quarta-feira, 6 de abril de 2011

São João Crisóstomo - "Caminhos para entrar na vida eterna"

São João Crisóstomo
Comentário ao Evangelho feito por S. João Crisóstomo (cerca 345-407), bispo de Antioquia e de Constantinopla, doutor da Igreja

Sermão sobre o diabo tentador


Quereis que vos indique os caminhos da conversão? São numerosos, variados e diferentes, mas todos conduzem ao céu. O primeiro caminho da conversão é a condenação das nossas faltas. "Aviva a tua memória, entremos em juízo; fala para te justificares!" (Is 43,26). E é por isso que o profeta dizia: "Eu disse: «confessarei os meus erros ao Senhor» e Vós perdoastes a culpa do meu pecado" (Sl 31,5). Condena pois, tu próprio, as faltas que cometeste, e isso será suficiente para que o Senhor te atenda. Com efeito, aquele que condena as suas faltas, tem a vantagem de recear tornar a cair nelas...


Há um segundo caminho, não inferior ao referido, que é o de não guardar rancor aos nossos inimigos, de dominar a nossa cólera para perdoar as ofensas dos nossos companheiros, porque é assim que obteremos o perdão das que nós cometemos contra o Mestre; é a segunda maneira de obter a purificação das nossas faltas. "Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós" (Mt 6,14).


Queres conhecer o terceiro caminho da conversão? É a oração fervorosa e perseverante que tu farás do fundo do coração... O quarto caminho, é a esmola; ela tem uma força considerável e indizível... Em seguida, a modéstia e a humildade não são meios inferiores para destruir os pecados pela raiz. Temos como prova disso o publicano que não podia proclamar as suas boas acções, mas que as substituiu todas pela oferta da sua humildade e entregou assim o pesado fardo das suas faltas (Lc 18,9s).

Acabamos de indicar cinco caminhos de conversão... Não fiques pois inactivo, mas em cada dia utiliza todos estes caminhos. São caminhos fáceis e tu não podes usar a tua miséria como desculpa.

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 Montfort Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=oracoes&subsecao=meditacoes&artigo=caminhos_vida
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terça-feira, 29 de março de 2011

Fulton J. Sheen – Sobre o Egoísmo




“Resoluções morrem novas, como acontece aos bons.”

“Primeiro jejum, depois a festa.”

“O amor por nós próprios é o começo de um romance que dura a vida inteira.”  (Oscar Wilde)


Por Saulo Eleazer
     Graças a Deus, a Igreja Católica tem podido oferecer ao mundo excelentes autores. Um deles é Fulton Sheen.
No texto abaixo, o escritor nos apresenta interessantes reflexões que – acreditamos - muito ajudarão nossos leitores. Oportunamente teremos o prazer de disponibilizar aos amigos do blog outras reflexões do mesmo autor por nós indicado.

Maria Santíssima, rogai por nós!

