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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Como ganhar paciência - Pe. Francisco Faus

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                         Jó e seus amigos - Gustave Doré

 

A caridade é paciente (1Cor 13,4)

O grande alicerce da vida cristã é o primeiro mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças”. E o segundo mandamento é: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Cf. Mc 12,29-30).

Amar a Deus e amar o próximo como a nós mesmos, melhor ainda, como Cristo nos amou – amai-vos uns aos outros como eu vos amei; ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15,12- 13) –, este é o pilar firmíssimo da vida do cristão, este é o ideal de vida que nos faz sintonizar com Deus, e andar pelas suas veredas.

Quando procuramos andar por essas veredas – unidos a Cristo, com o auxílio da graça do Espírito Santo –descobrimos que a única coisa que as pessoas nos estão pedindo a toda a hora (mesmo quando não nos pedem nada) é precisamente o nosso amor: um carinho que seja reflexo do amor misericordioso de Jesus, que seja capaz de compreendê-los, de desculpá-los, de perdoá-los, de dar-se sem cálculos nem mesquinharias.

Quando nos decidimos a ser generosos assim com os demais, ficamos pasmados ao perceber que cada vez há menos coisas que nos contrariam e nos fazem perder a paciência. E isto é assim porque cada vez se torna menor o egoísmo, esse vício demolidor do amor.

Façamos uma pequena experiência. Escrevamos em forma de lista todas as coisas que, na última semana, nos aborreceram e mexeram com a nossa paciência. A seguir, diante de cada item, anotemos uma pergunta: que tipo de amor (de amor generoso e sacrificado) Deus me pedia aí? E prossigamos a experiência, imaginando: se eu tivesse vivido naquele momento o tipo certo de amor, teria havido impaciência? A resposta seria, naturalmente, “não”. Não haveria impaciência se eu tivesse amado. Talvez possamos retrucar: “Mas é que eu não sou santo” – o que é verdade –, mas o que não poderemos dizer nunca honestamente é que ali havia uma contrariedade que o amor não podia superar.

Na realidade, todos os exercícios de paciência consistem em exercícios de amor. Conheço várias pessoas – graças a Deus conheço muita gente boa – que, ao voltarem a casa com toda a carga do cansaço do dia, vão rezando o terço no trânsito ou carregam consigo um livro de pensamentos espirituais, para lerem e meditarem uma ou outra frase ao pararem no semáforo demorado ou no engarrafamento incontornável. Ao mesmo tempo, vão espremendo os seus cansados miolos, tentando concretizar: “Que iniciativa, que detalhe, que palavra posso preparar para que a minha chegada a casa seja um motivo de alegria para a minha mulher, ou para o meu marido, e para os meus filhos?” E, assim, homens e mulheres cujo retorno ao lar era antes soturno e irritado, tornam-se – em virtude do amor a Deus e aos outros, que se esforçam por cultivar – corações pacientes, que espalham a paz e a alegria à sua volta.

Exercícios de paciência

É inútil pensar que existem “truques” ou “técnicas” que sirvam para viver a paciência, se o egoísmo ainda tem o ninho no nosso coração. Com esse hóspede indesejável, não adianta qualquer tentativa. Mas se há amor, então vão-nos ocorrendo mil maneiras de exercitar a paciência, bem práticas, simples, bonitas... e eficazes.

Quem tem experiência da luta por viver com Deus, sabe que o amor cristão se mexe movido por duas asas: a da oração e a da mortificação. Por isso, todo o exercício da virtude cristã da paciência comportará necessariamente o movimento de uma dessas asas ou, o que será mais freqüente, de ambas ao mesmo tempo.

Em primeiro lugar, a oração. O cristão paciente procura falar antes com Deus do que com os homens. Quando se sente à beira de uma crise de impaciência – pois ia retrucar, censurar, gritar, queixar-se... –, faz o esforço de se calar. Alguns recomendam contar até vinte, antes de abrir a boca. Melhor será fazer o sacrifício de guardar silêncio, de sair, se for preciso, de perto do foco do atrito (ir para outro cômodo, etc.), e de rezar bem devagar alguma oração, como por exemplo o Pai-Nosso (sublinhando mentalmente as palavras-chave que acordarão a fé e o amor e, portanto, trarão calma e lucidez à alma: Pai, ...seja feita a vossa vontade..., perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...).

Após essa oração, que pode ser também uma seqüência de jaculatórias, de invocações breves, pedindo paciência a Deus, e já com a alma mais tranqüila, poderemos discernir o que nos convém fazer: se é deixarmos passar, sem mais, aquele dissabor, aquela contrariedade; ou se é praticar o que lemos no n. 10 do livro Caminho: “Não repreendas quando sentes a indignação pela falta cometida. – Espera pelo dia seguinte, ou mais tempo ainda. – E depois, tranqüilo e com a intenção purificada, não deixes de repreender”(Josemaría Escrivá, Caminho, 7ª ed., Quadrante, São Paulo, 1989); ou, ainda, se é tomar a iniciativa de ter um gesto simpático – um afago para a esposa ou a filha; uma palavra amável, que quebre o gelo com aquele que nos causou mal-estar. Não duvidemos de que o esforço de guardar silêncio, unido ao esforço de fazer oração, sempre conduzirá os que lutam com boa vontade para a paciência, para a paciência real e prática.

