carentes de tudo, que passam fome, adquirem o tom de forte reprovação estas palavras de São João: «Aquele que tiver bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?» (1 Jo 3, 17). Entretanto, este apelo à partilha ressoa, com maior eloquência, nos Países cuja população é composta, na sua maioria, por cristãos, porque é ainda mais grave a sua responsabilidade face às multidões que penam na indigência e no abandono. Socorrê-las é um dever de justiça, ainda antes de ser um gesto de caridade.

3. O Evangelho ressalta uma característica típica da esmola cristã: deve ficar escondida. «Que a tua mão esquerda não saiba o que fez a direita», diz Jesus, «a fim de que a tua esmola permaneça em segredo» (Mt 6, 3-4). E, pouco antes, tinha dito que não devemos vangloriar-nos das nossas boas acções, para não corrermos o risco de ficar privados da recompensa celeste (cf. Mt 6, 1-2). A preocupação do discípulo é que tudo seja para a maior glória de Deus. Jesus admoesta: «Brilhe a vossa luz diante dos homens de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos Céus» (Mt 5, 16). Portanto, tudo deve ser realizado para glória de Deus, e não nossa. Queridos irmãos e irmãs, que esta consciência acompanhe cada gesto de ajuda ao próximo evitando que se transforme num meio nos pormos em destaque. Se, ao praticarmos uma boa acção, não tivermos como finalidade a glória de Deus e o verdadeiro bem dos irmãos, mas visarmos antes uma compensação de interesse pessoal ou simplesmente de louvor, colocamo-nos fora da lógica evangélica. Na moderna sociedade da imagem, é preciso redobrar de atenção, dado que esta tentação é frequente. A esmola evangélica não é simples filantropia: trata-se antes de uma expressão concreta da caridade, virtude teologal que exige a conversão interior ao amor de Deus e dos irmãos, à imitação de Jesus Cristo, que, ao morrer na cruz, Se entregou totalmente por nós. Como não agradecer a Deus por tantas pessoas que no silêncio, longe dos reflectores da sociedade mediática, realizam com este espírito generosas acções de apoio ao próximo em dificuldade? De pouco serve dar os próprios bens aos outros, se o coração se ensoberbece com isso: tal é o motivo por que não procura um reconhecimento humano para as obras de misericórdia realizadas quem sabe que Deus «vê no segredo» e no segredo recompensará.

4. Convidando-nos a ver a esmola com um olhar mais profundo que transcenda a dimensão meramente material, a Escritura ensina-nos que há mais alegria em dar do que em receber (cf. Act 20, 35). Quando agimos com amor, exprimimos a verdade do nosso ser: de facto, fomos criados a fim de vivermos não para nós próprios, mas para Deus e para os irmãos (cf. 2 Cor 5, 15). Todas as vezes que por amor de Deus partilhamos os nossos bens com o próximo necessitado, experimentamos que a plenitude de vida provém do amor e tudo nos retorna como bênção sob forma de paz, satisfação interior e alegria. O Pai celeste recompensa as nossas esmolas com a sua alegria. Mais ainda: São Pedro cita, entre os frutos espirituais da esmola, o perdão dos pecados. «A caridade – escreve ele – cobre a multidão dos pecados» (1 Pd 4, 8). Como se repete com frequência na liturgia quaresmal, Deus oferece-nos, a nós pecadores, a possibilidade de sermos perdoados. O facto de partilhar com os pobres o que possuímos, predispõe-nos para recebermos tal dom. Penso, neste momento, em quantos experimentam o peso do mal praticado e, por isso mesmo, se sentem longe de Deus, receosos e quase incapazes de recorrer a Ele. A esmola, aproximando-nos dos outros, aproxima-nos de Deus também e pode tornar-se instrumento de autêntica conversão e reconciliação com Ele e com os irmãos.

5. A esmola educa para a generosidade do amor. São José Bento Cottolengo costumava recomendar: «Nunca conteis as moedas que dais, porque eu sempre digo: se ao dar a esmola a mão esquerda não há de saber o que faz a direita, também a direita não deve saber ela mesma o que faz » (Detti e pensieri, Edilibri, n. 201). A este propósito, é muito significativo o episódio evangélico da viúva que, da sua pobreza, lança no tesouro do templo «tudo o que tinha para viver» (Mc 12, 44). A sua pequena e insignificante moeda tornou-se um símbolo eloquente: esta viúva dá a Deus não o supérfluo, não tanto o que tem como sobretudo aquilo que é; entrega-se totalmente a si mesma.

