sábado, 25 de outubro de 2008

Santo Afonso de Ligório: Das penas do inferno

Inferno
c.1520, óleo sobre madeira
119 x 217,5 cm
Museu Nacional de Arte Antiga
Lisboa Portugal

CONSIDERAÇÃO XXVI


Das penas do inferno


Et ibunt in supplicium aeternum. E irão estes ao suplício eterno (Mt 25,46).


PONTO I

O pecador comete dois males quando peca: aparta-se de Deus, Sumo Bem, e se entrega às criaturas. “Dois males fez meu povo: abandonaram-me a mim, que sou fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter a água” (Jr 2,13). Em vista de o pecador se ter dado às criaturas com ofensa a Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: esta é a pena do sentido. Como, porém, sua maior culpa, na qual consiste a maldade do pecado, é a separação de Deus, o maior suplício do inferno é a pena do dano ou da privação da visão de Deus, perda irreparável.

Consideremos, em primeiro lugar, a pena do sentido. É de fé que existe inferno. No centro da terra se encontra esse cárcere, destinado ao castigo dos que se revoltaram contra Deus. Que é, pois, o inferno? O lugar de tormentos (Lc 16,28), como o chamou o mau rico; lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado hão de ter o seu castigo próprio, e onde aquele sentido que mais tiver servido para ofender a Deus mais acentuadamente será atormentado (Sb 11,17; Ap 18,7). A vista padecerá o tormento das trevas (Jó 10,21). Digno de profunda compaixão seria um infeliz encerrado em tenebroso e acanhado calabouço, durante quarenta ou cinqüenta anos de sua vida. Pois o inferno é cárcere fechado por completo e escuro, onde nunca penetrará raio de sol nem qualquer outra luz (Sl 48,20). O fogo que aqui na terra ilumina, não será luminoso no inferno.

“Voz do Senhor, que despede chamas de fogo” (Sl 28,7). Explica São Basílio que o Senhor separará do fogo a luz; de modo que estas chamas arderão sem iluminar; o que Santo Alberto Magno exprime mais brevemente nestes termos: “Separará do calor o resplendor”. O fumo sairá dessa fogueira e formará a espessa nuvem tenebrosa que, como diz São Judas, cegará os olhos dos réprobos (Jd 13). Haverá ali apenas a claridade precisa para aumentar os tormentos. Uma sinistra claridade que permite ver a fealdade dos condenados e dos demônios, assim como o aspecto horrendo que estes tomarão para causarem mais horror. O olfato padecerá o seu tormento próprio. Seria insuportável se nos metêssemos num quarto acanhado, onde jazesse um cadáver em putrefação. O condenado deve ficar sempre entre milhões de réprobos, vivos para a pena, mas cadáveres hediondos quanto à pestilência que exalam (Is 34,3). Disse São Boaventura que, se o corpo de um condenado saísse do inferno, bastaria ele só para produzir uma infecção em conseqüência da qual morreriam todos os homens do mundo... E ainda há insensatos que se atrevem-se a dizer: “Se for ao inferno, não irei sozinho...” Infelizes! Quanto maior for o número de réprobos ali, tantos maiores serão os sofrimentos de cada um. “Ali — diz São Tomás — a companhia de outros desgraçados não alivia; antes aumenta a desventura geral”. Muito mais sofrerão, sem dúvida, pela fetidez asquerosa, pelos gritos daquela multidão desesperada, e pelo aperto em que se acharão amontoados e comprimidos os réprobos, à semelhança de ovelhas em tempo de inverno (Sl 48,15), ou como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus (Ap 19,15). E assim mesmo padecerão o tormento da imobilidade (Êx 15,16). Da maneira como o condenado cair no inferno, assim há de permanecer imóvel, sem que lhe seja dado mudar de posição, nem mexer mão nem pé, enquanto Deus for Deus.

O ouvido será atormentado com os contínuos gritos aflitivos daqueles pobres desesperados, e pelo barulho horroroso que, sem cessar, os demônios provocam (Jó 15,21). Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o contínuo gemido de um doente, o choro de uma criança ou o ladrar de um cão... Infelizes réprobos, que são obrigados a ouvir, por toda a eternidade, os gritos pavorosos de todos os condenados!... A gula será castigada com a fome devoradora... (Sl 58,15)

Entretanto, não haverá ali nem uma migalha de pão. O condenado sofrerá sede abrasadora, que não se apagaria com toda a água do mar. Mas não se lhe dará uma só gota. Uma só gota d’água pedia o rico avarento, e não a obteve, nem a obterá jamais.