***

CAPITULO XIX

“A Característica da criança é a ausência de qualquer intervalo entre o desejo e a sua satisfação. Logo que uma necessidade, um ímpeto se apoderam do espírito da criança, logo ela procura satisfação imediata. Esta é uma das razões por que as crianças choram com tanta facilidade. Quando essa característica se mantem na vida do adulto – muitas vezes assim sucede – podemos realmente chamar-lhe infantilidade. Observa-se isto, sobretudo em adultos que, quando sentem a necessidade de fumar um cigarro, ficam infelizes até satisfazerem o seu desejo. Quantas pessoas haverá no mundo, capazes de negarem a si próprias a satisfação de fumar um cigarro, só como prova de autodomínio, ou porque desejam oferecer o mérito do sacrifício pelo amor de Deus e pelos pecadores do mundo? 
Todo ser humano é propenso ao egoísmo. Oscar Wilde disse uma vez: ‘O amor por nós próprios é o começo de um romance que dura a vida inteira. ’ O egoísmo pode manifestar-se na jactância, na vã vaidade em procurar o melhor lugar à mesa, em aborrecer os outros – porque um massador já foi descrito como o homem que nos priva da solidão, sem jamais servir de companhia. Nunca se viu pessoa alguma que monopolizasse a conversa, sem correr o risco de a tornar monótona. Uma rapariguita, numa festa, ao ver outra convidada mesmo na sua frente pegando numa fatia de bolo, exclamou: ‘Que gulosa tu és; pegaste na fatia maior! Era a que eu queria para mim’.
Quando os excessos começam a manifestar-se, pouca gente há capaz de tomar a resolução de contrariar os seus desejos; todavia a resolução é a única coisa mais forte ao nascer do que em qualquer outra altura. As resoluções morrem novas, como acontece aos bons. O egoísmo manifesta-se por meio do orgulho, ambição, luxúria, gulodice, inveja e preguiça. A idéia básica desta filosofia é que devemos satisfazer todas as nossas vontades a todo o momento, e, já que este mundo é a única coisa que possuímos, devemos extrair dele quantos prazeres nos for possível obter.
Devemos lembrar-nos que existe outra filosofia ao lado do egoísmo. Esta outra filosofia pode resumir-se toda no princípio: primeiro jejum, depois a festa. A filosofia do egoísmo dá a primazia à festa, e deixa para o dia seguinte as renúncias e os lamentos. A filosofia do autodomínio crê no autodomínio, isto é, crê que cada um pode e deve ser capitão e senhor do próprio destino, se tiver vontade firme. A filosofia do egoísmo significa que só os outros devem se mandados. Formas externas de escravidão, tais como maus hábitos, propensão excessiva para as bebidas, acabam por fazer prisioneiro o eu, pois não existe unidade interna para opor ao exército invasor. Logo que a tentação se apresenta, a personalidade sucumbe.
A melhor definição da filosofia da autodisciplina e do autodomínio é-nos dada por Nosso Senhor, a quando duma visita feita pelos Gregos. Os Gregos não se dedicavam à filosofia do prazer como acontece com a nossa civilização ocidental; em todo caso não podiam compreender sacrifício ou amor, capazes de sofrimento em busca de um lucro maior, todo espiritual; o seu sistema desconhecia os dois extremos. Aproximaram-se primeiramente de Filipe, talvez por este vir de uma cidade que havia sido influenciada pela civilização grega, talvez também porque o seu nome era grego. Diziam os gregos qual seu desejo de ver Nosso Senhor. Por sua vez, Filipe comunicou este desejo a André, detentor também de um nome grego. Houve então uma conferência entre os dois apóstolos com nomes gregos. Não sabemos qual o motivo por que os Gregos ousaram pretender ver Nosso Senhor. Pode ser porque Ele dissera que o templo seria casa de oração ‘para todas as nações’. Resolução tão revolucionária deve ter agitado os Gregos, que escutaram um dia estas palavras de Alexandre: ‘Deus é pai comum de todas as nações. ’ Não sabemos precisamente por que motivo queriam encontrar-se com Nosso Senhor, mas é-nos lícito supor que vinham solicitar a resposta que Ele lhes deu.
Provavelmente, disseram-lhe que anteviam para Ele cólera, crescendo cada vez mais, ira e decerto a morte à Sua espera. Pode ser que Lhe dissessem: ‘Se ficardes aqui, morrereis e a vossa vida como Mestre em breve terminará. Vinde para a nossa grande cidade de Atenas, a cidade dos homens sábios. Só uma vez matamos um dos nossos mestres, Sócrates, e nunca mais deixamos de lamentar essa morte. Se vierdes connosco é bem natural que organizareis um estado como o de Sólon ou abrireis uma escola de Peripatéticos, como fez Platão, tão grande é a vossa ciência, ou então podereis fazer reviver e criar dramas à moda de Ésquilo. Todos os conhecimentos, toda filosofia, tudo o que é intelectualidade no mundo veio a nós. Vinde connosco. Sentai-vos no Areópago e viveremos a ouvir-vos. ’
Eis decerto o teor das palavras dos Gregos, pois Nosso Senhor respondeu-lhes assim: ‘ Para o Filho do Homem chegou o momento de concluir a obra da sua glória. Acreditai-me, quando vos digo: um grão de trigo tem de se sepultar na terra e morrer, ou nunca será mais do que um grão de trigo; mas, se morrer, dará rico fruto. Aquele que ama a sua vida perdê-la-á, aquele que desprezar a própria vida neste mundo salvá-la-á, e viverá eternamente. ’ Nosso Senhor disse aos Gregos: ‘Vós não desejais que eu permaneça aqui; quereis que salve a vida. E eu digo-vos que há duas coisas que podeis fazer a uma semente. Podeis comê-la ou podeis semeá-la. Se a comerdes, dar-vos-á um prazer momentâneo. Se a semeardes, sofre, é crucificada, é enterrada na terra; mas multiplica-se e ressurge numa vida nova. Deixai que vos diga que me considero a semente. Não vim ao mundo para viver; vim para morrer. A morte para o vosso Sócrates foi um obstáculo; interrompeu os seus ensinamentos. Para mim, porém, a morte é o alvo da minha vida; é o alvo que procuro. Sou o Único que jamais viveu a vida de trás para diante. Vim para morrer como a semente; assim como vós admirais o homem que dá a vida voluntariamente para salvar um outro homem de morrer afogado, também eu vim para morrer, de maneira a poder salvar a humanidade. Eu não sou um homem como os outros; sou Deus e homem. Não sou um Mestre. É por isso que me convidas para que eu vá a Atenas ensinar. Mas eu sou essencialmente o Salvador, o Redentor. É possível que tenhais escutado o Sermão da Montanha e agora desejásseis ouvir pregar em Atenas esta sabedoria. Não sabeis que existe íntimo e absoluto parentesco entre a montanha das Bem-aventuranças e o Monte do Calvário?’
‘Que venha alguém a um mundo freudiano e diga: ‘ Bem-aventurados os limpos de coração’, e será crucificado. Que venha alguém ao mundo atômico e diga: ‘ Bem-aventurados os mansos’, e trespassar-lhe-ão mãos e pés com cravos agudos. Que venha alguém ao mundo endoidecido à busca do prazer, e diga: ‘Bem-aventurados os que sofrem perseguições’, e coroá-lo-ão de espinhos. Não vos vanglorieis que me pouparíeis a vida se eu fosse para Atenas; dentro de um ano, a minha sentença de morte estará escrita em grego sobre minha cruz. A morte não será, porém a morte. Ninguém pode tirar-me a vida. Sou eu que me despojo da vida. Enquanto viver, a minha existência é semente por plantar, valiosa em mim, mas quando, como semente for plantado no terreno do Calvário, então desenvolver-me-ei em novas vidas, em aumento sempre constante. Este aumento não virá a despeito, mas sim em virtude da minha morte, que será seguida pela Ressurreição. Esta é a minha glória. ’”


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(O negrito é nosso)
Referência Bibliográfica:

SHEEN, Fulton. A Vida Faz Pensar. Trad.: Maria Henriques Osswald.  Porto: Editora Educação Nacional, 1956. 280 pg.




quarta-feira, 23 de março de 2011

Reflexões Acerca da Noção Tomasiana de Homem





Nota Prévia:
O autor do texto abaixo aborda a temática em seus aspectos mais gerais, dando ênfase porém, a aspectos filosóficos. Certas “sub –temáticas” , digamos assim, que se vão surgindo no decorrer da exposição serão aprofundados em trabalhos posteriores. 


Por Fr. R. G. Santos

INTRODUÇÃO

O objetivo do presente texto é compreender a noção “tomasiana” do homem em seus aspectos gerais, de caráter mais otimista, sobretudo no que se refere à matéria, esclarecendo, com relação a tal assunto, alguns  conceitos fundamentais, a partir de pontos oriundos de algumas de suas obras. Ao final perceber-se á o quão positiva é a análise que faz o “aquinate” do homem, retomando e até aperfeiçoando, à luz das noções de criação e de finalidade, a reflexão aristotélica acerca da temática.

