sábado, 6 de março de 2010

Algo sobre a Sociedade Secreta Rosacruz (A.M.O.R.C)

 

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Por Prof. Pedro Maria da Cruz
 
Futuramente alguns apostatarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas diabólicas.” (I Tim.4,1)
“Se alguém vos anunciar um evangelho diferente daquele que recebestes, seja ele excomungado.” (Gál.1,9)
“Há um só Deus, assim como um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo.” (I Tim.2,5)
 
Os textos que se seguem são parte dos “discursos confidenciais” da auto-intitulada Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (A.M.O.R.C). Os mesmos seriam de autoria do chamado Mestre Amatu, que os teria redigido exclusivamente para membros mais adiantados. Segundo a A.M.O.R.C, Amatu ocupa elevada posição no mundo esotérico; porém, se restringe a fazer pouquíssimos comentários sobre este autor por não possuir as devidas permissões. No livreto “Número Dois” dos Discursos Confidenciais (coleção por nós utilizada) chega a afirmar que “... alguns membros já o sentiram algumas vezes...”[1], mas que, de qualquer modo, ainda assim, não devem solicitar novos dados, limitando-se a conhecê-lo em sua expressão esotérica.
Dizendo-se herdeiros de segredos antigos, os “Rosacruz” pretendem contribuir para a evolução do ser humano. Afirmando basear-se em genuínos textos arcaicos, muitas vezes, segundo eles, frutos de um contato direto com hostes invisíveis de mestres superiores, apresentam-se como um movimento humanitário que contribui para a maior felicidade, paz e saúde na vida terrena de toda a humanidade.[2]
Percebamos a paradoxal visão Rosacruz com referência aos judeus. Ao mesmo tempo em que pretendem-se, de alguma forma, herdeiros da tradição hebraica, concomitantemente, esforçam-se por distinguir “hebreus” de “judeus”, como se o fato de identifica-los fosse uma desvantagem. Estranho este amor velado por uma suposta tradição oculta do judaísmo, onde, segundo os mesmos Rosacruz, os hebreus continuariam a se reencarnar[3]...
Queremos chamar a atenção do leitor, inclusive, à coincidência entre o pensamento Rosacruz e a sempre indiscreta especulação gnóstica. Verão presente nos textos um caldeirão de teorias delirantes, “sem pé nem cabeça”, afirmando gratuitamente os maiores absurdos históricos e filosóficos: politeísmo; evolução entre os deuses; Cristo, Moisés, Buda e cia como membros da Ordem Rosacruz etc., etc., etc.
Quem, mesmo após rápida leitura, não verá aqui traços da moderna Nova Era? De fato, a relação ideológica entre as várias sociedades secretas se objetiva na New Age. Mestres invisíveis, textos ocultos, gurus, sociedades perdidas, iniciações secretas... tudo isso sempre causou certo frenesi entre os mais impressionáveis. Druidas, Cientologistas, Maniqueus, Alauítas, Cabalistas, Wicca, Cátaros, Macumbeiros, enfim, todas as exóticas manifestações da ignorância humana trazem em comum promessas fantásticas que enfeitiçam a mente do indivíduo afastando-o da realidade.
Bom, vamos aos textos lançados pela A .M .O .R .C. O leitor verá que não exageramos em nossas colocações:
Sabedoria
dos
Mestres
Os Antigos Mistérios
Pelo Mestre Amatu
“Os hebreus não são judeus. São tão distintos dos judeus como muitas outras raças. Não provieram da mesma origem étnica. Não se empenharam na mesma evolução. É verdade que ocuparam a mesma região, no derradeiro período de sua vida. Todavia, não mais existem como raça, mas, de vez em quando aparecem como reencarnações na raça judaica.
Os ‘Profetas’ eram hebreus, mas não em todos os casos. Os hebreus eram descendentes dos atlantes, embora não muito proximamente. Sua terra de origem se encontra agora sob as águas do oceano (não é mais vista nem conhecida).
A raça hebraica é muito antiga, em séculos de vida; tão antiga que não é conhecida dos historiadores e é confundida com a raça posterior conhecida como judaica.
A raça judaica é uma mistura de muitas raças, semíticas e outras. A hebréia é uma mistura de apenas algumas raças, todas de natureza muito elevada. Essas raças são a Amarela, a Branca e a Negra, mas não a Amarela dos nossos dias, nem a Negra atual , nem a Branca atual. Elas continham a raça Azul, hoje desconhecida dos historiadores que tentam descrever a história das raças.
Durante a época de Cristo, os hebreus ainda existiam, mas em número cada vez menor (e, mesmo nessa época, eram confundidos, na mente de muitos, com a raça judaica). Os hebreus tentaram revelar sua religião aos que a eles se seguiram, porém, ela foi indiferentemente recebida por aqueles que se denominavam hebraicos mas não conseguiam viver segundo o padrão dos hebreus. O Sumo Sacerdote da época era judeu e, não, hebreu. Os hebreus apoiavam o Cristo em tudo o que Ele dizia e fazia.
O Cristo ensinou a fé hebraica, que era, essencialmente, a fé dos mistérios. Algumas das personalidades do Velho Testamento, como são apresentadas na Bíblia, eram hebraicas, mas nem todas.
Os hebreus tinham maior porte dos que os judeus. E tinham grande força de caráter (manifestavam pureza de ação e personalidade, e eram intrépidos); eram justos em todas as coisas, e viviam e trabalhavam ao máximo da grandeza moral e intelectual, no que eram verdadeiros titãs, em muitos aspectos. Seu declínio foi lento, durou muitos séculos. Quando cativos na babilônia, haviam começado a declinar em número e inteligência. A maioria não era então composta de hebreus, mas de judeus. Entre os que eram hebreus, havia aqueles a quem os babilônios dedicavam a máxima consideração. Esses não eram cativos, e sim, hóspedes da terra do sol. Tinham permissão para ir e vir como lhes aprouvesse, e difundiram-se por muitas regiões. Os judeus eram mantidos cativos como raça inferior, e eram antipatizados por muitos e por ninguém respeitados. Os hebreus nunca foram escravos (nunca foram mantidos em servidão); sempre foram respeitados como homens de cultura científica (eram terapeutas altamente eficientes e praticavam muitas outras ciências, pelas quais eram também respeitados). Quando sua história começou a ser registrada, como hoje a conhecemos, eles estavam em declínio, numericamente, e os judeus estavam se destacando fortemente.
Os judeus pararam de decair. Sua dispersão foi um incentivo para eles, pois, pelos contatos que fizeram e pela perseguição que sofreram, foram elevados na escala evolutiva.
Com esta introdução, passamos agora aos ensinamentos dos hebreus (mas não dos judeus, já que os ensinamentos destes últimos estão suficientemente bem apresentados em livros já impressos).
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Os Mistérios Hebraicos