Este episódio comovedor está inserido na descrição dos dias que precedem imediatamente a paixão e morte de Jesus, o Qual, como observa São Paulo, fez-Se pobre para nos enriquecer pela sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9); entregou-Se totalmente por nós. A Quaresma, nomeadamente através da prática da esmola, impele-nos a seguir o seu exemplo. Na sua escola, podemos aprender a fazer da nossa vida um dom total; imitando-O, conseguimos tornar-nos disponíveis para dar não tanto algo do que possuímos, mas darmo-nos a nós próprios. Não se resume porventura todo o Evangelho no único mandamento da caridade? A prática quaresmal da esmola torna-se, portanto, um meio para aprofundar a nossa vocação cristã. Quando se oferece gratuitamente a si mesmo, o cristão testemunha que não é a riqueza material que dita as leis da existência, mas o amor. Deste modo, o que dá valor à esmola é o amor, que inspira formas diversas de doação, segundo as possibilidades e as condições de cada um.

6. Queridos irmãos e irmãs, a Quaresma convida-nos a «treinar-nos» espiritualmente, nomeadamente através da prática da esmola, para crescermos na caridade e nos pobres reconhecermos o próprio Cristo. Nos Actos dos Apóstolos, conta-se que o apóstolo Pedro disse ao coxo que pedia esmola à porta do templo: «Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda» (Act 3, 6). Com a esmola, oferecemos algo de material, sinal do dom maior que podemos oferecer aos outros com o anúncio e o testemunho de Cristo, em cujo nome temos a vida verdadeira. Que este período se caracterize, portanto, por um esforço pessoal e comunitário de adesão a Cristo para sermos testemunhas do seu amor. Maria, Mãe e Serva fiel do Senhor, ajude os crentes a regerem o «combate espiritual» da Quaresma armados com a oração, o jejum e a prática da esmola, para chegarem às celebrações das Festas Pascais renovados no espírito. Com estes votos, de bom grado concedo a todos a Bênção Apostólica.

Vaticano, 30 de Outubro de 2007.

BENEDICTUS PP. XVI

© Copyright 2007 - Libreria Editrice Vaticana

domingo, 15 de fevereiro de 2009

"Vinde a Mim e não temais, porque Eu vos amo!"

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Revelações do Coração de Jesus à Sóror Josefa Menéndez

 

Ah! Se as almas soubessem como as espero cheio de misericórdia! Sou o Amor dos amores! E não posso descansar senão perdoando!

Estou sempre esperando com amor que as almas venham a Mim! Venham!... Atirem-se nos meus Braços! Não tenham medo! Conheço o fundo das almas, suas paixões, sua atração pelo mundo e pelos prazeres. Sei, desde toda a eternidade, quantas almas me hão de encher o Coração de amargura e que, para grande número, meus sofrimentos e meus sangue serão inúteis! Mas, como as amei, assim as amo... Não é o pecado que mais fere meu Coração... O que O despedaça é não quererem as almas refugiar-se em Mim depois de o terem cometido. Sim, desejo perdoar e quero que minhas almas escolhidas dêem a conhecer ao mundo como meu Coração, transbordando de amor e de misericórdia, espera os pecadores.

Queria também mostrar às almas que nunca lhes recuso a minha graça, nem mesmo quando estão carregadas dos mais graves pecados, e que não as separo então daquelas que amo com predileção. Guardo-as todas no meu Coração, para dar a cada uma os socorros que o seu estado reclama. Queria dar-lhes a compreender que não é pelo fato de estarem em pecado mortal que devem afastar-se de Mim. Não julgue que já não há remédio para elas e que nunca mais serão amadas como o foram outrora! Não, pobres almas, não são estes os sentimentos de um Deus que derramou todo o seu sangue por vós.

Vinde a Mim e não temais, porque Eu vos amo! Purificar-vos-ei no meu sangue e vos tornareis mais brancas que a neve. Os vossos pecados serão mergulhados nas águas da minha misericórdia e não será possível arrancar do meu Coração o amor que vos tenho.

Vós, que estais mergulhados no mal e que há mais ou menos tempo viveis errantes e fugitivos por causa de vossos crimes... se os pecados de que sois culpados vos endureceram e cegaram o coração; se, para satisfazerdes às vossas paixões, caístes nos piores escândalos... ah! Quando vossa alma reconhecer o seu estado, e os motivos ou os cúmplices de vossas faltas vos abandonarem não deixeis que de vós se apodere o desespero. Enquanto tiver o homem um sopro de vida, poderá ainda recorrer à misericórdia e implorar perdão. Vosso Deus não consentirá que vossa alma seja presa do inferno.