O ARISTOTELISMO NA FILOSOFIA CRISTÃ E O ROMPIMENTO COM CERTA TRADIÇÃO PLATÔNICA

Devido a uma série de fatores, é o século XIII tido como o período  áureo do “medievo” em todos os âmbitos,  sobretudo em termos de produção filosófica. Alguns, como por exemplo Realle e Antisseri (1990), chegam a dizer que o mesmo é período fundamental de toda a filosofia.
O fato é que realmente esse século foi de profunda intensidade intelectual. E a reflexão “tomasiana” representou uma “novidade” no contexto de seu surgimento por conta do ponto de partida aristotélico que dá às suas especulações, que toma vulto notório nos tempos de Tomás. A esse respeito, diz-nos Realle e Antisseri (1990, p. 532) que “do ponto de vista mais propriamente cultural, o acontecimento filosófico de maior relevo no século XIII é constituído pelo conhecimento e a lenta difusão do pensamento de Aristóteles, tanto no que diz respeito à física como a metafísica”.
O ilustre dominicano, nesse sentido, acompanha os rumos tomados por sua escola, que segundo análise de autores como Sciacca (1967), tentam valer-se do aristotelismo para, “cristianizando-o”, defender com maior ênfase a ortodoxia cristã.
Entrementes, convém nesse momento estabelecer esse nexo que “une” Tomás e Aristóteles em termos práticos. De que termos aristotélicos o “aquinate” lança mão para erigir sua noção de homem? Podemos citar aqui vários termos, sobretudo de ordem metafísica. Entre eles, nos interessa de modo especial nessa reflexão destacar, além da noção de ser,  as  de forma, essência e substância, além de um termo angular para o trabalho que ora nos propomos realizar: o “sínolo”.
É este o composto de matéria e forma que constitui, obviamente, uma só substância composta. Em Aristóteles, a forma concede o ser das substâncias compostas em sentido mais pleno do que a matéria. No homem, a alma corresponde à enteléquia, que pode ser entendida como “realização”. Nesse sentido, e comentando o estagirita, Realle e Antisseri (1990) vão salientar que enquanto essência e forma do corpo, a alma é ato e enteléquia no corpo e, em geral, todas as formas das substâncias sensíveis são ato e enteléquia.
Tal concepção unitária do homem, levando em conta a matéria de modo mais positivo, abre caminho para um rompimento com o dualismo, então vigente em certas escolas medievais que, segundo Japiassu e Marcondes (1996, p. 75), é a “(...) doutrina segundo a qual a realidade é composta de suas substâncias independentes e incompatíveis.” Nesse ínterim, e acentuando a tendência dualística platônica, à qual Aristóteles começa por estabelecer rompimento, e que predominara em muitos autores pagãos posteriores e até em pensadores cristãos, Dutra (1996, p. 10) vais salientar que no ateniense a dicotomia era estabelecida entre o “mundo do Ser: das formas, conceitos e idéias eternas (e o) mundo do Vir-A-Ser: dos particulares transitórios, das aparências”.
Como vimos acima, assumir a noção aristotélica não foi, por certo, uma “ocasionalidade” em Tomás, visto que tal “assimilação” dá largas a uma interpretação mais positiva do homem enquanto ser criado por Deus, que é essencialmente bom e, mais do que isso, é a própria bondade. Com efeito, diz Santo Tomás (1990 p. 80) que “ser em ato é, para cada coisa, o seu bem. Ora, Deus não é só ente em ato, como também se identifica com seu próprio ser (...). Logo, Deus é a própria bondade e não somente bom.”
Sendo Deus bom por excelência, sua obra só pode ser boa, mesmo que por participação. O homem, enquanto ser composto de matéria e forma (corpo e alma), é criatura de Deus. Logo, é inteiramente bom em todos os seus aspectos.
Aqui o “aquinate” rejeita claramente uma tendência platônica que vigorava, (da qual já começamos por aludir acima) ainda que de modo mitigado, em muitos pensadores cristãos de seu tempo. Tal tendência consiste em conceber o homem numa perspectiva dualista.
Com efeito, o dualismo platônico tomava a matéria em termos negativos, sendo obra de um deus mal. As almas se unem aos corpos em caráter de punição. É portanto uma visão dicotômica da relação alma e corpo. A esse respeito,  Realle e Antisseri (1996) afirmam que, de acordo com a reflexão platônica,  o corpo é visto não tanto como receptáculo da alma à qual deve vida juntamente com suas capacidades de operação, mas sim o contrário, é entendido como “tumba”, como cárcere da alma.
Vê-se assim que Aristóteles, com uma concepção mais positiva da relação matéria e forma, no entendimento das substâncias compostas, poderia ser utilizado com mais tranquilidade pelo doutor angélico em sua elaboração.

CONCEPÇÃO METAFÍSICA

A obra o Ente e a Essência, pertencente ao “corpus tomisticum”, aborda sobretudo questões de fundo metafísico. Nela percebe-se o vigor especulativo do “aquinate” e de modo especial, sua tendência à síntese e ao rigor na precisão das questões. Dentre essas, vale destacar, em nosso estudo, as referências à noção de homem.
Tomas vai dizer que a essência do homem é sua humanidade, que significa aquilo em virtude do que o homem é homem e não outra coisa. Tal entendimento é abstraído do homem concebido num sentido unitário, já que, segundo o “aquinate” (1996, p. 29), “(...) não é somente matéria nem forma que determinam, por si sós, o ser do homem, mas sim a união dos dois. A esse respeito, diz que “(...) é necessário, em virtude da qual uma coisa se denomina ente, não consista só na matéria ou só na forma, senão nas duas juntas, embora só a forma seja cousa, a seu modo, de tal se ou essência”.
Com relação à matéria (corpo) no homem, ou melhor, em sua noção universal, devemos considerá-la enquanto matéria “não signada”, visto que é entendida não numa concepção particular e concreta, mas sim enquanto integra a noção conceitual apenas.
A alma, enquanto princípio que informa o corpo e com ele compõe a noção de homem, é simples, ou seja, espiritual e portanto incorruptível. Tal idéia Tomás a define com o seguinte raciocínio (1990, p. 257): “(...) nenhuma substância intelectual é composta de matéria e forma, Logo, nenhuma substância intelectual é incorruptível”.