No Princípio, havia um Deus, que era Um mas continha muitos Deuses, e estes eram parte do ABSOLUTO.
Eu vejo abaixo, disse o ABSOLUTO, e eles precisam de assistência. Vai tu a eles, ó EU, e os traz a MIM, através dos muitos procedimentos necessários à redenção, pois, em MIM são eles.
Os Deuses separaram-se do EU e desceram. Desceram verticalmente e se ramificaram para ambos os lados, assim formando as costelas do que mais tarde veio a ser a origem das raças de muitas espécies; Algumas permaneceram eretas; outras, não.
Posteriormente, disseram os Deuses: ‘Não poderemos cumprir a nossa missão, a menos que haja reprodução’. Assim, foi o sexo instituído.
Disse o Sexo que não podemos agir sem uma força propulsora e, assim, a Mente foi instituída, como parte do ser através do qual deveriam atuar as forças. O veículo de atuação da Mente é denominado cérebro; mas, logo foi percebido que, para a Mente atuar com eficiência, seriam necessários subsidiários, que alguns hoje chamam de ‘gânglios nervosos’. E, para manter tais centros em comunicação, era preciso haver transmissão, e os nervos foram criados; e, para fins de proteção e eficiência, outros elementos de estrutura foram instituídos; temos assim, numa pequena escala, a composição de muitas espécies. Algumas são chamadas de seres humanos e, outras, por muitos outros nomes.
Tendo agora a Mente um veículo de atuação, disse: ‘Não consigo praticar atos necessários à realização’. Portanto, acima foi criada a Alma, para permitir à Mente comunicar-se com o Altíssimo; para que isso fosse bem feito e permanente, porém, tornou-se necessário criar algo mais, de modo que a MORTE foi instituída. Pois, a matéria carece de algo a que aspirar. Por isto a MORTE para ela criou, ou havia criado, o Céu e o Inferno; o Inferno, porém, não surgiu até que a humanidade decaiu ainda mais.
A Morte aponta a distância e o tempo entre a Morte e o Céu, e, depois, o Inferno. Disse a Morte: ‘Assim como eu abaixo mato, assim faço nascer acima’. Portanto, a Vida e a Morte permanecem UNAS; não se separam, como foi necessário na instituição do sexo.
Disse a Mente: ‘Não sou capaz de realizar, porque represento uma fase em descensão, e não em adiantamento’. Então, à Alma coube a oportunidade e o dever de extrair da Mente o melhor e mais digno de adiantamento. Agora, a Mente rege o descendente, e, a Alma, o ascendente.
Assim ficam os amados irmãos conhecendo a origem de muitas espécies, e passamos a apresentar o sistema com que devemos agir.”[4]
(Aqui termina o texto lançado pela A.M.O.R.C com a promessa de ser continuado em outro livreto confidencial para o Nono Grau)
* * *
O que se segue é do “Número Dois” dos Livretos “Sabedoria dos Mestres[5] para o Nono Grau que contém parte dos ensinamentos do chamado Mestre Amatu.
“A origem dos Rosacruzes remonta a uma antiguidade que poucos conhecem, exceto aqueles que detêm os segredos da Vida e da Morte. Seus ensinamentos eram transmitidos à humanidade muito antes da formação das raças hoje conhecidas.”
“O ‘Templo da Concórdia’, construído para Iniciação Superior, perdurou por vários séculos, e a seus Santuários compareceu aquele que era conhecido como o poderoso governante a que já nos referimos (Faraó Amenemhet Terceiro)[6]. Numa época posterior, também ali esteve Cristo. Também Ele recebeu e, depois, deu daquilo que ali recebeu, pois, conforme aprendeu, assim ensinou. Também Ele foi Rosacruz, assim como o Buda, que o antecedeu. Assim, mencionamos apenas destacadas personalidades históricas, e, neste particular, é às vezes conveniente sermos cautelosos com as palavras.”
* * *
Igualmente o que se segue é parte do Discurso Confidencial (Nono Grau) agora, “Número Cinco”, dos livretos “Sabedoria dos Mestres[7] que contém em parte os ensinamentos de Amatu.
“Os hebreus, vendo que as raças estavam declinando, a elas enviaram esta mensagem: ‘A vós damos líderes que vos guiarão, mas, se os executardes, tereis de passar à Escravidão, e, então, nós vos enviaremos Redentores, de muitos modos’.
O Cristo foi a aspiração hebraica ao aprimoramento dos homens inferiores. Essa aspiração tomou a forma corpórea do Cristo, e Ele se deu àqueles para quem os hebreus oravam – O Cristo foi prece do Passado manifesta em forma humana e ações humanas, para redenção desses homens inferiores; mas, como não houve compreensão, eles sacrificaram o Superior ao Inferior, e, assim fazendo, executaram o Eu – uma auto-imolação, inconsciente, do seu Melhor ao seu Pior.”
* * *
Também de Sabedoria dos Mestres (Nono Grau), agora o livreto Confidencial Número Quatro.[8]
“O Corpo físico é apenas uma imagem imatura da mente e, a mente, apenas uma imagem imatura da Alma, que é apenas uma imagem imatura do Supremo.”
Como os Deuses que partiram do ABSOLUTO eram diferentes em suas funções, criaram diferentemente. Assim, temos muitos em um e Um em tudo. A união de Deuses em tudo torna evidente que necessariamente haverá tantas diferenças quantas diferenças existem nos Deuses; e as partes que se combinem serão influenciadas pela evolução dos Deuses, de modo que sejam diferentes num ser em relação a todos os demais; assim temos muitas, extremamente muitas diferenças, não apenas nos muitos, mas, no um da terra.”
Deixemos para outro momento maiores informações sobre esta perniciosa “fraternidade secreta”. O pouco que vimos já nos dá uma idéia dos absurdos que ela pretende como verdade. Supliquemos, pois, a Nossa Senhora que venha em nosso socorro, a fim de que não vivamos como crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Que Nossa Senhora de Guadalupe, libertadora das Américas, seja nosso auxílio e proteção contra os erros e as mentiras da serpente demoníaca. Amém.
* (Os negritos são nossos)


[1] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Dois. Ordem Rosacruz - AMORC.
[2] LEWIS, H. Spencer. Manual Rosacruz. 17º Edição norte americana. Coordenação: Maria A. Moura, F.R.C . 6º Edição brasileira . Biblioteca Rosacruz, Volume especial. Rio de janeiro: Editora Renes. Pg. 43
[3] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Cinco. Ordem Rosacruz - AMORC.
[4] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Três. Ordem Rosacruz - AMORC.
[5] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Dois. Ordem Rosacruz - AMORC.
[6] Nota do Blog
[7] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Cinco. Ordem Rosacruz - AMORC.
[8] Sabedoria dos Mestres. E a Inspiração dos Illuminati. Nono Grau – Discurso Confidencial. Número Quatro. Ordem Rosacruz - AMORC.

























































terça-feira, 2 de março de 2010

Música e sua influência moral (atualizado)




Autor: Prof. Pedro M. da Cruz.

A música é muito mais que uma simples combinação artística dos sons, ela é uma linguagem, e como tal comunica ao homem, além de estados de alma, idéias. Com efeito, a arte musical possui a esplêndida capacidade de entrar em contato direto com a sede de nossas emoções mais íntimas, expressando os mais inefáveis matizes da alma humana, inacessíveis à palavra.
A partir de disposições emocionais como alegria, tristeza, excitação erótica, melancolia ou entusiasmo causado pela música, somos levados, quase que imperceptivelmente, a conceber idéias congêneres, terminando por agirmos em conformidade com os pensamentos dali adquiridos. Como vemos, a música, começando por encontrar licença nas almas, modifica as idéias, moldando uma nova mentalidade que exigirá, gradativamente, uma rede de novos costumes para validá-la.
As leis e os modos de vida de uma sociedade são frutos de uma visão de mundo, senão coletiva, pelo menos de uma classe dominante. Muitos gostariam de legitimar sua forma de vida, criando leis que os auxiliassem mesmo numa prática errônea. Os abortistas, devido à mentalidade que possuem, querem assassinar seus filhos às claras, sem que por isso sejam reprovados legalmente. Os delinqüentes querem acreditar que, na consciência das pessoas de bem, coexista, ao lado da lei positiva que condene suas arbitrariedades, uma espécie de “sub-lei” que leve os cidadãos a compreenderem a conveniência de seus atos condenáveis, devido à sua situação, por exemplo, de pobreza.
Não foram idéias liberais, de livre exame, hedonistas e modernistas, negadoras do teocentrísmo, que geraram leis anti-Cristãs, e uma permissividade moral que não satisfaz o coração do homem? Em grande medida os homens são o que são a partir do que pensam. Pensamentos torpes geram homens péssimos.
Não queremos afirmar que a atual situação de injustiças contra Deus e o ser humano seja o resultado, pura e simplesmente, duma chamada “conspiração musical”, porém, não podemos deixar de ver na música uma espécie de “cavalo de tróia”, portador, quase sempre, de idéias contrárias a Deus e a seu Cristo.
Evidencia-se entre a música e a atualidade - numa relação de mão dupla - um, como que, círculo vicioso insaciável. Vejamos uma questão, por exemplo: existem tantas letras imorais por causa da promiscuidade em que vivem os pecadores, ou será o contrário, muitos vivem no pecado induzidos por letras musicais desprezíveis? Reconheçamos que ambas as alternativas são verdadeiras. De fato, os devassos cantam as impurezas que praticam ou gostariam de praticar; enquanto outros, devido a esta mesmas letras escandalosas, ainda que possuindo certa pureza de alma e unção da graça, são envenenadas gradativamente pelo vômito dos inimigos da virtude. O demônio não tem tanta pressa quanto imaginamos, apesar da grande ira que o atormenta... (Apoc.12,12)
Um jovem começa por ouvir certo tipo de Rock; com o tempo, é compreensível a convivência entre “amigos” que partilhem dos mesmos interesses. Sendo natural que o gostar nos leve à identificação, aquele jovem põe-se a vestir e falar nos moldes daqueles que admira; daí por diante, muitas coisas que lhe pareciam absurdas, agora, apresentam-se a ele compreensíveis, depois aceitáveis, e por fim praticáveis...
Outro rapaz, embebedado com a indecência imunda de certos Funks, Axés... Tem a imaginação invadida por formas obscenas e imagens eróticas delirantes; o que a princípio lhe parecia repulsivo, como indigno dum filho da Igreja Católica, agora, o arrasta veementemente às práticas mais abomináveis. A imaginação, tomada pelo desregramento da imoralidade, desvia-nos da realidade que é o Cristo e sua doutrina revelada, enfeitiça-nos com devaneios interiores, predispôe-nos ao pecado.
No começo, todo entretenimento musical não parece passar de inocente diversão; tem-se a sensação de que aquele fundo musical só embala algumas divagações mentais, ou sirva para criar meramente um ambiente festivo numa “balada”, e nada mais. Entretanto um germe de permissidade e euforia começam por dominar o coração sem discernimento, deixando o indivíduo numa atmosfera de aceitação e desligamento moral; a conivência como o espírito liberal dos que o rodeia, alimentado pelo fascínio das luzes frenéticas, gelo seco e lusco-fusco, seduzem a pessoa em tal intensidade, que as fantasias mais maliciosas terminam por abafar a voz da consciência; então, um clamor tão sofístico quanto satânico, brotando das desordens mais recônditas do coração rebelde, acaba por convencer ao pecado. Bem disse nosso Senhor: “... é do interior do coração que procedem os maus pensamentos, devassidões, adultérios, cobiças, orgulho e insensatez, todos estes vícios procedem de dentro...” (Marcos 7, 21-22)
Aqui, há de se ter muito cuidado! “Guarda, pois teu coração acima de todas as outras coisas, porque é dele que brotam todas as fontes da vida” (Provérbios 4,23). Certos ambientes, quando bombardeados com algumas espécies musicais, são  capazes de, dado o ritmo das músicas, alterarem, além de nossa respiração e pulsação, todo um amaranhado de realidades interiores. Estes ambientes criam um todo enfeitiçado levando o indivíduo a sensações fortes e distanciadoras do uso sóbrio e equilibrado da razão.
Somente um insensato freqüentaria tais lugares nestas condições, julgando-se forte. Muitos são, de fato, os que  não têm propensão para a inteligência e  discernimento, mas que, ainda assim, se gabam de satisfazerem, tão somente, os desejos desregrados do seu coração. (Provérbios 18,2) Nestes lugares, são os jogos de imagens, provocados pelo piscar desconexo de luzes coloridas, os movimentos sensuais dos que dançam ao som de ritmos malfazejos, e a emergência de desejos mesquinhos, que, de repente, nos tornam, como que, uma gota a mais no oceano, perdida na massa indômita dos que buscam a felicidade onde a mesma não se pode encontrar. Portanto, há que se atentar ao perigo ocultado em tais situações. Além do mais, São Paulo já nos advertia quanto ao perigo das más companhias; elas corrompem os bons costumes. Estas evidências, ao lado de tantas outras, que espíritos esclarecidos poderiam apresentar, levam-nos à certeza de tudo quanto afirmamos neste artigo. No mais, que a Virgem Maria ilumine nossas almas. Amém.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Cristão é um Guerreiro