Pelo contrário, deseja, e com ardor, que d’Ele vos aproximeis para vos perdoar. Se não ousais falar-Lhe, dirigi para Ele vossos olhares e os suspiros do vosso coração e em breve vereis que sua mão bondosa e paternal vos conduz à fonte do Perdão e da Vida!

Desejo que as almas creiam na minha misericórdia, esperem tudo da minha bondade e não duvidem nunca do meu perdão. Sou Deus, mas Deus de amor! Sou Pai, mas Pai que ama com ternura e não com severidade.

Meu Coração é infinitamente sábio, mas também infinitamente santo, e como conhece a miséria e a fragilidade humanas, inclina-se para os pobres pecadores com misericórdia infinita. Amo as almas depois que cometeram o primeiro pecado, se vêm pedir humildemente perdão. Amo-as ainda, quando choraram o segundo pecado e, se isso se repetir, não digo um bilhão de vezes, mas milhões de bilhões. Amo-as e perdôo-lhes sempre, e lavo no mesmo sangue o último como o primeiro pecado!

Não me canso das almas, e o meu Coração sempre espera que venham refugiar-se n´Ele, por mais miseráveis que sejam. Não tem um pai mais cuidado com filho que é doente, do que com os que têm boa saúde? Para com este filho, não são maiores as suas delicadezas e a sua solicitude. Assim também o meu Coração derrama sobre os pecadores, com mais liberalidade do que sobre os justos, a sua compaixão e a sua ternura.

Dêem-me o seu amor e nunca desconfiem do meu, e sobretudo me dêem a sua confiança e não duvidem da minha misericórdia. É fácil esperar tudo do meu Coração".

Fonte: livro Apelo ao Amor – Mensagem do Coração de Jesus ao mundo e sua mensageira, Soror Josefa Menéndez, Editora Santa Maria, Rio de Janeiro, passim.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ação de graças após a Santa Comunhão

rezando

Por Santo Afonso de Ligório

 

5. DA AÇÃO DE GRAÇAS.

10. — Depois de ter comungado, procurai entreter-vos com Jesus Cristo o mais que puderdes. — O bem-aventurado João d’Ávila dizia que é preciso apreciar muito o tempo que segue a comunhão, porque é um tempo favorável para adquirir tesouros de graças. — Sta. Maria Madalena de Pazzi igualmente dizia: “O tempo que segue a comunhão é o mais pre-cioso que temos nesta vida; é o momento mais oportuno para tratar com Deus e para nos inflamar de seu santo amor. Então, não temos necessidade de mestres nem de livros; porque Jesus Cristo mesmo nos ensina como devemos amá-lo80. — Sta. Teresa também afirmava: “Depois da comunhão, não percamos ocasião tão própria para negociar. Sua divina Majestade não costuma pagar mal a hospitalidade e bom agasalho com que é recebido”81. — Em outro lugar, a mesma Santa deixou escrito que Jesus Cristo depois da comunhão, se estabelece na alma como em um trono de graças, e parece dizer-lhe então, como ao cego de nascimento: Que queres que te faça?82 Alma querida, dize agora o que desejas de mim, pois eu vim expressamente para te conceder as graças quem me pedires.

No sentir de muitos autores graves, como Cajetado, Soares, Gonet, Valencia, De Lugo e outros, enquanto duram as espécies sacramentais na pessoa que comungou, quanto mais esta se mantém unida com Jesus Cristo e aumenta os bons atos, tanto mais nela cresce o fruto e o amor divino; visto que este celeste alimento opera por si mesmo na alma efeitos idênticos aos que produz o alimento terreno, o qual quanto mais dura no corpo, tanto maior nutrição e vigor lhe influi e comunica. Muitas religiosas comungam freqüentemente e tiram pouco fruto, porque pouco se entretém com Jesus Cristo. — Disse um dia o Senhor a Sta. Margarida de Cortona: “Eu trato como me tratam”.