FIM ÚLTIMO DO HOMEM EM TOMÁS

Vimos até aqui a exposição acerca da constituição do homem na perspectiva de sua identidade, a saber, daquilo que ele é de fato. Doravante, passaremos a analisá-lo na perspectiva de sua mais profunda vocação ontológica. Iremos destacar, assim, sua razão de ser, sua finalidade, segundo a reflexão do “aquinate”.
Nesse sentido, devemos salientar que, em primeiro lugar, ele é ser criado. E criado por um ser pessoal, boníssimo em si mesmo. Esse ser é Deus. Ele criou do nada todas as coisas, concedendo-lhes o ser.
Além de criar, o Princípio Supremo sustenta e mantém amorosamente todas as coisas por sua providência. Esta, segundo o próprio “aquinate”, (1977, p. 160),  “(...) dirige as coisas conforme o modo de cada uma.” Assim sendo, cuidará de cada criatura, conforme seu modo peculiar de existir. Logo, ao homem cabe um cuidado próprio e generoso por parte de Deus, visto que ele (homem) possui racionalidade e liberdade.
Sendo racional e livre por excelência, o Ser supremo, ao criar o homem, ao conceder-lhe o ser, o fez com vistas a um fim. E aqui o “aquinate” parece demonstrar todo seu otimismo com relação à sorte do homem. Diz (1997, p. 166) que “a consumação do homem consiste na consecução do último fim, que é a beatitude perfeita”. Esta seria a felicidade, que segundo o próprio doutor angélico, reside na união plena com Deus , o que ele chama visão beatífica, ou de Deus mesmo.
Mais adiante, em sua obra compêndio de teologia, (1997, p. 166) ele se propõe a pormenorizar os detalhes desta união ao dizer que a visão divina se atinge “(...) pela imutabilidade da inteligência e da vontade. A inteligência atinge então a imobilidade, porque, chegando à visão da causa primeira, na qual todas as coisas podem ser conhecidas, cessa a sua função inquiridora. Cessa a mobilidade da vontade, porque, tendo ela atingido o fim último, no qual está contida a plenitude de toda bondade, nada mais resta a ser desejado”.
Esta é, logo, a finalidade do homem em Tomás: Atingir, por virtude divina, é bom ressaltar, a visão beatífica. Em sua existência, o homem deve agir com vistas à união com Deus. Tudo o que faz deve tender ao bem.

CONCLUSÃO

Foram estas as reflexões que, a nosso simples e limitado ver, se fizeram necessárias acerca da temática em questão. Vimos que Santo Tomás, iluminado pela luz da mensagem de Cristo na revelação, e guiado, no campo da especulação natural, pela doutrina aristotélica; chega a uma noção altamente interessante do ser humano. Fugindo do dualismo, o concebe de forma unitária e harmônica, ressaltando o valor notável da sua dimensão corpórea, material, hoje tão tristemente esquecido por muitos grupos que inclusive atuam na Igreja Católica... Por fim, à luz do conceito cristão de criação, postula para o homem um fim sobrenatural a colimar, a saber, a visão do Eterno, que começa na busca de Sua glória nesta vida, e em Seu gozo na outra.

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REFERÊNCIAS
AQUINO, S. Tomas de. Suma Contra os Gentios – Livros I e II. Trad.  D Odilão Moura. Porto Alegre: escola Superior de Teologia S. Lourenço de Brundes, 1990.
AQUINO, S. Tomas de. Compendio de teologia. Trad. D. Odilão Moura OSB. Rio de Janeiro: Presença, 1977.
AQUINO, Santo Tomás de. O Ente e a Essência. Trad.Luis João  Baraúna. Bauru: Nova Cultural, 1996.
DUTRA, Lucas  Vieira. O Dualismo Mente-Corpo: Implicações
Para a Prática da Atividade Física
Editora: CopyMarket.com, 2000
Acesso em: 05/10/10
JAPIASSU, Hilton,   MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Zahar editor LTDA, 1996.
REALLE, Giovani, ANTISSERI, Dário. História da Filosofia – Antiguidade e Idade Média. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 1990.
SCIACCA. Michel Frederico. História da Filosofia – Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Ed. Mestre Jou, 1962


segunda-feira, 21 de março de 2011

São José, patrono da Pia




 Por Saulo Eleazer
 
     São José é um modelo sublime dos defensores de Nosso Senhor. Aquele que desejar tornar-se paladino do Corpo Místico deverá ter no esposo de Maria Santíssima a fonte de seus anseios, o alimento de suas pretensões. Se o fizer não falhará nesta santa empreitada.
O que escrevi?! “Esposo de Maria Santíssima”! Que graça! Que honra indizível! Quisera poder expressar em palavras louvores devidos por tal dignidade, porém, não o posso. Acredito que nem mesmo os anjos poderão  fazê-lo devidamente.
Portanto, para honrar a São José, tentando condensar numa frase esplendores incalculáveis, basta repetirmos o imponderável: “Salve, esposo de Maria!” Então, os anjos se “comoverão”, e, ele, no silêncio adorador de sua alma, explodirá em louvores por tal dádiva.
Realmente, que esposa! Rainha dos céus, Rainha da terra, e, para abafarmos todas as outras dignidades: Mãe de Jesus Cristo, o Deus encarnado! É glória demais para simples criaturas! Uma, é Mãe do próprio Deus, a outra criatura, esposo desta mesma Theotokos. Estamos perante realidades que transcendem a simples especulação humana; só Deus poderá elevar-nos à contemplação devida de tais mistérios.
Imaginem os senhores se pudéssemos observar, um segundo que fosse, a santa convivência deste casal! Os olhares, os sorrisos, as palavras... Enfim, todo e qualquer movimento, desde um simples bocejo, até um ósculo esponsal, este, puro e angélico; que magnífico seria! Suplicaríamos a Deus, entre lágrimas e gemidos, que nos deixasse ali por toda a eternidade.
Então, São José, porte ereto, viril, fitar-nos-ia com candura, a nós, discípulos de seu filho. Maria Santíssima se alegraria ao ver, a pesar de tanta miséria humana, o acanhado reconhecimento, por nossa parte, da grandeza de seu esposo. E, por fim, nos apresentaria o Divino Infante. Oh, Deus! Calemo-nos aqui.
Que poderia ser dito perante aquela criança extraordinária?Nada. Deus é para ser adorado.
Senhores, terminemos assim nossa reflexão: Calados.
Calados pela grandeza do menino.
Calados pela grandeza de sua Mãe.
Calados pela grandeza de São José, esposo de Maria Santíssima. E, nem falamos de sua paternidade...