PONTO II

A pena do sentido que mais atormenta aos réprobos é o fogo do inferno, tormento do tacto (Ecl 7,19). O Senhor o mencionará especialmente no dia do juízo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41). Mesmo neste mundo, o suplício do fogo é o mais terrível de todos. Entretanto, há tamanha diferença entre as chamas da terra e as do inferno, que, segundo afirma Santo Agostinho, em comparação daqueles, as nossas são como fogo pintado; ou como se fossem de gelo, acrescenta São Vicente Ferrer. E a razão consiste em que o fogo terreal foi criado para utilidade nossa, ao passo que o do inferno foi criado expressamente para castigo. “Mui diferentes são — diz Tertuliano — o fogo que se utiliza para uso do homem e o que serve para a justiça de Deus”. A indignação de Deus é que acende essas chamas de vingança (Jr 15,14); e por isso Isaías chama espírito de ardor ao fogo do inferno (Is 6,4). O réprobo estará dentro dessas chamas, envolvido por elas, como um pedaço de lenha numa fornalha. Terá um abismo de fogo debaixo de seus pés, imensas massas de fogo sobre sua cabeça e ao derredor de si. Quando vir, apalpar ou respirar, fogo há de respirar, apalpar e ver. Estará submergido em fogo como o peixe em água. E essas chamas não cercarão apenas o condenado, mas penetrarão nele, em suas próprias entranhas, para atormentá-las. Todo o corpo será pura chama; arderá o coração no peito; as vísceras, no ventre; o cérebro, na cabeça; nas veias, o sangue; a medula, nos ossos. Cada condenado converter-se-á numa fornalha ardente (Sl 20,10). Há pessoas que não suportam o ardor de um solo aquecido pelos raios do sol, que não sofrem estar junto a um braseiro num quarto fechado, que não re-sistem à chama de uma lâmpada, e contudo não te-mem este fogo devorador, como lhe chama Isaías (Is 33,14). Assim como uma fera devora um tenro cordeirinho, assim as chamas do inferno devorarão o condenado. Devorá-lo-ão sem o fazer morrer. “Continua, pois, insensato — diz São Pedro Damião, dirigindo-se ao voluptuoso — continua a satisfazer tua carne, que virá um dia em que tuas impurezas se converterão em ardente pez dentro de tuas entranhas e tornarão mais intensa e mais abrasadora a chama infernal em que hás de arder” . Acrescenta São Jerônimo que aquele fogo trará consigo todos os tormentos e todas as dores que nos atribulam na terra; até o tormento do frio se padecerá ali (Jó 24,19). E tudo com tal intensidade que, segundo disse São João Crisóstomo, os padecimentos deste mundo são pálida sombra em comparação aos do inferno.

As faculdades da alma terão também o seu castigo apropriado. O tormento da memória será a viva recordação do tempo que, em vida, teve o condenado para salvar-se e que empregou em perder-se, e das graças que Deus lhe concedeu e que foram desprezadas. O entendimento sofrerá ao considerar o grande bem que perdeu perdendo a Deus e o céu, ponderando que essa perda é já irreparável. A vontade verá que se lhe nega tudo quanto deseja (Sl 140,10). O desventurado réprobo nunca obterá nada do que quer, e sempre terá aquilo que mais o aborreça, isto é, males sem fim. Quererá livrar-se dos tormentos e desfrutar paz. Mas sempre será atormentado, jamais encontrará momento de repouso.

PONTO III

Todas as penas referidas nada são em comparação com a pena do dano. As trevas, a infecção, o pranto, as chamas não constituem a essência do inferno. O verdadeiro inferno é a pena de ter perdido a Deus! Dizia São Bruno: “Multipliquem-se os tormentos, contanto que não se prive de Deus”. E São João Crisóstomo: “Se disseres mil infernos de fogo, nada dirás comparável à dor daquele”. Santo Agostinho acrescenta que, se os réprobos gozassem da visão de Deus, “não sentiriam tormento algum, e o próprio inferno se converteria em paraíso”.

Para compreender algo desta pena, consideremos: Se alguém perde, por exemplo, uma pedra preciosa que valha cem escudos, sentirá grande mágoa; mas se esta pedra valesse duzentos, muitos mais sentiria.

Portanto: quanto maior é o valor do objeto que se perde, tanto mais se sente a pena que ocasiona a perda... E como os réprobos perdem o bem infinito, que é Deus, sentem — como diz São Tomás — uma pena dalgum modo infinita.

Neste mundo somente os justos temem esta pena, disse Santo Agostinho. Santo Inácio de Loiola exclamava: “Senhor, tudo sofrerei, mas nunca de ficar privado de vós”. Os pecadores não fazem caso desta grande perda, porque vivem largos anos sem Deus, mergulhados em trevas. Na hora da morte, entretanto, reconhecerão a grandeza do bem que perderam. A alma, ao partir deste mundo, — diz Santo Antonino, — reconhece que foi criada por Deus e irresistivelmente deseja unir-se e abraçar-se com o Bem Supremo; achando-se, porém, em estado de pecado, Deus a repele.

Se um galgo acorrentado vê perto de si esquisita presa, esforça-se para romper a cadeia e lançar-se ao seu encalço. A alma ao separar-se do corpo se sente naturalmente atraída para Deus. O pecado, porém, a afasta e arremessa pedras nela (Is 50,2). Todo o inferno, pois, se resume nas primeiras palavras da sentença: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mt 25,4). “Apartai-vos, dirá o Senhor, não quero que torneis a ver-me a face. Mesmo que se imaginassem mil infernos, nada se poderia conceber que eqüivalesse à pena de ser odiado por Cristo”. Quando David impôs a Absalão o castigo de que jamais comparecesse diante dele, Absalão sentiu dor tão profunda, que exclamou: “Dizei a meu pai que, ou me permita ver o seu rosto ou me dê a morte” (2Rs 14,15).