Cruzado

 

Por João S. de Oliveira Júnior  

 

O Cristão é um Guerreiro! Por quê?

Porque a todo tempo está sob uma batalha espiritual contra forças invisíveis do maligno que pairam nos ares.

Porque deve lutar contra as próprias más inclinações, seus vícios, fraquezas, sua concupiscência, sabe do “espinho na carne” que o acompanha. Acaba percebendo que a todo instante tem que vigiar e orar.

Porque seu modo de combate é de joelhos no chão, um coração contrito, sincero e entregue Àquele a quem tudo pode confiar. Trás no coração a espada do Espírito que é a Palavra de Deus.

Porque não fica pacífico diante das injustiças e contrariedades ao seu redor, mas em tudo que faz para modificar essa realidade, em palavras ou atitudes, é com Caridade, sem a qual não agrada seu Mestre e Senhor.

Porque não se conformar com a mentalidade deste mundo rebelde de valores invertidos, mesmo sabendo “dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”, o Cristão não se contenta enquanto os valores do evangelho estiverem fora do cotidiano, batalhará a seu modo oportuno pelo Reino, mesmo sendo sempre um “estrangeiro” enquanto não estiver definitivamente no Céu.

Porque aplica o seu esforço em fazer o melhor que pode nas obrigações temporais, no local, profissão ou ofício a que se designa, contudo, o faz com a vivência das virtudes humanas e teologais, para o próximo e para maior honra e glória de Deus, Uno e Trino.

Porque, mesmo que aplique todas as suas forças, entende que sempre precisará da Graça Divina, esta que pode suprir suas limitações diante da própria miséria reconhecida. O Cristão diante dos desafios não perde a Esperança, a transmite.

Porque no seu “ganha pão”, no adquirir muito ou pouco, material, espiritual ou intelectualmente, não adquire somente para si, mas compartilha. Não deixas de ter a virtude da pobreza, onde reconhece que “és pó e ao pó voltará”, de maneira que, tendo muito ou pouco, tem tudo como se fossem no valor de esterco, no fim das contas, compreende que a maior riqueza é ter Cristo.

Porque o Reino pelo qual ele luta não é uma ideologia política, como as muitas passageiras da história, que nunca vão satisfazer a real necessidade do Homem, este, que não vive somente de pão e sim de toda a palavra que sai da boca de Deus. Luta pelo reino Celeste, pleno, onde anseia um dia estar eternamente na presença do Altíssimo.

Porque é convidado a se levantar diante das quedas como o seu Senhor no caminho do Calvário. O Cristão se humilha, renuncia a si mesmo, abraça a Cruz e segue aquele a quem tem por maior exemplo, Cristo.

Porque perante as bofetadas que leva na vida, oferece a outra face e, ainda que ofendido, perdoa seu próximo até setenta vezes sete se for preciso. Para a dor e sofrimentos a que está sujeito neste mundo, poderá uni-los ao único Sacrifício de Cristo com a conformidade de quem colabora uma gota de água no volume do oceano.

Porque não batalha sozinho, é um soldado que tem Maria Santíssima como intercessora a Cristo, conta com o apoio dos Anjos, o exemplo dos Santos. Tem irmãos na fé, resumindo, faz parte da Igreja de Cristo, Corpo místico deste, o cristão sabe que está na barca onde se encontra o Senhor, fonte dos suprimentos (sacramentos).

Porque ama a sua Fé quando a conhece, conhecendo e amando inevitavelmente a defende, seja por preposições racionais referentes à Revelação e, principalmente, por coerência de vida. Acaba sendo naturalmente um apologeta da Verdade.

O Cristão é um guerreiro pacificador, contudo, esta Paz que busca não é a paz que o mundo conhece, mas aquela que recebe do seu Senhor. Seguindo as orientações do Mestre, poderá dizer no fim da vida: “Combati o bom Combate”!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

''É por tuas palavras que serás justificado ou condenado''

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Elton John (à esquerda)

 

Paulo L. F.

 

"Oh! Quão melhor seria mais vezes ter calado" (Kempis)

 

“Jesus foi para os lados de Cesaréia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens que é o Filho do Homem? ’ Responderam-lhe: ‘Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és Jeremias ou alguns dos profetas’. Disse-lhes Jesus: ‘E vós, quem dizeis que eu sou? ’” (Mat.16,13-15)

Elton John, controvertido cantor Inglês, deu seu parecer sobre o assunto em questão; para ele, Jesus Cristo seria "um gay compassivo e superinteligente, que entendia os problemas humanos". Baseado em que o referido artista fizera tal afirmação? Com qual objetivo? São perguntas que, talvez, nunca nos sejam respondidas... Afinal de contas, é próprio dos sensacionalistas o ato imprudente de atearem fogo sobre a mata e deixar os estragos para que outros tentem resolver.

Elton John, com toda certeza, mostrou-se superignorante em matéria de Cristologia. Em nenhum momento dos Evangelhos Nosso Senhor demonstrou qualquer simpatia para com praticas homossexuais; muito ao contrário, fala-nos do casamento tradicional, apresentando-o como a via natural instituída para a felicidade dos homens.

Em certo momento de sua pregação explicava-nos o Salvador: “Não lestes que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: ‘Por isso deixará o homem pai e mãe e unir-se-á com sua mulher e formarão os dois uma só carne? ’” (Mat.19,4-5)É claríssima aqui a visão de Cristo sobre o tipo de relação que deve existir na sociedade humana, sempre baseada na lei natural. Portanto, mais uma vez nos indagamos: O que teria levado Elton John à sua afirmação tão voluntarista? Esta teoria estapafúrdia não se encaixa de modo algum na vida sublime do Redentor.

Elton-John É muito comum vermos ao nosso redor pessoas buscando desesperadamente validar suas ações errôneas com sofismas e incongruências. Talvez Elton John se encaixe neste grupo. Alguns, preferem basear-se em mentiras, a fim de amenizar os incômodos da consciência, a reconhecer, com humildade e heroísmo, as contradições da vida pessoal. Pensam que, entre a conversão e a dor de uma existência infeliz, se bem que iludida pela fugacidade do prazer, o melhor seja a segunda opção. É certo que experimentam intensa frustração, porém, mesmo o bem-estar por ver-se vitorioso ao tentar encobrir sua amarga tristeza interior, é combustível para progredir num infeliz caminho de incoerências...

Virgem santíssima, rogai por nós!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Desobedecer, se necessário for!