São José, esposo de Maria, rogai por nós!



sábado, 12 de março de 2011

Introdução ao Teosofismo



“... Satanás e os outros demônios... tentam associar o homem à sua rebelião contra Deus...”[1]



Por Saulo Eleazer

     A Teosofia, no entender de Helena Petrovna Blavatsky, é a sabedoria divina, eterna, que, periodicamente, é reapresentada aos homens, adaptada à época e às condições espaciais. [2] Afirma-nos D. Estevão Tavares Bettencourt, que ela distingue-se da Teologia, pois, esta é o discurso (logos) sobre Deus (Théos), conhecido à luz da fé, enquanto que, ao contrário, a teosofia (Sophia = sabedoria), viria a ser, como dizem, o conhecimento de “deus” recebido por iluminação reservada a poucos... [3]
Vê-se ai o quanto dista do cristianismo esta doutrina perversa e estapafúrdia. Pretende reacender “a chama dos antigos, voltando-se para o mistério, a magia, a cabala e a alquimia.” [4], entre muitos outros delírios esotéricos. Pode-se afirmar, com toda certeza, que ao estudarmos as teses da teosofia deparamo-nos com um emaranhado de doutrinas ocultistas, onde gnose e panteísmo dialogam buscando a mais agradável convivência no terreno de um indiscreto satanismo. 
Encontramos em vários livros as mais desencontradas informações referentes à origem da teosofia, assim como, sobre os dados biográficos de suas fundadoras (H. Blavatsky e Annie Besant). Nosso principal objetivo, entretanto, é apresentar a doutrina delirante dessa Sociedade esotérica. Que esta introdução sirva, tão somente, para localizarmo-nos, um pouco que seja, no universo desta área de pesquisa. Em todo caso, é muito ordinária a confusão de informações em assuntos ligados à charlatanice e a bilontragem.

Que Maria Santíssima seja o auxilio nas lutas contra o erro que se propaga em nosso tempo.

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História do Teosofismo

Teosofismo[5]

 A história do teosofismo confunde-se com a das duas fundadoras: Blavatsky e Annie Besant. Helena Petrovna de Hahn, nascida na Rússia (1831), casada aos 18 anos com o general Nicéforo Blavatsky, que já passava dos 60, abandonou-o cedo para, em companhia do mago Paulos Metamon, correr a Grécia e o Egito. Descoberta nas fraudes espíritas do ‘Clube dos Milagres’ que abrira no Cairo, partiu para Nova Iorque onde, auxiliada pelo jornalista H. S. Olcott, fundou a Sociedade Teosófica (17 nov. 1857), encarregada de espalhar a doutrina dos ‘mestres espirituais do mundo’, os mahatmas. [6] Enérgica, dotada de apreciáveis faculdades de médium, Blavatsky começou a propaganda da Sociedade, que reunia, num só corpo, as principais tradições do ocultismo, das filosofias hindus, da mitologia, da magia e do espiritismo. Estabeleceu o santuário central em Adiar, na índia, preferindo morar em Londres. Dois dolorosos insucessos precipitaram a morte de Blavatsky. O primeiro foi o desmentido feito pela célebre Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres, após um inquérito científico acerca das problemáticas ‘maravilhas’ que Blavatsky afirmava realizarem-se em Adiar. Outro golpe recebeu a Sociedade quando se descobriu que as mensagens atribuídas aos mahatmas não eram senão fabricadas inteiramente pelo americano W. S. Judge.
A alma, porém, e a voz mais autorizada da Sociedade, foi a inglesa Annie Wood (nac. 1847), casada com o ministro anglicano Frank Besant. ‘Acostumada a viver em completa liberdade, impulsiva e briosa como Lúcifer’, disse ela em sua biografia, pouco depois abandonou sua fé cristã e seu marido. Após dez anos de pregação do mais deslavado materialismo e maltusianismo, de parceria com o ateu Bradlangh, a que acabou também abandonado, em 1882, Besant encontrou-se com Blavatsky, em Londres, e seguiu-a. Filiada à Maçonaria, Besant em 1893 partiu para Adiar, onde procurou realizar o seu programa de restaurar e elevar as antigas religiões hindus, provocando o nacionalismo desses povos. Com a morte de Olcott, feita presidente da Sociedade, começou suas viagens triunfais pela Europa. Breve, porém, vários fracassos forçaram o declínio da nova estrela. Obcecada pela idéia de revelar o indivíduo em quem devia estar reincarnado um dos ‘grandes instrutores do mundo’, Besant escolheu, em Londres, um menino que afirmava ser Pitágoras reencarnado e o confiou a Leadbeater. Tão inconfessáveis, porém, foram os processos de Leadbeater no seu mister, que o pai do iniciado retirou o filho e o Congresso Teosófico de Paris, em 1906, exigiu a exclusão do educador. Carecendo, porém, da virtuosidade oculta de Leadbeater, para o êxito da campanha messiânica que projetava, Besant obteve, dois anos depois, a sua reinclusão na seita, a despeito do voto contrário das seções alemãs chefiadas por Steiner, o mais sério rival de Besant. De acordo com Leadbeater, Besant começou, em 1908, a iniciação de outro jovem, um hindu de 13 anos, Krishnamurti, a quem, como Mizar, adotou como filhos, chamando o primeiro Alcion, e apresentou-o como Mestre e Messias. [7] Recusando-se a obedecer ao ingênuo Alcion, alguns teósofos europeus, chefiados por Steiner, provocaram um cisma na seita, acabando Besant por excluir da Sociedade toda a secção alemã (2.400 membros). A partir então de 1913 deparamos duas sociedades teosofistas: os teosofistas, presididos por Besant e os antroposofistas, às ordens de Steiner e chefiados na França pelo grande iniciador Ed. Schuré.
Prejudicada na índia e na Europa, Besant ensaiou nova estratégia para reconquistar a popularidade. Lançou-se, em 1913, na vida política da Índia lutando pela emancipação nacional. Tendo a Inglaterra, pelo ministro Montagu, reconhecido a Índia como um ‘Domínio’ autônomo, reuniu-se o Congresso Nacional: os Extremistas sob a égide de Gandhi, que reprovavam o projeto Montagu, e os Moderados, entre os quais Besant. Vendo em Gandhi o campeão da liberdade nacional, os hindus o aclamaram seu Mahatma, perdendo Besant toda a popularidade, a ponto de ser excluída da ‘Conferência da Mesa redonda’, convocada entre delegados indianos e ingleses, para uma nova constituição hindu. De ocaso em ocaso, Besant veio a sofrer o mais profundo golpe com a proclamação de Krishnamurti. Impressionado com a morte de seu irmão, que com ele tinha sido enviado a Oxford, Krishnamurti recusou-se a exercer o papel que sua mãe adotiva lhe confiou e declarou que não era de modo algum o Messias; considerava mesmo toda religião como negócio puramente individual e detestava toda a organização de sociedades religiosas. Em 1929 Krishnamurti dissolveu a ‘Ordem da Estrela do Oriente’, fundada em honra do ‘Messias’. Acabrunhada e octogenária, Besant morreu aos 20 de setembro de 1933, em Adiar. Krishnamurti continua pelo mundo a pregar sua ‘filosofia’ e a Sociedade Teosofista, que teve há pouco como vice-presidente Jinarajadasa, está acéfala. [8]
Ao que nos consta, hoje os teosofistas ultrapassam 100 mil, em todo o mundo. Possuem eles seus templos e organizam suas sociedades secretas, lojas, a cujas reuniões só os iniciados assistem.