Vendo Filipe II que um nobre de sua corte se achava na igreja com pouco respeito, disse-lhe severamente: “Não consinto que doravante vos apresenteis diante de mim”. E tal foi a consternação e a dor daquele cortesão, que, ao chegar à sua casa, morreu de pesar... Que será, quando Deus despedir o répro-bo para sempre?... “Esconderei dele a minha face... e cairão sobre ele todos os males e aflições” (Dt 31,17). Já não sois meus, nem eu vosso, dirá Cristo aos condenados (Os 1,9) no dia do juízo.

É dor imensa para um filho ou uma esposa pensar que nunca tornará a ver seu pai ou seu esposo, que acaba de morrer... Se, ao ouvir os gemidos da alma de um réprobo, lhe perguntássemos a causa de

tamanha dor, que sentiria ela ao dizer-nos: “Choro, porque perdi a Deus e nunca mais o tornarei a ver?” Se ao menos o desgraçado pudesse amar a Deus no inferno e conformar-se com a vontade de Deus! Mas não; se o pudesse fazer, o inferno deixaria de ser inferno. Nem poderá resignar-se, nem lhe será dado amar a Deus. Viverá a odiá-lo eternamente; e esse há de ser o seu maior tormento: conhecer que Deus é o Sumo Bem, digno de infinito amor, e ver-se forçado a aborrecê-lo para sempre.

“Sou aquele malvado despojado do amor de Deus”, respondeu o demônio, quando interrogado por Santa Catarina de Gênova. O réprobo odiará e amaldiçoará a Deus, e amaldiçoando-o, amaldiçoará também os benefícios que dele recebeu, a criação, a redenção, os sacramentos, especialmente os do batismo e da penitência, e sobretudo o Santíssimo Sacramento do Altar. Aborrecerá todos os anjos e com ódio implacável o seu anjo da guarda, os seus santos padroeiros e a Virgem Santíssima. Malditas serão por ele as três Pessoas divinas, especialmente a de Deus Filho, que morreu para salvar-nos, e as chagas, os trabalhos, o sangue, paixão e morte de Cristo Jesus.


Autor: Santo Afonso Maria de Ligório

Livro: Preparação para a Morte

Para baixar o livro na íntegra, clique aqui.


sábado, 18 de outubro de 2008

Vídeos de São Josemaria Escrivá

Uma mostra prática de ecumenismo. Vídeo (0’48’’)




Para ver outros vídeos de São Josemaria, clique aqui.

Fonte: http://www.opusdei.org.br/sec.php?s=942


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Santa Teresa D´ávila - Do grande bem que há em não se desculpar

Êxtase de Santa Teresa


CAPÍTULO 15. TRATA DO GRANDE BEM QUE HÁ EM NÃO SE DESCULPAR, AINDA QUE SE VEJAM CONDENAR SEM CULPA.


1. Grande confusão me faz o que vos vou persuadir, porque deveria ter praticado, pelo menos alguma coisa do que vos digo nesta virtude; é assim que eu confesso ter aproveitado muito pouco. Nunca, ao que me parece, me falta motivo para me parecer maior virtude o desculpar-me. Como algumas vezes é lícito e seria mal não o fazer, não tenho discrição - ou, para melhor dizer, humildade - para o fazer quando convém. Porque, verdadeiramente, é de grande humildade ver-se condenar sem culpa e calar, e é perfeita imitação do Senhor que tomou sobre Si todas as culpas. E assim, rogo-vos para terdes nisto grande cuidado, porque traz consigo grandes lucros, e em procurarmos nós mesmas livrar-nos de culpa, não vejo nenhum, a não ser - como digo - nalgum caso em que poderia causar agravo ou escândalo não dizer a verdade. Isto, quem tiver mais discrição do que eu, o entenderá.


2. Creio que vai muito em se acostumar a esta virtude, ou em procurar alcançar do Senhor verdadeira humildade, que daqui deve vir; porque o verdadeiro humilde há-de desejar, de verdade, ser tido em pouco, e perseguido e condenado sem culpa, mesmo em coisas graves. Porque, se quer imitar o Senhor, em que melhor o pode do que nisto? Pois aqui não são necessárias forças corporais nem ajuda de ninguém, senão de Deus.


3. Estas grandes virtudes, minhas irmãs, quereria eu estudássemos muito e fossem a nossa penitência, que em demasiadas penitências já sabeis vos vou à mão, porque podem fazer mal à saúde, se são sem discrição. Aqui, porém, não há que temer, porque, por grandes que sejam as virtudes interiores, não tiram as forças do corpo para servir a Religião, senão que fortalecem a alma; e em coisas muito pequenas - como tenho dito de outras vezes - se podem acostumar para sair vitoriosas nas grandes. Nestas, não tenho eu podido fazer esta prova, porque nunca ouvi dizer coisas más a meu respeito que não visse que ficavam aquém: porque, embora não fosse nas mesmas coisas, tinha ofendido a Deus em outras muitas e parecia-me que tinham feito muito em deixar aquelas, e sempre me alegro mais que digam de mim o que não é, do que as verdades.