Portanto, quando comungardes, se não fordes constrangida a fazer alguma outra coisa para cumprir um dever de obediência e de caridade, esforçai-vos por conversar com Jesus Cristo, ao menos meia hora. Digo ao menos, porque o tempo próprio seria uma hora. Não deixeis, então, de exercitar-vos em atos fervorosos de bom acolhimento, de agradecimento, de amor, de arrependimento, de oferecimento de vós mesmos e do que vos pertence; mas, sobretudo, ocupai-vos em pedir graças a Jesus Cristo, e especi-almente a perseverança e o seu santo amor. Nisto precisamente consiste aquele negociar de que fala Sta. Teresa. — Se vosso espírito se achar árido e distraído, servi-vos de algum livro, que vos sugira afetos devotos para com Deus. Durante todo o resto do dia, deveis continuar a ficar mais recolhida em o Senhor. — S. Luiz Gonzaga, depois da comunhão, consagrava três dias a dar graças a Jesus Cristo. Se tiverdes a felicidade de comungar mais vezes, não deveis ser menos recolhida; ao contrário, quanto mais vezes receberdes a comunhão, tanto maior cuidado devereis ter de ficar unida com Nosso Senhor.

Fonte: livro "A VERDADEIRA ESPOSA DE JESUS CRISTO", 1922, vol. II, p. 274-276.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Mortos pelos calvinistas por não negarem a fé na Presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento

Gorkum

N. do E.: Mantivemos a grafia da fonte original, cujo português obedece as regras do ano vigente (1937)

 

Os Martyres de Gorkum (sec. XVI)

 

Quando, no século XVI, as heresias de Luthero e Calvino conseguiram entrada na Hollanda, lá, como na Allemanha e na Suissa, foram causadoras de graves disturbios. Os Calvinistas rebellaram-se contra o governo do rei Philippe II e, chefiados pelo príncipe de Orange, tomaram à força armada algumas cidades, entra estas a cidade de Gorkum.

O governador retirou-se para o castello, em companhia de alguns catholicos, dois parochos, onze frades franciscanos e mais sacerdotes seculares. Os calvinistas tomaram posse da cidade e forçaram o castello à rendição. Esta se effectuou, sob a condição de garantir a todos livre egresso. Os Calvinistas, porém, desprezaram esta combinação e aprisionaram o commandante, todos os clérigos e dois cidadãos, dos quaes um foi enforcado immediatamente.

Os sacerdotes eram de preferência alvo do furor calvinista. Máos tratos revezavam com ameaças de morte, e finalmente foram todos mettidos num calabouço subterraneo. No dia de sexta-feira, lhes deram carne a comer. Querendo elles, porém, observar a abstinencia, tiveram de supportar toda a sorte de injurias e soffrimentos. Empurravam-nos, puxavam-lhes as orelhas, davam-lhes pontadas com a lança, ultrajavam-nos e lançavam-lhes em rosto as maiores infamias. Ergueram em sua presença uma forca, ameaçando-os com a morte, si não quizessem negar a fé no Santíssimo Sacramento. Ao Vigario Pe. Nicoláo van Poppel um dos bandidos pôz a arma na testa e berrou aos ouvidos: “Anda, Padre! Como é? Tantas vezes declarastes no pulpito, que estavas prompto a dar a vida pela fé. Pois então, dize! Estás mesmo disposto?” O Padre respondeu: “ Dou a minha vida com muito prazer, si é em testemunho da minha fé e principalmente do artigo por vós rejeitado, o da presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento”. Perguntado pelos thesouros, que suppunham estarem escondidos no Castello, Padre Nicoláo não soube dar informações a respeito. O calvinista lançou-lhe então uma corda ao pescoço, puxou-o de um lado para o outro, até que cahiu como morto.

Chegára a vez dos franciscanos. Ao frei Nicasio Pick puzeram o proprio cordão ao pescoço, arrastaram-no á porta do carcere. Lá chegado, metteram a corda por cima da porta e puxando com força, suspenderam a victima a altura consideravel, para immediatamente a deixarem cahir. Isto praticamente com um prazer infame. Afinal a corda rebentou e o pobre padre cahiu pesadamente ao chão, sem dar signal de vida. Para verificar si estava vivo ou morto, os soldados trouxeram velas, queimaram-lhe a testa, o nariz, as palpebras, as orelhas, a boca e finalmente a língua.

Como o Padre não désse mais signal de vida, deram-lhe ponta-pés e disseram com ar de desprezo: “É um frade, que importa?” Mas o Padre não estava morto, tanto que no dia seguinte os bandidos tiveram a satisfação de poder continuar as crueldades.