(Pg. 98-100)

(P.S.: Tivemos a liberdade de omitir algumas notas de rodapé que julgamos desnecessárias. O negrito é nosso.)


Referencia Bibliográfica:

SALIM, Dr. Emílio. Apologia do Catolicismo. 2º Edição. São Paulo: Editora Vozes, 1944. 472 pg.





[1] Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2oo5. Pag. 41.
[2] BLAVATSKY, H. P. A Doutrina Secreta. Síntese da Ciência, da Religião e da Filosofia. Vol. IV.  Trad. Raymundo Mendes Sobral.  São Paulo: Pensamento.
[3] BETTENCOURT, Estevão Tavares. Crenças, religiões, igrejas e seitas: quem são? 2º  Edição.  São Paulo: O Mensageiro de Santo Antônio, 1995. Pág.140.
[4] BLAVATSKY, H. P. A Doutrina Secreta...
[5] Não confundir Teosofia com teosofismo. A palavra teosofia, já usada no século XVI, denominava doutrinas bem diversas, concepções mais ou menos esotéricas, de inspiração religiosa e base cristã. Tais são as doutrinas de certos iluministas como Jacob Boehme, Swedenborg, Jane Lead e outros filósofos do séc. XVIII.
[6] Que são os mahatmas, de quem tanto falam os teosofistas? Segundo Blavatsky e seus sequazes, os mahatmas são uma espécie de jerarquia oculta que governa o mundo secretamente. Super-homens vivos, dotados de raras faculdades, como a de conhecer o pensamento alheio, comunicam-se com outros mestres e discípulos, onde quer que estejam, etc. Tendo atingido, em anteriores reencarnações, o supremo grau da espiritualidade, seu lugar próprio seria o céu, mas, zelosos da felicidade humana, habitam nas regiões inacessíveis do Tibete e dali transmitem as ordens divinas aos diretores da Sociedade Teosófica. Seria perder tempo pretender provar que os mahatmas, assim como os pintaram os teosofistas, só existem em sua fantasia.
[7] Indignado com os processos de Besant e Leadbeater, o pai de Krishnamurti moveu-lhes um processo, para obter a restituição do filho. Achando em regra os documentos relativos à adoção de Krishnamurti, o tribunal de Madras negou ao pai o direito de reaver o filho.
[8] As Sociedades Teosofistas Brasileiras que aguardavam, com explicável ansiedade, a visita de Krishnamurti ao Rio e S. Paulo, em abril de 1935 passaram por um desapontamento indescritível, ouvindo as idéias expendidas por esse a quem, obstinadamente, ainda querem chamar ‘Messias’.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Igreja, Razão e Verdade



“... tentamos explicar tudo o que a nós parece razoável, e mais ainda, necessário para o homem.” (Card. Joseph Ratzinger)

“Buscamos uma religião que não seja inventada, mas sim autêntica, e que, ao mesmo tempo, seja acorde com nossa razão.” (J. Ratzinger)

“... nossa religião é a continuação e a culminância das filosofias da época – e também uma superação das filosofias.” (Ratzinger)


Por Saulo Eleazer

Neste tempo atordoado, em que o subjetivismo pretende destronar a Verdade, poucas vozes levantam-se em defesa de Nosso Senhor. Os poucos que ousaram organizar-se à sombra do ideal cristão parecem desanimados perante a ousadia dos adversários...