4. Ajuda muito a consideração do que se ganha nisto por todas as vias e como nunca - bem vistas as coisas -, nos culpam sem razão, pois o justo cai sete vezes ao dia e seria mentira dizer que não temos pecado. Assim, pois, ainda que não seja naquilo em que nos culpam, nunca estamos totalmente sem culpa, como estava o bom Jesus.


5. Ó Senhor meu! quando penso de quantas maneiras padecestes, e que de nenhuma o merecíeis, não sei o que diga de mim, nem onde tinha o siso quando não desejava padecer, nem onde estou quando me desculpo.


Já Vós sabeis, meu Bem, que, se tenho algum bem, não é dado por outras mãos senão pelas Vossas. Pois, que se Vos dá, Senhor, em antes dar muito do que dar pouco? Se é por eu não o merecer, tão-pouco merecia as graças que me tendes feito. E será possível que haja eu de querer que alguém faça bom conceito de coisa tão má, tendo-se dito tanto mal de Vós, que sois o bem sobre todos os bens? Não, não se pode sofrer, Deus meu - nem quisera eu sofrêsseis Vós - que haja em Vossa serva coisa que não contente os Vossos olhos. Pois olhai, Senhor, que os meus estão cegos e se contentam com muito pouco. Dai-me Vós a luz e fazei que, com verdade, deseje que todos me aborreçam, pois tantas vezes Vos tenho deixado a Vós, que me amais com tanta fidelidade!


6.Que é isto, meu Deus? Que lucro pensamos tirar em contentar as criaturas? Que se nos dá de ser muito culpadas por todas elas, se diante do Senhor estamos sem culpa? Ó minhas irmãs, nunca acabamos de entender esta verdade, e assim nunca acabaremos de chegar à perfeição, se não andamos considerando muito e pensando o que ela é e não é!


Pois, embora não houvesse outro lucro senão a confusão que ficará à pessoa que vos tiver culpado, ao ver que vós, sem culpa, vos deixais condenar, isso já seria bem grande; porque, às vezes, uma coisa destas mais levanta uma alma do que dez sermões. E todas devemos procurar ser pregadoras por obras, pois o Apóstolo e a nossa inaptidão nos impedem que o sejamos nas palavras.


7. Nunca penseis que há-de ficar oculto o mal ou o bem que fizerdes, por encerradas que estejais. E pensais, filhas, que ainda que vós não vos desculpeis, há-de faltar quem tome a vossa defesa? Vede como respondeu o Senhor pela Madalena em casa do Fariseu, quando sua irmã a culpava. Não vos levará pelo rigor como fez consigo mesmo, pois, quando teve um ladrão a tomar a Sua defesa, estava já pregado na cruz. Assim, Sua Majestade moverá a quem a tome por vós, e, quando não, é que não será necessário.


Isto o tenho eu visto e é assim, ainda que não quisera que isto se vos recordasse, mas antes folgásseis de ficar culpadas. E, do proveito que vereis em vossa alma, o tempo vos dou por testemunha. Porque se começa a ganhar liberdade e tanto se vos dará que digam mal ou bem de vós, antes parece ser negócio alheio. É como quando estão a falar duas pessoas e, como não é connosco, estamos descuidadas da resposta. Assim aqui, com o costume que tomámos em não dar resposta, dir-se-ia que não falam connosco.


Parecerá isto impossível aos que somos muito sensíveis e pouco mortificados.A princípio, é dificultoso; mas eu sei que se pode alcançar esta liberdade, negação e desprendimento de nós mesmos, com o favor do Senhor.


Fonte: Santa Teresa D´ávila, Caminho de perfeição.


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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O Múnus Profético dos Leigos

Profeta Jeremias - Michelangelo Buonarroti

II. OS FIÉIS LEIGOS


897 "Sob o nome de leigos entendem-se aqui todos os cristãos, exceto os membros das Sagradas Ordens ou do estado religioso reconhecido na Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados a Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e a seu modo feitos participantes da função sacerdotal, profética e régia de Cristo, exercem, em seu âmbito, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo." (Parágrafo relacionado 893)


A VOCAÇÃO DOS LEIGOS


898 "É especifico dos leigos, por sua própria vocação, procurar o Reino de Deus exercendo funções temporais e ordenando-as segundo Deus... A eles, portanto, cabe de maneira especial iluminar e ordenar de tal modo todas as coisas temporais, as quais estão intimamente unidos, que elas continuamente se façam e cresçam segundo Cristo e contribuam para o louvor do Criador e Redentor." (Parágrafo relacionado 2105)

899 A iniciativa dos cristãos leigos é particularmente necessária quando se trata de descobrir, de inventar meios para impregnar as realidades sociais, políticas e econômicas com as exigências da doutrina e da vida cristãs. Esta iniciativa é um elemento normal da vida da Igreja.

(Parágrafo relacionado 2442)

Os fiéis leigos estão na linha mais avançada da vida da Igreja: graças a eles a Igreja é o princípio vital da sociedade humana. Por isso, especialmente eles devem ter uma consciência sempre mais clara não somente de pertencerem à Igreja, mas de serem Igreja, isto é, a comunidade dos fiéis na terra sob a direção do Chefe comum, o Papa, e dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja .

900 Uma vez que, como todos os fiéis, os leigos são encarregados por Deus do apostolado em virtude do Batismo e da Confirmação, eles têm a obrigação e gozam do direito, individualmente ou agrupados em associações, de trabalhar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e recebida por todos os homens e por toda a terra; esta obrigação é ainda mais presente se levarmos em conta que é somente por meio deles que os homens podem ouvir o Evangelho e conhecer a Cristo. Nas comunidades eclesiais, a ação deles é tão necessária que sem ela o apostolado dos pastores não pode, o mais das vezes, obter seu pleno efeito. (Parágrafo relacionado 863)


SUA PARTICIPAÇÃO NO MÚNUS PROFÉTICO DE CRISTO


904 "Cristo... exerce seu múnus profético não somente por meio da hierarquia... mas também por meio dos leigos, fazendo deles testemunhas e provendo-os do senso da fé e da graça da palavra": (Parágrafos relacionados 785,92)

Ensinar alguém para levá-lo à fé é a tarefa de cada pregador e até de cada crente. 905 Os leigos exercem sua missão profética também pela evangelização, "isto é, o anúncio de Cristo feito pelo testemunho da vida e pela palavra". Nos leigos, "esta evangelização... adquire características específicas e eficácia peculiar pelo fato de se realizar nas condições comuns do século": (Parágrafo relacionado 2044)

Este apostolado não consiste apenas no testemunho da vida: o verdadeiro Apóstolo procura as ocasiões para anunciar Cristo pela palavra, seja aos descrentes... seja aos fiéis. (Parágrafo relacionado 2472)

906 Os leigos que forem capazes e que se formarem para isto podem também dar sua colaboração na formação catequética, no ensino das ciências sagradas e atuar nos meios de comunicação social. (Parágrafo relacionado 2495)

907 "De acordo com a ciência, a competência e o prestígio de que gozam, têm o direito e, às vezes, até o dever de manifestar aos pastores sagrados a própria opinião sobre o que afeta o bem da Igreja e, ressalvando a integridade da fé e dos costumes e a reverência para com os pastores, e levando em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas, dêem a conhecer essa sua opinião também aos outros fiéis.


Fonte: Catecismo da Igreja Católica.



sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Jovem que quer parecer o diabo faz nova mudança facial

Matéria retirada do site http://www.rainhamaria.com.br/Inicial

02.10.2008 - Estimados visitantes, pensei se colocava ou não essas fotos, pois é uma coisa lamentável, mas infelizmente é a realidade da nossa sociedade. Com algumas exceções, a maioria dos jovens diz que acredita em Deus, porém, em seus corações, ELE é totalmente ignorado e esquecido. Deus somente é lembrado quando necessitam da ajuda que o "homem" não pode dar. Mesmo quem se diz "católico" deixa-se levar por modas mundanas, que misturam religiões e seitas diversas. A juventude guiada por um "falso ecumenismo", com o slogan: "Que todos os caminhos levam a Deus". Muitos jovens caminham a cada dia para o "grande abismo", pois ou caminhamos com a Verdade ou entramos no caminho da mentira.

"Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouvem; mas depois vem o demônio e lhes tira a palavra do coração, para que não creiam nem se salvem". (Lc 8,12)

"Conhecereis a verdade e a verdade vos livrará". (Jo 8,32)

Primeiramente a notícia já postada aqui no site

19.09.2008 - Esqueça tudo o que você já viu sobre modificação corporal. Um jovem colombiano resolveu radicalizar, ao querer parecer com o diabo.

Segundo um dos colaboradores do site BMEZine, especializado em modificações corporais, a decisão do rapaz foi tomada ano passado, quando ele declarou que gostaria de ter um olhar mais assustador, assim como o próprio diabo e para homenagear seu nome, Caim.

As mudanças do rapaz começaram com aplicações de chifres de silicone e neste mês, finalmente, ele realizou seu grande sonho. Tendo o apoio de um cirurgião plastico, especializado em rinoplastia, e de um modificador profissional, Caim teve parte das suas narinas retiradas, dando a ele o tão sonhado aspecto "assustador" que ele buscava.

Fonte: Site Sobrenatural

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Agora a notícia atualizada e as fotos.

Tudo começou no ano passado, quando ele fez sua primeira aplicação de silicone na testa, para criar chifes artificiais. Mais tarde, não muito satisfeito com o resultado e buscando uma suposta aparência com o diabo, ele resolveu remover parte das narinas. Agora, para fechar com "chave de ouro" o rapaz decidiu aumentar os chifres e investir um pouco mais no marketing pessoal, mostrando para todos. O resultado você vê abaixo.

Infelizmente tenho que colocar essas imagens, para termos noção do ponto que a coisa chegou, alguns jovens não só querem adorar o diabo, mas querem se parecer com ele.

Se a moda pega, teremos em breve jovens com essa aparência desfilando pelas ruas.

"Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar". (1Pd 5,8)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

"Quando sou fraco, então é que sou forte" (2Cor 12,10)

Em sua segunda carta aos Coríntios, o Apóstolo apresenta o catálogo de suas dores: além de ter um corpo frágil, São Paulo sofria perseguições, calúnias e opróbrios da parte de cristãos judaizantes, que queriam impor aos pagãos convertidos a observância da Lei de Moisés, Lei que já cumprira seu papel, preparando o povo de Israel para receber o Messias.