Durante toda a noite os Padres estiveram entregues à sanha d’aquelles demonios em figura humana. Não havia nada, que abrandasse o furor dos endiabrados hereges. Davam bofetadas nos religiosos, com tanta força e brutalidade, que lhes corria o sangue do nariz e da boca. O Padre Willehad, um veneravel ancião de noventa annos, repetia a cada bofetada que recebia, a jaculatória: ”Deus seja louvado!” Os algozes, sentindo-se fatigados de tanto bater, ajoelharam-se deante dos Padres e entre risos de escarneo, arremedavam a confissão, proferindo nesta occasião obscenidades e blasphemias horríveis e asqueirosissimas.

Em outra occasião, amarraram os religiosos dois a dois e obrigaram-nos a andarem em fila, imitando procissão e a cantar o “Te Deum” e tudo isto sob a algazarra satanica da soldadesca desenfreada. Depois puzeram dados nas mãos da victimas para assim, à guiza de jogo, tirar a sorte quem delles primeiro havia de subir à forca. O Padre Guardião exclamou: “Não se faz mistér de jogo, estou prompto, porque já passei por esta delicia”.

Os catholicos de Gorkum envidaram todos os esforços para libertar os prisioneiros. Para este fim, dirigiram uma petição ao príncipe Orange. Os calvinistas, suspeitando qualquer reacção, tiraram aos franciscanos o habito e despacharam-nos, com os outros sacerdotes, na noite de 5 a 6 de julho, para Briel, à residencia do clerophobo conde Lumm Von Marc.

A penna nega-se a fazer a descripção de tudo que aqulles religiosos tiveram de soffrer, dos verdugos e do populacho fanatico. Em Dordrecht estava à espera do navio, que devia levá-los até Briel. Antes do embarque, um bando de calvinistas arrastou os martyres a um lugar perto do rio, onde estava apparelhada uma forca. Como cães raivosos, atiraram-se sobre as pobres victimas e o ar encheu-se de insultos e vituperios como estes: “Eis, ahi vossa Egreja! Ide, rezae a vossa Missa”. Em seguida obrigaram-nos a passarem três vezes em volta da forca, sendo a ultima vez com os joelhos no chão, sob o canto da “Salve Rainha”. Enquanto os religiosos se puzeram a obedecer a esta ordem ridicula e estapafurdia, choviam-lhes bengaladas e pedradas às costas. O Padre Vigario Jeronymo de Weert, vendo estas indignidades, não mais se conteve e disse: “Que estou presenciando? Estive entre turcos e infiéis, mas coisa egual a esta nunca vi!”

Finalmente o triste cortejo chegou a Briel. Lá o esperava o conde Lumm, com dois pregadores da seita e alguns magistrados. Todos se empenharam para conseguir dos prisioneiros a renuncia à fé, em particular ao dogma da real presença de Jesus Christo no Santissimo Sacramento. Foram baldados os esforços. Os martyres unanimemente rejeitaram as propostas feitas e preferiram continuar na prisão. O carcere que os recebeu, era uma pocilga immundissima.

Uma ordem do príncipe de Orange, de pôr em liberdade os prisioneiros, não foi cumprida. O conde Lumm, embriagado de odio e vinho, mandou-os levar, alta noite, às ruínas do convento Rugen, que pouco antes tinha sido incendiado pelos calvinistas.

Restára ainda o celleiro. O Padre Guardião foi lá mesmo enforcado, depois de ter animado os irmãos à constancia.Depois d’elle, foram estrangulados todos os companheiros. O fanatismo calvinista nem respeitou os cadaveres dos martyres. Cortaram-lhes o nariz, as orelhas e levaram-nos como trophéos de victoria nos capacetes e chaphéos. Os catholicos resgataram por muito dinheiro os corpos dos santos irmãos e transportaram-nos para Bruxellas.

Clemente X beatificou-os em 1674 e Pio IX elevou-os à categoria de Santos, no anno de 1867. A memória é celebrada na Egreja no dia 9 de julho.

Eis os nomes dos gloriosos martyres de Gorkum:

Leonardo van Vecchel, Nicoláo Poppel, vigario de Gorkum; Godofredo van Duynen e João van Oosterwych (agostiniano); João de Colonia (O.P), vigario de Hoornaer; Adriano van Hilvarenbeek e Jacob Lakops (O. Praem); André Vouters, vigario de Heynoert; Frei Jeronymo van Weert; Frei Theodoro van Emden; Frei Willehad; Frei Nicasio; Frei Godofredo Mervellan; Frei Antonio de Weert; Frei Antonio de Honar; Frei Francisco Rodes; Frei Pedro de Asca.


Fonte: livro “Na Luz perpétua”, 1937, vol. II, Pe. João Baptista Lehmann, p. 29-31.