Não podemos nos calar.

Nunca, jamais!

É preciso reafirmar, constantemente, os ideais da fé. Gritar bem alto os esplendores da Verdade. No céu, ouvir-se-ão aplausos angélicos. Na terra, homens serão incendiados pela bravura dos crentes. E, por fim, os “inimigos da cruz”, verão frustrados seus intentos.

O triunfo é inevitável, incerta é nossa participação no mesmo. Lutar por Cristo é tornar-nos, por sua graça, partícipes da vitória. Proclamemos, portanto, bem alto a Verdade, mesmo que ninguém nos escute.

Nosso coração se encheu de alegria ao “ver” a voz, quase solitária, do então Cardeal Ratzinger em defesa das verdades do cristianismo no texto que se segue. Possa a Santíssima Virgem Maria, por sua doce intercessão, tornar-nos dignos companheiros deste paladino da fé.   


***


A pretensão da Verdade posta em dúvida

“No inicio do terceiro milênio, e precisamente no âmbito de sua expansão original – Europa - o cristianismo se encontra imerso em uma profunda crise que é conseqüência da crise de sua pretensão da verdade. Essa crise tem uma dupla dimensão: em primeiro lugar, questiona-se cada vez mais se é realmente oportuno aplicar o conceito de verdade à religião; em outras palavras, se é dado aos homens conhecer a autêntica verdade sobre Deus e as questões divinas. Para o pensamento atual, o cristianismo de modo algum está mais bem situado que as demais religiões. Ao contrário: com sua pretensão da verdade parece estar especialmente cego diante do limite de nosso conhecimento do divino.
Todo este ceticismo frente à pretensão da verdade em matéria de religião se vê respaldado, ainda, pelas questões que a ciência moderna levantou sobre as origens e os conteúdos do cristianismo: com a teoria da evolução parece ter sido superada a doutrina da Criação; com os conhecimentos sobre a origem do homem, a doutrina do pecado original; a exegese crítica relativiza a figura de Jesus e questiona sua consciência de Filho; a origem da Igreja em Jesus parece duvidosa etc. O fundamento filosófico do cristianismo se mostra problemático após o ‘fim da metafísica’, e seus fundamentos históricos são postos em xeque por efeito dos métodos históricos modernos.
Por isso, também é fácil reduzir os conteúdos cristãos ao simbólico, não lhes atribuir maior veracidade que aos mitos da história das religiões, vê-los como uma forma de experiência religiosa que se deveria situar com humildade ao lado de outras. Ao que parece, assim considerado, poder-se-ia continuar sendo cristãos, e continuam sendo utilizadas as formas de expressão do cristianismo, cuja exigência se transformou radicalmente: a verdade, que era uma força  vinculadora e uma promessa segura, transforma-se em uma forma de expressão cultural do sentimento religioso geral que nos cabe por conta de nossa origem européia.”

“Em suas origens, como o cristianismo contemplou seu lugar no cosmos das religiões? O surpreendente é que, sem hesitar, Agostinho atribuiu ao cristianismo um posto no âmbito da ‘teologia física’, do racionalismo filosófico. Esse fato implica uma evidente continuidade dos primeiros teólogos do cristianismo – os apologistas do século II – com relação ao lugar que Paulo atribui ao cristão no primeiro capítulo da Carta aos romanos, que, por sua vez, se baseia na teologia da sabedoria do Antigo Testamento e, por meio dela, remonta ao escárnio dos deuses dos Salmos.
Sob essa perspectiva, o cristianismo tem seus precursores e sua preparação interna no racionalismo filosófico, não nas religiões. [1] Segundo Agostinho e a tradição bíblica, para ele decisiva, o cristianismo não se baseia nas imagens e idéias míticas, cuja justificação se encontra, afinal, em sua utilidade política, mas faz referência a esse aspecto divino que a análise racional da realidade pode perceber. Em outras palavras: Agostinho identifica o monoteísmo bíblico com as idéias filosóficas sobre o fundamento do mundo formadas em suas diversas variantes na filosofia antiga. A isso se faz referência quando, desde o sermão do Areópago de Paulo, o cristianismo se apresenta com o propósito de ser a religio vera. Assim, pois, a fé cristã não se baseia na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera esse Ser que é o fundamento de tudo o que existe, o ‘Deus verdadeiro’. No cristianismo, o racionalismo se tornou religião e não é mais seu adversário. [2]
Partindo dessa premissa, como o cristianismo foi entendido como um triunfo da desmitologizaçâo, como um triunfo do conhecimento e, com isso, da verdade, devia ser considerado universal e levado a todos os povos; não como uma religião específica que ocupa o lugar de outras, ou como uma espécie de imperialismo religioso, mas como verdade que torna a aparência supérflua.”

“Justino, filósofo e mártir – falecido em 167 – pode ser considerado uma figura representativa dessa forma de chegar ao cristianismo como vera philosophia. Com sua conversão ao cristianismo, não renunciou a suas próprias convicções filosóficas, mas foi quando se tornou verdadeiramente um filósofo. A convicção de que o cristianismo era filosofia, a filosofia perfeita, ou seja, a filosofia que chega até a verdade, manteve-se vigente para além dos tempos dos Pais da Igreja. No século XIV, essa consideração é evidente na teologia bizantina de Nicolau Cabasilas. Certamente a filosofia não era entendida, então, como uma disciplina acadêmica puramente teórica, mas também, e acima de tudo, sob uma perspectiva prática, como arte de viver e morrer com probidade a que só se pode chegar à luz da verdade.”

O racionalismo pode se transformar em religião porque o mesmo Deus do racionalismo entrou na religião. O elemento que realmente exige fé, a palavra histórica de Deus, é a condição prévia para que a religião possa se voltar, por fim, para o Deus filosófico, que já não é um mero Deus filosófico e que não rejeita o conhecimento filosófico, mas que o assume.”