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Theotokos (Mãe de Deus) de Vladimir
 
Prof. Pedro M. da Cruz.
 
Muitas vezes temos que desagradar aos homens para obedecer a Deus. Em situações banais, se assim podemos dizer, isso se dá de modo mais tranqüilo. De fato, quem não se afastaria dos companheiros, por exemplo, quando esses decidissem, democraticamente, que todos deveriam ver filmes pornográficos? Ou mesmo, quem não se colocaria abertamente contra o aborto numa roda de conversa, por ser esta questão evidentemente contrária à doutrina cristã? É óbvio que me refiro aqui a católicos verdadeiros, e não aos hipócritas que usam da religião como uma máscara, imaginando poder zombar de Deus. Esses, falam uma coisa e vivem outra; vão à Santa Missa por mera desculpa; não escutam uma única frase do sacerdote, e ainda se entretém em olhar freneticamente ao redor de si - até mesmo na sagrada fila da Comunhão - invejando os calçados e as roupas alheias, procurando maliciosamente sorrizinhos soltos... nem preciso me estender demais nesta questão, pois, os leitores estão fartos de ver estes tipinhos envergonhando a Igreja de Cristo.
Porém, a situação torna-se mais complicada quando somos obrigados a desobedecer a alguém que amamos com particular afeto; quando somos obrigados, pela consciência, a desobedecer aos pais, ao padre, ao Bispo... Ah, como dói no coração esta possibilidade. No entanto, uma vez que é o amor a Deus que o exige, deve-se estar pronto para tudo, até mesmo a desobedecer; e com alegria! Sim, porque a Deus deve-se amar sobre todas as coisas!
Disseram os santos apóstolos aos judeus que os haviam aprisionado: “Julgai vós mesmos se é justo diante do Senhor abedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar ...[1]. Realmente, se a justiça é a virtude de dar a cada um a parte que lhe cabe, jamais poderemos furtar-nos de entregar a Deus um coração submisso e filial, uma vida correta e santa. Esta é a parte que lhe é devida! Assim, amando a Deus de todo o coração, com toda alma e com todo o entendimento, cumpriremos com a Justiça.
O cânon 753 do Código de Direito Canônico, nos afirma que os Bispos - quer individualmente, quer reunidos nas Conferências ou em concílios particulares - embora não gozem de infalibilidade no ensinamento, são autênticos doutores e mestres dos fiéis a eles confiados, desde que se achem em comunhão com o Sumo Pontífice e os membros do Colégio episcopal. Neste caso, os cristãos estão obrigados a aderir, com religioso obséquio de espírito, a esse autêntico magistério de seus Bispos.
Mas, e quando um Bispo não estiver em comunhão com o Santo Padre, o Papa? E quando ele agir de forma contrária aos ensinamentos católicos? Estaremos obrigados a obedecer aos conselhos errôneos daquele que ensina a mentira e a engano? Claro que não! De igual maneira, um padre que pretendesse colocar-se acima do Magistério da Igreja, ensinando doutrinas condenáveis, não poderia jamais ser obedecido ao proclamar suas heresias.[2] Brademos, pois, com radicalidade: obediência pronta ao autêntico magistério de nossos pastores, e desobediência heróica a todos aqueles que ousarem se revoltar contra a Igreja! De fato, mesmo sendo oficial o ensinamento ordinário de cada Bispo, ele, no entanto, não é infalível. É possível que, um ou outro, venha a cair em erro, o que nos comprova a própria história do cristianismo.
Em circunstâncias tão dolorosas, o primeiro dever do fiel consiste em manter todo o respeito à pessoa sagrada do Pastor que lhe foi dado pela Providência, e acatar-lhe filialmente as ordens, em tudo quanto não obste à fidelidade direta e mais alta que se deve ao Vigário de Cristo.[3]
Exemplo de santa intolerância e radicalidade perante o erro, nos é narrado por Dom Mayer numa de suas Cartas Pastorais. Citando o caso de Nestório, um dos grandes heresiarcas da história, fala-nos que, no natal de 428 d.C, ano de sua eleição ao trono episcopal, aproveitando a grande multidão que se aglomerava na Basílica Catedral, ele – Nestório – anunciara terrível blasfêmia contra Nossa Senhora: “Maria – dizia ele em sua pregação - não deu a luz a Deus; seu filho não era senão um homem, instrumento da divindade”. Grande frêmito de horror percorreu os ouvintes, e um leigo, vejam bem, um leigo, Eusébio, levantando-se do meio da multidão protestou vivamente contra a impiedade do senhor Bispo. Sabemos que toda a História se alegra, até hoje, com a atitude heróica deste homem que soube defender a doutrina cristã. Que este exemplo de amor à verdade possa fecundar em nossa alma intenso ardor pela ortodoxia.
Finalmente, peçamos a Nossa Senhora a graça duma virtude heróica ao cumprirmos nosso dever apologético. Reconheçamos que, no tesouro da Revelação, há pontos essenciais cujo conhecimento necessário e guarda vigilante todo cristão deve possuir, em virtude de seu título de cristão, independente de pertencer ou não à hierarquia da Igreja. Os verdadeiros fiéis são aqueles que extraem de seu Batismo, nas circunstâncias mais urgentes, a força necessária na luta contra a falsidade e a mentira.

[1] Atos dos Apóstolos 4, 19-20
[2] Chama-se heresia a negação pertinaz após o Batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela.
[3] MAYER, D. Antônio de Castro. Por um cristianismo autêntico. Editora Vera Cruz, 1971. Pg. 115.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Sermão de Santo Antônio - Quarta Feira de Cinzas

Quarta-feira de Cinzas início do jejum

          1. Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: “Quando jejuardes, não fiqueis tristes como os hipócritas que desfiguram o rosto para se fazer ver pelos homens que estão jejuando. Em verdade, eu vos digo: eles já receberam a sua recompensa. Tu, ao contrário, quando jejuares, urge a cabeça, lava o rosto para que os homens não vejam que estás jejuando, mas o teu Pai que está no secreto” (Mt 6,16-18).Neste trecho evangélico vamos tratar de dois assuntos: o jejum e a esmola.

I. O jejum

          2. “Quando jejuais”. Nesta primeira parte devem-se considerar quatro coisas: • o fingimento dos hipócritas; • a unção da cabeça; • o lavar o rosto; • a ocultação do bem. “Quando jejuais”. Lê-se na História Natural que com a saliva do homem em jejum resiste-se aos animais portadores de veneno; aliás, se uma cobra o ingere, morre (Plínio). Portanto, no homem em jejum existe verdadeiramente um grande remédio. Adão no paraíso terrestre, até que não comeu (jejum) do fruto proibido, permaneceu na inocência. Eis aí o remédio que mata a diabólica serpente e restitui o paraíso, perdido por culpa da gula. Por isso conta-se que Ester castigou seu corpo com jejuns para fazer cair o orgulhoso Aman e reconquistar aos judeus a benevolência do rei Assuero. Jejuai, portanto, se quiserdes conseguir estas duas coisas: a vitória sobre o diabo e a restituição da graça perdida. Mas “quando jejuais, não fiqueis tristes como os hipócritas”, isto é, não queirais ostentar o vosso jejum com a tristeza do rosto. Hipócrita diz-se também “dourado”, isto é, que tem a aparência do ouro mas, internamente, na consciência é barro. Este é o ídolo dos babilônios (Baal), de quem diz Daniel: “Não te enganes, ó rei, este ídolo, de fora é de bronze; dentro, porém, é só barro” (14,6). O bronze ressoa e pelo aspecto pode quase parecer ouro. Assim também o hipócrita ama o som do louvor e ostenta um pouquinho de santidade. O hipócrita é humilde no rosto, simples no vestir, submisso na voz, mas lobo em sua mente. Esta tristeza não é segundo Deus. É uma maneira estranha de buscar para si mesmo o louvor, essa de ostentar os sinais da tristeza. Os homens estão acostumados a alegrar-se quando ganham dinheiro. Mas trata-se de negócios diferentes: nestes últimos existe a vaidade, nos outros a falsidade. “Desfiguram-se (em latim exterminant) o rosto”, isto é, desfiguram-no para além dos limites da condição humana. Como se pode orgulhar da beleza das vestes, pode-se também fazê-lo da sua feiúra e falta de cor. Não se deve abandonar nem a uma sem cor exagerada e nem a uma excessiva vaidade: é bom estar na justa medida! “A fim de serem vistos pelos homens...” Qualquer coisa que fazem é apenas, aparência, pintado de um falso colorido. Fazem-no para aparecerem diferentes dos outros e serem chamados “super-homens”, até mesmo por causa da aviltação. “...jejuam”. O hipócrita jejua para receber louvor disso, o avarento para encher o bolso, o justo para agradar a Deus. “Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa”. Eis a recompensa do prostíbulo, de que diz Moisés: “Não prostituas tua filha” (Lv 19,29). Filha representa as obras deles: colocam-nas no prostíbulo do mundo para receberem a recompensa do louvor. Seria loucura de quem vendesse como uma moeda de chumbo uma preciosa moeda de ouro. Na realidade vende por um preço muito barato algo de grande valor, aquele que faz o bem só para ser louvado pelos homens.