Ao lado da oração, mas sem largá-la da mão, o cristão exercita a paciência por meio da prática voluntária, consciente, amorosa, de um sem-fim de pequenos sacrifícios, que são uma gota de paz, de afabilidade, de bondade, sobre as incipientes ebulições da impaciência. Talvez não seja demais lembrar, a título de sugestão para o leitor, algumas dessas mortificações cristãs, que diariamente podemos oferecer a Deus:

1) fazer o esforço de escutar pacientemente a todos (ao menos durante um tempo prudencial), sem deixar que se apague o sorriso dos lábios, nem permitir que os olhos adquiram a inexpressiva fixidez, prelúdio de bocejo, de um peixe;

2) não andar comentando a toda a hora e com todos, sem razão plausível nem necessidade, as nossas gripes, as nossas dores de cabeça ou de fígado nem, em geral, qualquer outro tipo de mal-estar pessoal: propor-nos firmemente não nos queixarmos da saúde, do calor ou do frio, do abafamento no ônibus lotado, do tempo que levamos sem comer nada...

3) renunciar decididamente a utilizar os verbetes típicos do Dicionário da Impaciência: “Você sempre faz isso!”, “De novo, mulher, já é a terceira vez que você passa um cheque sem fundos!”, “Outra vez!”, “Já estou cansado”, etc., etc.;

4) evitar cobranças insistentes e antipáticas, e prontificar-nos a ajudar os outros, usando mais vezes do expediente afável de lembrar-lhes as coisas que omitiram ou atrasaram e de estimulá-los a fazê-las;

5) não implicar – não vale a pena! – com pequenos maus hábitos ou cacoetes dos outros, mas deixá-los passar como quem nem repara neles: mania de bater na cadeira ou de tamborilar com os dedos na mesa, tendência para ler por cima do ombro o jornal que nós estamos lendo, de fazer ruído com a boca, de cantarolar horrivelmente enquanto se lê ou se trabalha... Lembro-me bem da “guerra fria” que se travou entre uma filha cinqüentona e um pai quase oitentão, e na qual fui chamado a intervir como mediador. Ela sustentava que o pai vivia gemendo, ele retrucava dizendo que “não, senhora, estou é cantarolando”... E, se não tivesse havido a intervenção de uma “potência neutra”, o atrito poderia ter terminado muito mal;

6) saber repetir calmamente as nossas explicações a quem não as entende e se mostra porfiadamente obtuso; ter a calma de partir do bê-á-bá para esclarecer assuntos técnicos a pessoas que os desconhecem e não têm vocação para lidar com cálculos e máquinas;

7) não buzinar na rua quando alguém reduz a marcha do veículo e estaciona inopinadamente; por sinal, se o leitor deseja um bom conselho para praticar a paciência no trânsito, ofereço-lhe o seguinte, que já deu muito bons resultados: nunca olhe para a cara do “agressor”, do motorista “barbeiro”. Continue serenamente o seu percurso sem ficar sabendo se era homem ou mulher, jovem ou velho: vai ver que é difícil ficar com raiva de uma sombra indefinida; e se, além disso, passada a primeira reação, se lembra de rezar ao Anjo da Guarda por ele/ela, para que se torne mais prudente, mais hábil ou menos prepotente, melhor ainda;

8) por último, permito-me repisar a importância da oração para adquirir a paciência, evocando a simpática surpresa de uma mãe impaciente que se tornou “rezadora”. Aquela mulher de nervos frágeis tinha-se proposto rezar a Nossa Senhora a jaculatória: “Mãe de misericórdia, rogai por nós (por mim e por esse moleque danado)” a cada grito das crianças. Quando começava a ferver uma crise conjugal, tinha igualmente “preparada” uma oração própria que dizia: “Meu Deus, que eu veja aí a cruz e saiba oferecer-Vos essa contrariedade! Rainha da paz, rogai por nós!” E quando ia ficando enervada e ríspida, rezava: “Maria..., vida, doçura e esperança nossa, rogai por mim!” Depois comentava com certo espanto: – “Sabe que dá certo? Fico mais calma!” E ficava mesmo.

Como vemos, nem essa boa mãe, nem as outras pessoas acima evocadas como exemplo, conseguiam viver a paciência à base de truques de “pensamento positivo”, mas de esforços de fé e de amor cristão. De maneira que, sem terem a mínima noção disso, todas elas estavam dando a razão a São Tomás de Aquino que, com o seu habitual laconismo, sintetizou assim a questão: “É evidente que a paciência é causada pelo amor”, ou, por outras palavras que traduzem com igual precisão as do santo: “Só o amor é causa da paciência”(Suma Teológica, II-II, q. 136, a. 3, c.).