“A tentativa de dar de novo um sentido claro ao conceito de cristianismo como religio vera no meio dessa crise da humanidade deve se basear igualmente, por assim dizer, no reto agir (ortopráxis) e no reto crer (ortodoxia).”


(P.S. O negrito é nosso)

Referência Bibliográfica:

RATZINGER, Joseph; D`ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? Trad.: Sandra Martha Dolinsky. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009.





[1] Conferir no mesmo livro a seguinte citação: “... nós somos a continuação do pensamento humano que criticou as religiões, do pensamento que já havia encontrado uma pista de Deus, mas que somente com suas forças não podia identificá-lo realmente.” (Ratzinger) . RATZINGER, Joseph; D`ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? Trad.: Sandra Martha Dolinsky. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009, pg.34.


[2] Conferir, também,  no mesmo livro: “São Paulo esta convencido de que a fé cristã apela à razão, mas também esta convencido de que vai além das coisas evidentes para a razão.” (Ratzinger) Pág. 33

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Grandes Ideais e Vida Fraterna

  
“... importa é prosseguir decididamente.” [1](S. Paulo)

“Não vos deixeis enganar: Más companhias corrompem os bons costumes.” [2] (S. Paulo)

“Busca as coisas do alto... afeiçoai-vos às coisas de cima e não às da terra.” [3] (S. Paulo)

“Todos os demais buscam os próprios interesses e não os de Jesus Cristo.” [4] (S. Paulo)

“Tendei à perfeição, animai-vos, que haja um só coração...” [5] (S. Paulo)


Por Saulo Eleazer

O homem necessita de ideais transcendentes. Foi feito para além. As margens lhe causam tédio e desespero. Por isso, voltado para si, como fim último de todas as coisas, sente-se frustrado e infeliz.

Entretanto, Deus nos fez, essencialmente, “relação”. Estar com os demais realiza a natureza de nosso ser. A própria Trindade se dá no “Um” para com os “Outros”. Portanto, fechar-se egoisticamente, privar-se da vida em comum, é caminhar para a infelicidade.

Aqui, uma constatação salutar para todo indivíduo: não só a importância de grandes ideais, como também, a necessidade da vida fraterna para a realização da própria apetência do ser enquanto tal. 

Ora, que ideais serão estes senão os do próprio Cristo? Não somos membros de seu Corpo Místico? De fato, estar em união com Ele[6] significa a mais íntima comunhão de espírito. Afinal, “nós temos o pensamento de Cristo”. [7]

Por isso, uma das grandes armas do Demônio tem sido a divisão. Primeiro, afasta os corações, depois - conseqüência lógica - os corpos. Ele sabe, como afirmara Salomão, que o homem isolado torna-se egoísta e revoltado. [8] Ali, afastado da vida fraterna que lhe era devida sente-se vazio e amargurado, então, faminto, tomará qualquer coisa por comida, pois, neste estado deplorável “tudo o que é amargo lhe parece doce.” [9]

O homem prudente percebe o mal e se põe a salvo; [10] além do mais, aquele que afasta o ouvido para não ouvir a instrução até sua oração torna-se um objeto de horror; [11]portanto, cuidado! Busca identificar teus sonhos aos mesmos ideais de Nosso Senhor, e, para alcançá-los, tenha profunda amizade com os membros de Seu Corpo Místico; sem desprezar, todavia, os demais homens criados por Deus todo poderoso. 

“... ai do homem solitário: se ele cair não há ninguém para levantá-lo. Da mesma forma, se dormem dois juntos, aquecem-se; mas um homem só, como se há de aquecer? Se é possível dominar o homem que está sozinho, dois podem resistir ao agressor, e um cordel triplicado não se rompe facilmente.” [12]

Nobres ideais e profícua vida fraterna! Eis, um grande segredo para a felicidade. Mas, como “nem tudo o que reluz é ouro” cuidado, também, com aqueles a quem te juntas. Nesta “noite” da história do catolicismo “todo gato é pardo”. São Paulo já nos dissera que lobos cruéis seriam encontrados, inclusive, na Igreja de Cristo. “Mesmo dentre vós surgirão homens que hão de proferir doutrinas perversas.” [13]

Muitos são os adversários. [14] Não sejamos ignorantes ao ponto de imaginar que basta estarmos perante um membro da Igreja Católica para ficarmos à salvo contra o engano ou a heresia. Judas, o suicida, e Martinho Lutero (para não citarmos tantos outros, alguns dos quais ainda vivem) também saíram de nosso meio...

Sendo assim, na dúvida, interroga a Tradição; a favor de quem lhe responder na voz do Magistério Vivo, segue sem medo, pois, os escravos de Cristo[15], têm na Cátedra de Pedro (assim como, nos Bispos a ela submetidos) a certeza da verdade. [16]


Mãe do Bom Conselho, rogai por nós!



[1] Filipenses 3, 16
[2] I Coríntios 15, 33
[3] Colossenses 3, 1-2
[4] Filipenses 2, 21
[5] II Coríntios 13, 11
[6] Gálatas 3, 28
[7] I Coríntios. 2,16
[8] Provérbios 18, 1.
[9] Provérbios 27, 7
[10] Provérbios 27,12
[11] Provérbios 28, 9
[12] Eclesiastes 4, 9-12
[13] Atos dos Apóstolos 20, 30
[14] I Coríntios 16, 9
[15] I Coríntios 7,22
[16] I Timóteo 3, 14

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Aviso aos leitores

Hoje, dia em que este blog completa três anos de existência, comunico que estou passando a administração a um novo administrador, que dará prosseguimento à labuta pelo Reino de Cristo. Agradeço a todos pela ajuda prestada. Peço aos leitores que continuem nos acompanhando com suas visitas e, principalmente, nos apoiando com suas orações.

Peço também que deem as boas vindas a Renato César, novo editor e administrador.

 

Em Cristo,

 

Paulo Oliveira.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Rádio Católica 24 horas no ar

 

 

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Dois Amores Duas Cidades (.pdf) - Gustavo Corção

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