          3. “Tu, ao contrário, quando jejuas, unge a cabeça, lava o rosto”. Isto concorda com o que diz Zacarias. “Isto diz o Senhor dos exércitos: O jejum do quarto mês, do quinto, do sétimo e do décimo mês serão para a casa de Judá dias de alegria e felicidade, dias de grande festa” (Zc 8,11). A “casa de Judá” significa “que manifesta” ou “que louva” e representa os penitentes que manifestando e confessando seus pecados prestam louvor a Deus. Destes é e deve ser o jejum do quarto mês, porque jejuam (abstêm-se, de quatro coisas: soberba do diabo, impureza da alma, glória do mundo e injúria ao próximo. “Este é o jejum que eu amo”, diz o Senhor (Is 58,6). O jejum do quinto mês consiste em afastar os cinco sentidos dos pensamentos e prazeres ilícitos. O jejum do sétimo mês é a representação da cobiça terrena; com efeito como se lê que o sétimo dia não tem fim, assim também nem a cobiça do dinheiro chega ao fundo o suficiente. O jejum do décimo mês consiste em deixar de perseguir um fim mau. O final de cada número é o dez: quem quiser contar além tem que começar de novo do um. O Senhor se lamenta pela boca do profeta Malaquias: “Vós me roubais e ainda me dizeis: Em que coisa nós te roubamos? No dízimo e nas primícias (3,8), isto é, na finalidade má e no início de uma intenção perversa. Preste-se atenção, que o profeta coloca o dízimo antes das primícias, porque é sobretudo pela finalidade perversa que é condenada toda a obra precedente. Este jejum transforma-se para os penitentes em alegria da mente felicidade de amor divino e em esplêndida solenidade de celeste convivência. Isto quer dizer ungir a cabeça e lavar o rosto. Unge a cabeça aquele que em seu interior está cheio de alegria espiritual. Lava o rosto aquele que orna as suas obras com a honestidade da vida.

          4. O outro sentido. “Tu, ao contrário, quando jejuas...”. São muitos os que nesta Quaresma, jejuam e no entanto continuam em seus pecados. Estes não ungem a cabeça. Há um triplo unguento: o lenitivo (sedativo), o corrosivo e o “pungitivo”. O primeiro é produzido pelo pensamento da morte, o segundo pelo pensamento da presença do futuro Juiz e o terceiro pelo pensamento da geena. Há a cabeça coberta de furúnculo, verrugas e bentiligo. O furúnculo é uma pequena protuberância superficial cheia de podridão (pus); verruga é uma excrescência de carne supérflua, pelo que verruguento pode significar também “supérfluo”; o bentiligo é uma casca seca que deturpa a beleza. Nestas três doenças estão indicadas a soberba, a avareza e a luxúria obstinada. Tu, ó soberbo, recoloca diante dos olhos da tua mente a corrupção do teu corpo, a podridão e o fedor que terá. Onde estará, então, aquela tua soberba do coração, aquela tua ostentação de riquezas? Aí, então, não existirão mais as palavras cheias de vento, porque a bexiga murcha ao mínimo toque do alfinete. Estas verdades, meditadas no íntimo de cada um, ungem a cabeça feridenta, isto é, humilham a mente orgulhosa. Tu, ó avarento, lembra-te do último exame, onde haverá o Juiz justo, estará a carnífice pronto a atormentar, os demônios que acusam, a consciência que remorde. “Então a tua prata será jogada fora, o ouro se tornará sujeira, o teu ouro e a tua porta não poderão livrar-te do dia da ira do Senhor (Ez 7,19). Estas verdades, meditadas com atenção, destróem e tiram as verrugas do supérfluo e os dividem entre aqueles que nem o necessário têm. Por isso, quando jejuas, unge tua cabeça com este unguento, para que o que tiras de ti mesmo seja dado ao pobre. E tu, ó luxurioso, começa a pensar na geena do fogo inextinguível, onde haverá morte sem morrer, fim sem terminar, onde se procura mas não se encontra a morte, onde os condenados engolirão a língua e amaldiçoarão o Criador. Lenha daquele fogo serão as almas dos pecadores e o sopro da ira de Deus as incendiará. Diz Isaías: “Desde ontem”, isto é, desde toda a eternidade, “está preparado o Tofet”, a geena do fogo, “profundo e vasto. Fogo e muita lenha são seu alimento; o sopro do Senhor o acenderá como torrente de enxofre” (Is 30,33). Eis o unguento que punge, que penetra, capaz de sarar a mais obstinada luxúria. Como prego tira prego, assim estas verdades, meditadas assiduamente, são em grau de reprimir o estímulo da luxúria. Tu, portanto, quando jejuas, unge a cabeça com este unguento.

          5. “Lava o rosto”. As mulheres, quando querem sair em público, ficam na frente do espelho e se descobrirem alguma mancha no rosto, logo se limpam com água. Assim também tu, olha no espelho da tua consciência. E se encontrares alguma mancha de pecado, vai imediatamente à fonte da confissão e, quando na confissão se lava com lágrimas o rosto do corpo, também o rosto rosto da alma fica limpo e iluminado. Uma observação: as lágrimas são luminosas na escuridão, são quentes contra o frio, são salgadas contra o fedor do pecado. “Para que os homens não vejam que estás jejuando”. Faz jejum para os homens quem busca os aplausos deles. Faz jejum para Deus quem sofre por seu amor e partilha com os outros aquilo que tira de si mesmo. “Mas só o teu Pai que está no secreto”. Acrescente-se: o Pai está no secreto por causa da fé e recompensa aquilo que é feito em secreto. Portanto, deve-se jejuar somente lá onde ele vê. E é preciso que quem jejua, jejue de tal modo que agrade àquele que carrega no coração. Amém.

II. A esmola

          6. “Não acumuleis para vós tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões assaltam e roubam” (Mt 6,19). A ferrugem corrói os metais, a traça corrói as roupas; o que se salva destes dois flagelos, os ladrões roubam. Com estas três expressões é condenada toda forma de avareza. Vejamos o significado moral das cinco palavras: terra, tesouros, ferrugem, traça e ladrões. A terra, assim chamada porque se seca (em latim “torret”) pela seca natural, representa a carne que é de tal modo sedenta que nunca diz: chega! Tesouros são os preciosos sentidos do corpo. A ferrugem, doença do ferro, assim chamada do verbo latim “eródere”, indica a impureza que, enquanto parece agradar, acaba com a beleza da alma e a corrói. A traça, assim chamada porque “segura”, indica o orgulho ou então a ira. Os ladrões (em latim “fures”, de furrus = obscuro), que trabalham na escuridão da noite, representam os demônios. Portanto, se carregamos alguma coisa na carne, escondemos os tesouros na terra, quer dizer: enquanto usamos os preciosos sentidos do corpo nos desejos terrenos ou da carne, a ferrugem; isto é, a impureza, os corrói. Além disso, o orgulho, a ira e demais vícios destróem a roupa dos bons costumes e, se sobrar ainda alguma coisa, os demônios a roubam, pois estão sempre interessados justamente nisso: roubar os bens espirituais. “Acumulai-vos de tesouros no céu”. Imenso tesouro é a esmola! Diz S. Lourenço: “As mãos dos pobres é que colocaram nos tesouros celestes as riquezas da Igreja!” Acumula tesouros no céu quem dá a Cristo e dá a Cristo quem dá ao pobre: Aquilo que fizestes a um destes mais pequeninos, o fizestes a mim! (Mt 25,40). “Esmola” é uma palavra grega que em latim se diz “misericórdia”. Por sua vez misericórdia significa “que irriga o mísero coração”. O homem irriga o pomar para colher os frutos. Tu, também, irriga o coração do pobre miserável através da esmola que é chamada água de Deus para obter seus frutos na vida eterna. Seja o pobre o teu céu! Coloca nele o teu tesouro, para que nele esteja sempre o teu coração. E isso, sobretudo agora, durante a santa Quaresma. Onde está o coração, aí também está o olho; e onde estão o coração e o olho, alí também está a inteligência, sobre a qual diz o salmo: “Feliz aquele que atende (“intelligit” = tem cuidado) ao mísero e ao pobre” (40,2). Daniel disse a Nabucodonosor: “Seja-te aceito, ó rei, o meu conselho: desconta teus pecados com a esmola, desconta tuas maldades com obras de misericórdia para com os pobres” (Dn 4,24). Muitos são os pecados, muitas são as maldades e por isso, muitas devem ser as esmolas e muitas as obras de misericórdia para com os pobres. Assim resgatado por elas da escravidão do pecado, possais voltar livres à pátria celeste. Vo-lo conceda Aquele que é bendito nos séculos. Amém.