Após enunciar tais achaques, o Apóstolo afirma paradoxalmente: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Como entender este paradoxo?

O paradoxo reflete o âmago da vida cristã. O bem que o cristão realiza, ele não o realiza porque seja forte, mas porque a graça de Deus nele habita e o move: “Sem Mim nada podeis fazer”, dizia Jesus (Jo 15,5). Quanto mais despojado de si ou de qualquer presunção, tanto mais aberta está a criatura para ser vivificada pela graça de Deus. Isto não quer dizer que nos podemos entregar à inércia, para deixar o Senhor agir em nós; longe disto, Paulo se esforçava como o atleta no estádio para conseguir não uma coroa perecível, mas uma coroa imperecível (1Cor 9,25-27). Apesar deste esforço, o Apóstolo sentia sua incapacidade para fazer o bem que desejava (Rm 7,17-19) e confiava no dom de Deus: “Infeliz de mim!... Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 7,24s).

O paradoxo é incômodo a quem o experimenta. Gostaríamos de ser os próprios autores ou artistas da nossa santificação. Na verdade, porém, esta depende do Supremo Artista, que nos burila, poda e esculpe na medida em que lhe abrimos espaço. Transfiramos estas verdades para a nossa vida cotidiana. O cristão reconhece seus pecados e por eles pede a misericórdia divina. Isto é doloroso, mas, ao mesmo tempo, é salutar; quanto mais despojado de si, tanto mais aberto está o cristão para a graça de Deus. Assim o pecado - que é a pior de todas as desgraças - e não só o pecado grave, mas também a falta leve, pode redundar em benefício do pecador; leva-o a tomar consciência de sua fragilidade e a mais se entregar à graça de Deus: Este resiste aos soberbos, mas atende aos humildes.

É necessário portanto aceitar o paradoxo, que já Santo Inácio de Loyola formulava nos seguintes termos: “Orar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de nós”. Santo Agostinho remata esta reflexão ao exortar: “Que o pecador se condoa do seu pecado, e se alegre por se condoer”. Quem experimenta a dor de ser pecador (grande ou pequeno pecador) já está sendo movido pela graça. Alegre-se, pois, e continue teimando na procura da santidade, pois procurar a perfeição já é perfeição, como diz São Bernardo.

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB

Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 540, Junho/2007.

Versão para impressão

Fonte: http://www.materecclesiae.com.br/em29.htm

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Teologia Dogmática: Céu

Coroação da Virgem - Beato Angélico

10. CÉU

“Receberemos uma casa edificada por Deus, não
por mãos humanas, um edifício eterno no céu” ( 2Cor 5,1)
“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)
“Alegrai-vos e exultai: grande será a vossa recompensa
no céu” (Mt 5,12)
“Derramar-vos-ão no seio uma medida cheia, recalcada,
coagulada” (Lc 6,29)

IDÉIAS

Nós, seres terrestres, somos tentados demais a reduzir
o céu ao tamanho da nossa terrinha... é de nascença.
Sem sermos tão cínicos como Renan (um dos muitos
anti do céu). Moribundo, rabiscou num papel: "Meu
emprego no além, arquivista de mim mesmo; durante a
eternidade irei rever e remexer meus papéis e meus livros".
Quiçá já esteja fazendo isto? Quem sabe, Lúcifer
lhe cobrou a palavra, como outrora a Sísifo na lenda grega.
É curioso: ninguém tem pressa de ir para o céu, afora
os santos. Conta a anedota clerical que um moribundo
declara com franqueza: "Não tenho pressa de sair da terra;
pois terei durante toda a eternidade, bastante tempo
para amar a Deus e regozijar-me com ele".
O outro modo: o sacerdote-mártir, Pe. Jacques,
OCD, vítima do antisemitismo, exclama perante a morte
tão próxima, alegre, jubiloso: "Mas pensem!... Ver Deus!...
Ver Deus!..." Perguntam a Sta. Teresinha se está resignada
a morrer. Responde: "Acho que é necessário resignação
para viver. O pensamento da morte enche-me de
alegria".
507
Pregador fiel foi Sto. Agostinho num sermão dominical.
Soube descrever tão bem a beleza do céu que o
auditório se levantou exclamando: "Pereant universa”
(Desapareça todo o universo). Simples, singelo, convicto,
o testemunho de um cristão do povo: Gauss, o matemático,
escreve em 1802 a um amigo: "Adeus, amigo! Que o
sonho, que chamamos vida, te continue bonito, antegosto
da verdadeira vida que nos espera em nossa pátria verdadeira.
Carreguemos esse fardo corajosamente, até o
fim. Quando então bater nossa última hora, quando caírem
do espírito livre as correntes do peso corporal, então
será indizível nossa alegria de ver aquele que só podíamos
adivinhar durante a vida terrestre".

ONDE?

Conta um antigo escritor que certo homem quis vender
seu belo e luxuoso palácio. Arrancou uma pedra dos
muros, exibindo-a aos companheiros como amostra de
propaganda. Risadas e caçoadas. Em situação semelhante
encontra-se quem tenta descrever o céu. São Paulo
sente-se na mesma situação e diz: "Quando eu era criança,
falava como criança; pensava como criança; julgava
como criança" (1Cor 13,11).
Perante a eternidade somos como crianças. Porque
o céu, nossa morada celeste, tem as dimensões de Deus,
que ultrapassam de longe as miniaturas terrestres. Onde
está o céu? A primeira pergunta da criança. Todos os dias
rezamos: "Pai Nosso que estais no céu". Como? Jesus
também pensava de um modo tão anticientífico, supondo
Deus residir em algum lugar entre as estrelas? E acontece
que o céu acima de nossa cabeça é um de dia e é outro
de noite, já que a terra gira ao redor de si.
Já o salmista do A.T. sabe a resposta (SI 138,7): "Aonde
irei para fugir do teu espírito? Se subo ao céu, tu lá
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estás. Se desço para o abismo: lá te encontro. Se tomo
vôo ao raiar da aurora e pouso no último limite do mar...
até lá se estende teu braço". O céu é Deus, e Deus está
em toda parte. E diz Jesus mais uma palavra de consolo e
alegria: "Quem me ama, guarda minhas palavras e meu
Pai o amará. E viremos a ele e faremos nele nossa habitação"
(Jo 14,23). O céu está dentro de nós.
Mesmo sabendo isto, Jesus gostava de rezar debaixo
do céu estrelado. E por que razão insistir: "Deus Pai do
céu?"... Para nos inculcar esta verdade tão simples e tão
esquecida, que o mundo ao nosso redor, por grande, por
forte, por bonito que seja, não é Deus. Deus está acima
de tudo isto... Mais alto... Foi também a fim de nos lembrar
sempre que a nossa pátria é o céu. No além, onde
mora o Pai. Lá está nosso lugar. Jesus mesmo nos manda
rezar todos os dias ao Pai do céu. Manda juntarmos
tesouros no céu. Garante que nosso nome está escrito no
céu e que ninguém nos roubará a felicidade. "Vinde, benditos
de meu Pai, e possui o reino que vos está preparado
desde o principio do mundo" (Mt 25,34).
Mas onde está este céu? Resposta: está onde está
Deus. Céu é vida de união com Deus. Céu é também vida
de comunidade de todos os anjos e bem-aventurados. E,
ao menos após o juízo final, após a ressurreição dos corpos,
esta comunidade – parece – estará em lugar corporal.
Penso que a terra será pequena demais para caberem
todos. Diz a Escritura que haverá um novo céu e uma nova
terra (2Pd 3,10; Ap 21,1). Mais, não sabemos.
E como será o céu? Outra pergunta infantil dos seres
humanos. E mais infantil ainda se imaginarmos algo
como paisagem romântica, parques de fantasia... Tudo
fantasia. A realidade será outra. E por sinal bem melhor.
"Olho humano jamais viu, nem ouvido humano jamais ouviu,
nem coração humano jamais sentiu o que Deus tem
preparado para aqueles que o amam" (1Cor 2,9).
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Nosso corpo (após a ressurreição universal) será
glorioso. Será o mesmo que conosco sofreu para conquistar
o céu. Mas será transformado. Será, em certo sentido,
espiritualizado, à semelhança do corpo glorioso de
Cristo ressuscitado. Não se transformará num ser espiritual.
Continuará sendo matéria e corpo humano. Mas participará
da glória divina, que transborda da alma beata.
"Semeia-se um corpo material e ressuscita um corpo espiritual.
Se há um corpo material, há também corpo espiritual"
(1Cor 15,43.44).

QUANDO

Sabemos que o céu é um paraíso verdadeiro. E, no
entanto, ninguém tem pressa de sair da terra. Por que
alegramo-nos tão pouco pela esperança do céu? Falta de
fé? A doutrina da Igreja é clara e está fora de discussão.
Sentimos que podemos contar com o céu. Mas por que
então um futuro tão risonho não "puxa?" Esta inefável felicidade
que nos é prometida pela fé, pela palavra de Deus,
devia preocupar-nos dia e noite. Devíamos arder em impacientes
sobressaltos, ansiosos como um escolar que
conta dias e horas até o início das férias. E todavia, nenhum
dos cristãos vive afobado pela vinda do céu.
Será, talvez, por medo da morte? O portão, que conduz
ao céu, é a morte com suas sombras, seus imprevistos
e suas incógnitas. Talvez já tenhamos visto alguma
pessoa nas últimas horas. Quadro desolador! Parece sentir
dores, apesar das injeções. Talvez este pensamento
esfria o entusiasmo. É possível. Mas pensando bem, após
algumas horas (não anos) no hospital, estaremos definitivamente
arranjados e para melhor.
Ou será o medo do inferno? Não pode ser! Quem
tem boa vontade tem o céu garantido. Boa vontade de
amar a Deus. E bondade para amar cá na terra seu pró
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ximo. Não disse Jesus que os misericordiosos serão tratados
com misericórdia? Os bondosos, com bondade. Tudo
na mesma medida. Portanto, não há problema.
Ou prende-nos o amor à vida terrena? Na mocidade,
sim. Mas depois – pensando bem – devíamos nos convencer
que só haveria vantagem na troca.
Mas qual é então o empecilho? A fé nos afirma e garante
o céu e sua desmedida felicidade. Mas são todas
elas coisas invisíveis E tão abstratas como fazer contas
de matemática ou geometria. E assim, não impressionam.
E nosso coração só se entusiasma se vê algo. É a grande
cegueira da humanidade perante o mundo do além. Por lá
tudo é escuro! Ou seja: tão azul celeste e nada mais. O
que Jesus contou, muito ou pouco; analisando suas palavras,
levantam-se novos problemas que restam no obscuro.
Jesus descreveu o céu com palavras singelas e com
várias parábolas, de um modo tão sugestivo que toda criança
é capaz de entender algo.
O céu, na teologia dogmática, é um dos tratados que
ocupam menos páginas. Mas também é impossível despejar
o mar num buraco da areia. O jeito é esperar. Somos
como um cego que viaja através de uma paisagem
belíssima: não vê nada. Se o companheiro tenta descrever-
lhe o que vê, alegra-se um pouco, talvez mais por ver
seu amigo tão entusiasmado. Mas, por hora, acontece
que todos os passageiros são cegos.
Daí, desta fraqueza da fé, da opacidade, da impermeabilidade
da mente humana é que provém o nosso
pouco entusiasmo pelo céu. É como se víssemos um país
só no mapa, não na realidade. O único remédio é meditar,
refletir mais, rezar. Talvez nos pegue algum dia a saudade
que sentiam os santos.
Francisco de Assis, na última doença, recebe a visita
de um anjo que toca um violino. Sumiram todas as dores
do moribundo. E disse o santo: tivesse tocado mais uma
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vez, teria morrido de felicidade. Diz Sto. Agostinho tão
bem: "O prêmio que Deus dá é ele mesmo. Pode-se ser
exigente e insaciável; Deus basta".