          7. Lê-se no Livro dos Juízes que “Gedeão invadiu os acampamentos de Madiã com tochas, trombetas e ânforas” (7,16...) Isaías também diz: “Eis o Dominador, o Senhor dos exércitos quebrará com o terror a broca de barro; os de alta estatura serão cortados e os poderosos serão humilhados. O centro da selva será destruído a ferro e o Líbano cairá com seus altos cedros” (10,33-34). Vejamos o significado moral de Gedeão, tochas, trombeta e ânforas. Gedeão quer dizer “que gira no útero” e indica a pessoa penitente que, antes de se apresentar à confissão, deve girar no útero da sua consciência em que foi concebido e gerado o filho da vida ou da morte. Ela tem que pensar se já se confessou de todos os seus pecados; e se, depois de ter se confessado, recaiu nos mesmos pecados, e quantas vezes; porque neste caso foi muito, mas muito mesmo mais ingrato para com a graça de Deus. Se transcurou a confissão e por quanto tempo permaneceu em pecado sem confessar-se, e se, com pecado mortal, recebeu o corpo do Senhor. Portanto, a pessoa penitente, ouvindo o Senhor que diz “fazei penitência”, deve julgar a si mesma por todos os dias de sua vida, para ver se ela é “Israel”, isto é, alguém que vê a Deus. Todos os anos, durante a Quaresma, deve analisar a própria consciência, que é a casa de Deus e tudo aquilo que nela encontrar de nocivo ou supérfluo deve circuncidar na humildade da contrição; e deve também considerar o tempo passado, procurando com diligência aquilo que cometeu, omitiu e, depois disso, voltar sempre ao pensamento da morte que deve ter diante dos olhos, aliás, morar mesmo neste pensamento.

          8. A pessoa penitente, como atento explorador, feito assim o giro, deve logo acender a lâmpada que arde e ilumina: nela é indicado o coração contrito o qual, pelo fato de arder também ilumina. E eis o que pode fazer a verdadeira contrição. Quando o coração do pecador se acende com a graça do Espírito Santo, ele arde pela dor e ilumina pelo conhecimento de si mesmo; e então, a consciência, cheia de tribulações e remorsos, e a atormentada impureza é destruída porque seja interna que externamente a paz volta a florescer. E o esplendor do luxo deste mundo, a dissolutez carnal são destruidos desde a alma até a carne, porque tudo o que houver de imundo tanto na alma como no corpo, é queimado pelo fogo da contrição. Feliz aquele que queima e ilumina com esta lâmpada! Dela diz Jó: “lâmpada desprezada nos pensamentos dos ricos, preparada para o tempo estabelecido” (12,5). Os pensamentos dos ricos deste mundo são: guardar as coisas adquiridas e suar para adquirir mais ainda. Por isso, raramente ou nunca se encontra neles a verdadeira contrição. Eles desprezam-na porque fixam sua alma nas coisas passageiras. Com efeito, enquanto procuram com tanto ardor o prazer das coisas materiais, esquecem-se da vida da alma que é a contrição e assim caminham ao encontro da morte. Diz a História Natural que a caça dos cervos se faz assim: dois homens saem, um deles toca a trombeta e canta, o cervo segue o canto porque sente uma atração por ele. No entanto, o segundo homem dispara a flecha, atinge-o e o mata. Assim também acontece com a caça dos ricos. Os dois homens são o mundo e o diabo. O mundo, diante do rico, toca a trombeta e canta porque lhe mostra e promete os prazeres e as riquezas. E enquanto o rico estulto segue-o encantado, já que encontra prazer nessas coisas, é morto pelo diabo, levado à cozinha do inferno para ali ser fervido e assado.

          9. Eis, porém, que chega o tempo da Quaresma, instituído pela Igreja para perdoar os pecados e salvar as almas: na Quaresma prepara-se a graça da contrição que agora está à porta espiritualmente e bate. Se quiseres abrir e acolhê-la ceará contigo e tu com ela. E aí, sim, começarás a tocar a trombeta de maneira maravilhosa. Trombeta é a confissão do pecador contrito. Feita a confissão, deve ser dada a satisfação ou penitência indicada na ruptura da ânfora ou do vaso de barro. É desprezado o barro, o corpo acaba por sofrer; Madiã é interpretada como “do juízo” ou “iniquidade”, isto é, o diabo que, pelo juízo de Deus, já é condenado, é derrotado e a sua iniquidade arrasada. E é isso que diz o profeta Isaías: “Os de estatura alta”, isto é, os demônios “serão cortados” e “os poderosos”, isto é, os homens orgulhosos “serão humilhados” e “o centro da selva”, isto é, a ganância das coisas materiais “será destruída pelo ferro” do temor de Deus; “e o Líbano”, isto é, o esplendor do luxo mundano “com os seus altos cedros”, isto é, as nulidades, os enganos e as aparências, “cairá”. Atenção! A satisfação, a penitência consiste em três coisas: • na oração, naquilo que diz respeito a Deus, • na esmola, no que diz respeito ao próximo, • no jejum, no que diz respeito a si mesmos. E tudo isso para que a carne que, pelo prazer, conduziu ao pecado, pela expiação conduza ao perdão. E isso digne-se conceder-nos Aquele que é bendito nos séculos. Amém.

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(Sermões, vol. III, pg. 139ss) Tradução: frei Geraldo Monteiro, OFM Conv.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Quaresma

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Tentação de Jesus - Gustave Doré

 

124. A Quaresma é tempo que precede e predispõe à celebração da Páscoa. Tempo de escuta da Palavra de Deus e de conversão, de preparação e de memória do batismo, de reconciliação com Deus e com os irmãos, de recorrer com mais freqüência às “armas da penitência cristã”: [29] a oração, o jejum, a esmola (cf. Mt 6, 1-6.16-18).

No âmbito da piedade popular o sentido mistérico da Quaresma não é facilmente percebido e não são colhidos alguns de seus grandes valores e temas, tais como a relação entre o “sacramento dos quarenta dias” e os sacramentos da iniciação cristã, como também o mistério do “êxodo” presente ao longo de todo o itinerário quaresmal. Segundo uma constante da piedade popular, levada a se deter nos mistérios da humanidade de Cristo, na Quaresma os fiéis concentram a sua atenção na Paixão e Morte do Senhor.

125. O início dos quarenta dias de penitência, no Rito romano, é qualificado pelo austero símbolo das Cinzas, que caracteriza a Liturgia da Quarta-feira de Cinzas. Pertencente ao antigo ritual com que os pecadores convertidos se submetiam à penitência canônica, o gesto de se cobrir de cinzas tem o sentido de reconhecer a própria fragilidade e mortalidade, que necessita ser remida pela misericórdia de Deus. Longe de ser um gesto puramente exterior, a Igreja o conservou como símbolo da atitude do coração penitente que cada batizado é chamado a assumir no itinerário quaresmal. Os fiéis, que acorrem numerosos para receber as Cinzas, serão portanto ajudados a perceber o significado interior implicado nesse gesto, que abre à conversão e ao compromisso da renovação pascal.

Apesar da secularização da sociedade contemporânea, o povo cristão percebe claramente que durante a Quaresma é preciso orientar os ânimos para as realidades que verdadeiramente contam; que se exige empenho evangélico e coerência de vida, traduzida em boas obras, em formas de renúncia àquilo que é supérfluo e de luxo, em manifestações de solidariedade com os sofredores e os necessitados.

Os fiéis que freqüentam raramente os sacramentos da penitência e da Eucaristia também sabem, devido à longa tradição eclesial, que o tempo da Quaresma-Páscoa está em relação com o preceito da Igreja de confessar os próprios pecados graves ao menos uma vez por ano e de receber a Sana Comunhão ao menos uma vez ao ano, de preferência durante o tempo pascal. [30]

126. A diferença entre a concepção litúrgica e a visão popular da Quaresma não impede que o tempo dos “Quarenta dias” seja um espaço eficaz para uma fecunda interação entre Liturgia e piedade popular.

Um exemplo dessa interação está no fato de que a piedade popular privilegia alguns dias, algumas práticas de piedade, algumas atividades apostólicas e caritativas que a própria Liturgia prevê e recomenda. A prática do jejum, tão característica dede a antigüidade neste tampo litúrgico, é “prática” que liberta voluntariamente das necessidades da vida terrena para descobrir a necessidade da vida que vem do céu: “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (cf. Dt 8, 3; Mt 4, 4; antífona da comunhão do I Domingo da Quaresma).

Notas:

[29] Missal Romano, Quarta-feira de Cinzas, Coleta.

[30] Cf. CIC, can. 989 e 920.

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Fonte: Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Diretório Sobre a Piedade Popular e Liturgia - Princípios e orientações. Páginas: 112 a 114.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Infelicidade dos pecadores - Deus Pai fala à Santa Catarina de Sena

tristeza

Expliquei qual é a ilusão dos pecadores no seu desordenado temor e como sou um Deus imutável, livre da acepção de pessoas, unicamente atento ao desejo santo. Foi o que te revelei no simbolismo da árvore. Passo a falar dos que sofrem e dos que não sofrem ante os espinhos e dores que a terra produziu depois do pecado (original). Tendo-me ocupado da situação dos pecadores que se deixam iludir pela própria sensualidade, vou explicar-te em que sentido essas pessoas são feridas por tais espinhos.

Todos os que nascem e vivem neste mundo passam por fadigas corporais ou espirituais. Sim, também os meus servidores padecem nos seus corpos; mas em seus espíritos não, porque suas vontades estão identificadas com a minha. O que faz o homem sofrer é a vontade. Quanto aos pecadores, sofrem na alma e no corpo. Eles experimentam no mundo as primícias do Inferno, como os meus servidores já gozam a garantia do céu.

Sabes qual é a grande felicidade dos santos? É possuir a vontade satisfeita em todas as suas aspirações. Ao desejar-me, possuem-me, tendo deixado o peso do corpo que produzia a lei que luta contra o espírito. Na vida terrena, o corpo impedia o perfeito conhecimento da Verdade e minha visão face a face. Separando-se do corpo, a vontade dos bem-aventurados realiza-se: ao desejo de ver-me corresponde a visão, e com ela, a beatitude. Vendo, conhecem-me; conhecendo, amam-me; amando, saboreiam-me; saboreando, realizam-se quanto ao desejo de me ver e conhecer. Desejando, possuem; possuindo, desejam. Como disse (14.4), o sofrimento está distante do desejo e o fastio da saciedade. Como vês, meus servidores são felizes, especialmente na visão celeste. Ela satisfaz seus desejos, sacia suas vontades. Neste sentido afirmei (14.9) que a vida eterna consiste na posse das coisas que a vontade deseja, isto é, conhecer-me, ver-me.

Já a partir desta vida meus servidores gozam da eternidade, ao saborearem a causa de sua felicidade. E qual é tal causa? Respondo: é a certeza da minha presença em suas vidas, é o conhecimento da minha Verdade. Tal conhecimento se realiza na inteligência, que é o olho da alma; pupila de tal olho é a fé. Pela iluminação da fé, eles distinguem, conhecem e seguem a estrada-mensagem do Verbo encarnado. Sem a fé, ninguém reconhece tal estrada, à semelhança daquele que possuísse o olho, mas coberto por um pano. Sem a pupila deste olhar é a fé; nada verá quem cobrir sua inteligência com o pano da infelicidade, por causa do egoísmo. Tal pessoa terá a inteligência, mas não a luz para conhecer.

Portanto, tais pessoas vendo, conhecem; conhecendo, amam; amando, afogam e destroem a vontade própria; tendo-a destruído, revestem-se da minha vontade, a qual deseja unicamente a vossa santificação (1 Ts 4,3). Com isso, deixam o rio do pecado, sobem para a ponte, superam os espinhos (v. 14,8) que já não lhes machucam os pés do amor (v. 12.1). Já se conformaram à minha vontade. Neste sentido, como disse acima (14.9), meus servidores não padecem no espírito, mas somente no corpo. O querer sensível já morreu, ele que é a fonte de sofrimento e dor para o homem. Destruída essa “vontade” sensível, o sofrimento desaparece e meus servidores tudo passam a tolerar com respeito. Consideram como graça as dificuldades que permito, só desejam o que eu desejo. Quando deixo que os demônios os atormentem com tentações para provar suas virtudes, como expliquei antes (14.7), eles as superam com a intervenção da vontade, por mim fortalecida. Humilham-se, consideram-se indignos de sossego e merecedores de castigo. Vivem, pois, na alegria, sem sofrer. Nas perseguições e adversidades provenientes dos homens, na pobreza ou rebaixamento de posição social, na morte de filhos e pessoas amadas - espinhos produzidos pala terra depois do pecado de Adão - meus servidores tudo suportam com discernimento e fé. Confiam em mim, Bondade suprema, certos de que somente quero o bem e para o seu bem tudo permito com amor.

Após fixar o pensamento em mim, eles olham para sim mesmos e reconhecem os próprios defeitos; na fé, sabem que toda virtude será premiada e todo mal punido. Entendem que a menor culpa merece castigo eterno, porque atenta contra minha bondade infinita. Com gratidão, porque aceito de puni-los nesta vida passageira, dão reparação às suas culpas mediante a contrição interior. Obtêm méritos com a perfeita paciência. Tais esforços terão a paga de um prêmio sem medida.

Eles sabem que, devido à transitoriedade do tempo, são de pouca monta os sofrimentos desta vida. O tempo é como a ponta de uma agulha, nada mais. Acabado o tempo, também a dor cessa. Como vês, é passageira a dor. Pacientemente e sem prejuízo interior, esses homens superam os acontecimentos adversos. Seus corações estão livres do amor sensível e unidos a mim na caridade. Realmente, já possuem no mundo a garantia do céu: na água, não se molham, sobre espinhos não se ferem. Tendo-me conhecido, procuram o bem supremo onde de fato ele está, ou seja, no Verbo meu filho.

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Livro: O Diálogo - Santa Catarina de Sena
Paginas: 104 a 106
Impressão e acabamento: Paulus - 9° edição, 2005

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

PND”H” III, um “pacotão anticristão”

Até promovendo a prostituição e o incentivo à pedofilia

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Por João S. de Oliveira Junior

 

Creio que todos já estão cientes dos disparates a que se propõe impor o PNDH III do Governo Federal: aborto, favorecimento a invasões de terras, sobreposição do Poder Executivo sobre o Judiciário , impunidade para guerrilheiros assassinos na luta armada no período ditatorial, imposição do laicismo banindo símbolos religiosos, mordaça a imprensa, casamento de homossexuais, adoção de crianças por estes últimos. Nossa! Não é muito totalitarismo ideológico e anticristão? É sim, mas ainda queria ressaltar outro ponto, pouco notado. Qual? O incentivo à prostituição e consequentemente à pedofilia. O quê? Sim, assustados com isto? Eu também, mas não estou exagerando. Veja o porquê:

Tal programa de direitos desumanos quer impor a “profissionalização da prostituição”, ou seja, a mulheres que, por diversos ou trágicos motivos acabam caindo neste “submundo”, perigoso e desolador, teriam direitos trabalhistas e carteira assinada (uai, então os cafetões, traficantes e bandidos aliciadores vão ser empresários agora ou o Governo será “cafetão” também?).

Mesmo a maioria das moças mais antigas nesta “vida”, dizem que não estão lá simplesmente porque querem, com esta proposta do governo, o que era visto como opção de desespero será, caso se concretize, motivado como normalidade, casualidade, opção certa, legal, mas os riscos e o drama de vender a própria dignidade não mudam. A prostituição infantil, tão visível em nossas cidades é uma das maiores chagas e vergonhas de nossa sociedade moderna, os motivos que levam uma menina de 14, 12, 10, 9 anos a entregar seu corpo precocemente sem ao menos saber o que está fazendo são vários, resumidamente, seriam a miséria, a violência e desestruturação nas próprias famílias os principais. Mas também, sempre existiu uma incrédula negligência das autoridades devido aos lucros do Turismo Sexual (olha o carnaval aí gente!), dizem os especialistas. Agora, poderão contar com este “empurrãozinho” do Governo.

Ironicamente, na apresentação do programa até chega-se a citar a prostituição infantil como um dos focos a ser combatido. Engraçado, os comunistas do PNDH III colocam o que todos já sabem e não citam uma medida concreta e mais objetiva para combater estes males em nossa sociedade, em contrapartida tem a “magnífica idéia” de profissionalizar, oficializar, incentivar a prostituição, como se já não bastassem novelas colocarem o glamour onde não existe, contrariando a realidade.

As conseqüências e traumas às crianças e adolescentes que começam a se venderem cedo são trágicas. Se a pseudo-doutora e ex-terrorista, Dilma Roussef, que ajudou a elaborar o bendito PNDH III pensasse mesmo nas vítimas da prostituição e pedofilia, proporia a erradicação com medidas simples ou mais elaboradas para tirarem aquelas meninas daquela vida ou, ao menos, oferecer condições para optarem por outro caminho. Por que não imaginaram uma punição mais severa e eficaz aos aliciadores? Mas, ao que parece, não se deve esperar honestidade moral de mentes admiradoras do marxismo, este sistema que, dialeticamente, só enxerga o ser humano como uma massa operária (os bois do curral) a ser manipulada para os interesses do “totalitário coletivo” (ainda que este coletivo seja uma minoria ideológica), nunca no interesse do indivíduo na sua naturalidade, liberdade e real dignidade.