CIDADE CELESTE

O penúltimo capítulo da Bíblia tenta descrever, pintar-
nos o céu. Mas tudo em figuras simbólicas, arte abstrata.
São Paulo foi arrebatado até ao terceiro céu, mas
viu-se depois incapaz de dizer algo inefável. São João viu
abrir-se o céu ante os seus olhos: "Vi a cidade santa, a
nova Jerusalém, ornada como uma noiva" (Ap 21,1). E o
apóstolo tenta transmitir a mensagem do alto: uma cidade
maravilhosa feita de ouro, cristal, pérolas e pedras preciosas;
símbolos e reflexos, revérberos da glória de Deus.
Não há nem sol nem lua, porque "a glória de Deus" a ilumina.
Enorme seu tamanho. Seus habitantes: a grande
multidão de todas as tribos e de todas as nações da terra.
Cidade santa: porque é o "habitáculo de Deus entre
os homens. Deus mesmo habitará no meio deles" (Ap
21,3). Não há templo, nem Igreja nesta cidade, "porque
Deus e o Cordeiro são seu templo" (Ap 21,22). Santos
são seus moradores. "Nada de impuro ali entrará, nem
idólatra, nem herejes; mas somente os inscritos no livro
da vida" (Ap 21,26). Felizes seus habitantes. Daí, jorram
águas da vida eterna (Jo 7,39). "Uma torrente de água
viva resplendente como cristal" (Ap 22,1).
Ali está a árvore da vida, carregada de frutos que
dão a imortalidade, a vida eterna (22,1). "Deus enxugará
as lágrimas dos seus olhos; já não haverá nem luto, nem
lamento, nem dor". "Porque passaram as coisas de outrora"
(21,4). Brilha para eles o sol da vida eterna: Deus. E
seus raios se refletem em revérberos na fronte dos eleitos.
"Porque a sua luz é o Cordeiro. Brilharão pelos séculos
dos séculos" (22,5). Eis a cidadela celeste do vidente.
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Figuras e símbolos da "glória eterna".
Diz Jesus que os santos do céu "brilharão como o
sol" (Mt 13,43). Repete o apóstolo: "Deus nos chamou ao
seu Reino e à sua glória" (1Ts 2,12). "Deus vos chamou
para tomardes parte na glória de Cristo" (2Tes 2,14).
"Quando aparecer o Cristo, nossa vida, aparecereis também
vós com ele na glória" (Cl 3,4). E São Pedro promete-
nos uma "coroa imortal de glória" (1Pd 5,4).
Daí a conclusão: "Os sofrimentos do tempo presente
não se comparam com a glória futura que se há de revelar
em nós" (Rm 8,18). “A ligeira tribulação que de presente
sofremos nos merece um tesouro eterno de glória sem
igual. Contanto que cravemos o olhar, não nas coisas visíveis,
porém, nas invisíveis; pois o visível dura pouco
tempo, ao passo que o invisível é eterno" (2Cor 4,17).
Roger Wrenno, mártir inglês, foi condenado à forca
(1616, Lancaster). Mas a corda rebentou. O povo aplaudiu,
convidando-o a desistir da fé romana: "Vais ficar livre".
Mas Rogério correu depressa pelos degraus do palanque
acima. E o algoz caçoando: "Por que tanta pressa?"
Rogério: "Ó rapaz, se tivesses visto o que eu vi, tu
correrias também". Instantes depois estava para sempre
na glória de Deus.

Fonte: Livro "Teologia das Realidades Celestes", Pe. João Betting, p. 506-512.
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