Por falar nisto, em breve, contarei sobre o ditatorial homossexualismo, presente nos planos do Governo e tão atual nestes tempos obscuros. Rezemos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ai, ai, ai, essa Pastoral da Sobriedade...

João XXIII fumando
O futuro papa João XXIII fumando seu bom e velho cigarrinho
 
Prof. Pedro M. da Cruz.
 
“A Sobriedade no beber é a saúde da alma e do corpo.”[1]
“O vinho bebido sobriamente é como uma vida para os homens ...”[2]
“Não incites a beber aquele que ama o vinho, pois o vinho já perdeu a muitos.”[3]
 
A poucos dias atrás, tive o prazer de reencontrar um amigo de infância. Após breve momento de conversa amistosa, soube de seus trabalhos na comunidade católica em que residia. Participava há algum tempo duma certa Pastoral da Sobriedade. Até aí tudo bem. O que me chamou a atenção foi a forma pessimista e repressiva com que tratava o uso das bebidas alcoólicas e do cigarro.
Estranhando aquele posicionamento depreciativo numa pessoa que se dizia católica, lembrei-lhe da postura tradicional da Igreja perante aquelas questões. Ele, afirmando não conhecer, por parte da Igreja, aquele “modo de ver as coisas” que eu lhe apresentava, dizia-me que, pelo contrário, o que aprendera na Pastoral da Sobriedade era aquela postura intolerante, tão própria de tantos grupos protestantes. Segundo ele, até aquele momento, seria inaceitável para um cristão, em todos os casos, o uso daqueles produtos. Perguntei-lhe em que materiais de estudos a pastoral em questão se baseava para inferir tais ensinamentos; o que ele não soube me responder. Na verdade nunca haviam consultado documento algum, como mais tarde me confessou com toda sinceridade...
Ora, ora – perguntei-me – como pode chamar-se “da Sobriedade” uma pastoral que repudia o bom uso das bebidas e do cigarro. Não é a sobriedade o mesmo que moderação e temperança? E isso não significa o uso das coisas numa medida certa, sem exageros e descontrole? Bom, deixando para depois outras questões que daqui poderíamos extrair, deixe-me dizer que, na verdade, após algumas pesquisas sobre a Pastoral em questão pude perceber que a mesma anda em conformidade com os ensinamentos da Igreja, pelo menos no papel...
O problema, neste caso, não é a doutrina que os “agentes de pastoral” deveriam seguir, mas sim o fato de os mesmos nem se darem conta, tantas vezes, de que não estão transmitindo o que a Igreja lhes ordena. Não quero aqui afirmar que todos os “agentes de pastoral” sejam deste feitio, porém, me parece que, em não poucos casos, é muito comum nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs - além, claro, das evidentes contradições de princípios (pois, onde uns bebem demais, outros condenam até mesmo o uso moderado de bebidas) um profundo e incompreensível desprezo pelos documentos da Igreja, principalmente aqueles que provém da Santa Sé. Isso parece supor uma espécie de tendência a descentralização e ao subjetivismo, também filhos de certa incompreensão da Colegialidade Episcopal.
Tendo conseguido com alguém certos materiais que alguns agentes “da Sobriedade” deveriam ler por completo antes de catequizar as pessoas, tive uma grata surpresa. Alí, já nas primeiras páginas, o Santo Padre, o Papa João Paulo II, nos afirmava resoluto que “... o uso moderado da bebida não vai contra as proibições morais e só o abuso é condenado...”[4].
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Nosso Santo Padre apreciando uma deliciosa cerveja bávara
 
Será que os coordenadores de meu amigo em seu trabalho pastoral também não haviam estudado este texto? Ou será que, lendo não lhe deram importância? O caso é que, mesmo a pessoa que me emprestou os materiais em questão manifestou a mesma postura “tipo-protestante” – se assim posso dizer - que apresentei no início deste texto. Isso me levou a deduzir, ao lado de outras evidências, que, pelo menos aqui em nossa cidade, a “Pastoral da Sobriedade” não tem feito jus ao seu nome.
Consegui também com os mesmos, outro livro chamado: “Meu pai bebia demais, hoje sou um adulto que sofre.”[5] Ora, é obvio que se meu pai fosse alcoólatra inconsequente ele seria repreensível, necessitaria de tratamento, e também deveria abster-se de álcool, mas, daí a deduzir que ninguém mais poderia saborear uma bebida porque “meu pai era um doente-alcoólatra”, seria o mesmo que abster-se do uso de facas na preparação de alimentos só porque um qualquer utilizou-a indevidamente para o crime. Abusus non tollit usum.[6]
Não defendo aqui a idéia absurda de que as pessoas devam viajar com garrafas de conhaque por não conseguirem enfrentar uma única noite sem bebedeira, ou mesmo que o alcoolismo seja normal, não, pois todos sabemos que esta é uma doença grave que necessita de um tratamento sério e constante. Porém, ao dizermos que um objeto não seja branco, não se pretende, necessariamente, que ele seja preto; afinal, pode ser de qualquer outra cor. Do mesmo modo, ao condenarmos o alcoolismo – como bem faz a Pastoral da Sobriedade, assim como qualquer um que tenha amor à vida - não pretendemos pregar aqui o seu extremo oposto, ou seja, a abstenção total do uso de bebidas. Este é um bem lícito que muitos tem a graça de usufruir, com sabedoria e moderação, para maior glória de Deus.
Sim, filhos adultos de alcoólatras sofrem; os beberrões devem abandonar seu vício; para muitos, um único copo de cerveja já é demais... pois, que estes tenham um modo de vida que favoreça seu estado e situação. Daí a concluir que todo e qualquer ser humano não deva saborear os mesmos bens com as devidas precauções, já é extremismo barato.
Interessante que na página 44 do primeiro livro por nós já citado, numa certa carta da Pastoral da Sobriedade, podemos constatar que ela pretende ser fundamentalmente “...uma ação da Igreja, vivida em comunhão com a Igreja ...”.[7] Esperemos, pois, que este testemunho de submissão aos ensinamentos católicos possa despertar nos “agentes de pastoral” uma linguagem mais sóbria com relação ao uso lícito dos bens criados por Deus, isso sem abandonar o trabalho sério que realizam em defesa das famílias, contra o mal do alcoolismo, da droga[8], e de todos os tipos de vícios que venham destruir o homem e a sociedade.
Finalmente, recordemo-nos de um caso oportuno. Não é verdade que Nosso Senhor comia e bebia, a ponto de dizer que muitos o chamavam de comilão e beberrão? [9]Basta conferirmos nas Sagradas Escrituras! É claro que o Divino Mestre jamais se excedeu na bebida, pois era Deus e possuía toda a sabedoria e sobriedade. E mais: confiava na capacidade que os homens possuem de conviver com estes prazeres, uma vez que seu primeiro milagre fora, exatamente, a transformação da água em uma bebida alcoólica, e – vejam que jocoso – à pedido de Nossa Senhora. E não venham os puritanos nos dizer que naquele vinho não havia álcool! Basta consultar as Escrituras: logo que o chefe dos serventes provou a água tornada em vinho exclamou ao noivo: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora.” [10] Ora, segundo o chefe dos serventes: vinho bom, continha álcool, pois embriagava. E, ainda segundo ele, o noivo guardara o vinho bom até aquele momento (no caso, aquele que fora produzido milagrosamente por Jesus). Sendo assim, conclui-se que ele percebera o teor alcoólico quando provara o vinho milagrosamente trazido por Cristo. Que maravilha! Nosso Senhor fizera surgir litros e litros de bebida alcoólica! Seis talhas de pedra! Afinal, ele mesmo levara consigo muitos outros homens à festa, falo de seus discípulos, que também deveriam ser, como bons católicos que eram, excelentes apreciadores da Deliciosa Arte de Beber, à exemplo de seu Divino Mestre. Imitemo-lhes, portanto, na temperança, e aprendamos a guardar a santa moderação e a pérola da sobriedade.

[1] Eclo.31,37
[2] Eclo.31,32
[3] Eclo. 31,30
[4] MOMM, Nilo. Pastoral da Sobriedade. Pronunciamentos da Igreja. São Paulo: Edições Loyola, 1999. Pg.12.
[5] TRACY, Guilherme; DIAS, Terezinha. Meu pai bebia demais, hoje sou um adulto que sofre. 4 Ed. São Paulo: Santuário, 2006. 48 pgs.
[6] Trad.: O abuso não invalida o uso.
[7] Idem. MOMM, Nilo. Pastoral da Sobriedade... pg..44
[8] O Catecismo da Igreja Católica recorda àqueles que se drogam ou são tentados a fazê-lo, que o uso da Droga, “excluídos os casos de prescrição estritamente terapêutica (médica) constitui culpa grave.” Conf. CIC § 2291.
[9] São Mateus 11,19
[10] São João 2,10