(Adaptação de um trecho do livro de F. Faus: A paciência)

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Fonte: http://padrefaus.googlepages.com/paci%C3%AAncia

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Considerações sobre a ação da Graça (primeira parte)

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                                     São Paulo da Cruz

Por Prof. Pedro M. da Cruz.

Para onde tende o teu coração? Estão em Deus teus pensamentos? Lembra-te daquele dito popular: “A árvore cai para o lado em que se inclina! ” Além do mais, tudo começa pequeno. São Paulo da Cruz, fundador dos Passionistas, iluminador das trevas do século XVIII com seus milagres estupendos, desde os primeiros anos de sua vida alimentava o amor à oração e à penitência; flagelava-se com uma disciplina de cordas criada por ele mesmo, fugindo, desde cedo, das amarras desordenadas dos sentidos. Afinal, “Mais vale lutar sem elegância que entregar a alma ao animal interior.[1] Certa feita, o barulho que fazia ao surrar seu próprio corpo ainda infantil veio a acordar seus pais: “Que fazes, meu filho, queres morrer?” O resultado daquela heróica inclinação à virtude foi sua crescente devoção à Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo que tantas vezes o elevava a êxtases místicos.[2]
O que tens feito por Nosso Senhor? Acaso, só te preocupas com teus desejos mesquinhos? Há que se negar a si mesmo! Deste modo, o peso da Cruz nos inclinará, ainda mais, na direção de Cristo salvador. Em 1918, grandemente provada pelo Altíssimo, Santa Teresa de los Andes sofrera inimagináveis aflições, securas e trevas interiores. O que fez então esta mestra de santidade? Desesperada, abandonara Nosso Senhor? Entregara-se a uma vida desenfreada de gozos ilícitos, a fim de tentar preencher aqueles vazios abissais? Não! Ela foi fiel! Confiou em Deus, mesmo entre lágrimas, aos pés de Nossa Senhora. Inclinava, deste modo, seu coração ao Crucificado, caindo em seus braços de amor.
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Santa Teresa de los Andes
 
Juanita”, como era chamada pelos mais íntimos, lutava por alcançar uma sólida firmeza de caráter; não queria deixar-se levar pelo inconstante sentimentalismo miúdo dos fracos, tão comum, infelizmente, entre os jovens de hoje; mas, sim, pela razão e por uma consciência esclarecida. Este modelo cristão morrerá com apenas dezenove anos, em doze de Abril de 1920, tendo permanecido somente onze meses entre as Monjas do Carmelo. Em tão poucos anos de existência conseguira alcançar tão altos píncaros de santidade! Eis, um belo sinal para a juventude.
Quantos dão o máximo de si pelo pérfido egoísmo?! Para “aparecerem” pisoteiam todas as virtudes, julgando-se melhores que o resto da humanidade. São incapazes de fazer um único sacrifício oculto pelo bem dos demais, mas portam-se quais palhaços a fim de colocarem-se no centro das atenções. Amam seu “eu” acima de tudo, e se ainda demonstram certa devoção para com as coisas de Deus, é porque daí resulta alto proveito para sua vanglória e soberba.
Antes mesmo de habitar entre as carmelitas, “Juanita” escrevera em seu diário espiritual: “Tenho uma devota. Estou aflita; vai fazer-me perder tudo o que ganhei a respeito da humildade, pois ela vive a contemplar-me. Meu Deus, te peço que eu seja esquecida e desprezada por todos. Meu Jesus, eu não desejo o amor das criaturas.” É preciso, ainda, indagarmos para que lado tendia esta alma primaveril?
Mas alguém poderá objetar: “Não é verdade que, após o Pecado Original, o ser humano se encontra naturalmente inclinado ao mal e enfraquecido em suas forças morais? Tendo ele uma ‘carne fraca’, não se tornaria impossível a vida de santidade?” Ora, é obvio que podemos compreender, dadas as circunstâncias, os motivos pelos quais o homem venha a cair, mas jamais poderemos aceitar o pecado. Realmente, é verdade: a criatura humana se encontra arrastada ao erro, ferida na alma, ofuscada em sua inteligência e enfraquecida em sua vontade. Porém, não sejamos reducionistas. Fomos resgatados pela Cruz de nosso Salvador, Jesus Cristo. Agora, todos os que se banham nas águas do Santo Batismo são recriados no Filho de Deus, tornam-se novas criaturas à imagem do Redentor. Renascidas, assim, pelo Sacramento, a graça auxilia a alma na luta contra o mal e no domínio de sua vontade desordenada.
O Pecado Original não destruiu a liberdade humana, nem fez desaparecer em absoluto nossa força moral. Ainda há brasas sob as cinzas! Um chuvisco da outrora opulente fortaleza espiritual! Mas, de fato, aquele que vive como um louco, entregue às míseras forças de sua natureza decaída, é como um pobre doente, que vendo o remédio para seus males a certa distância de seu leito de dor, não se decide por pegá-lo, e acaba morrendo devido à sua negligência.
Todos podemos perceber, claramente, a verdade de que a natureza humana é mais corrompida quanto à “prática do bem” – pois, está enfraquecida em sua vontade – do que quanto ao “conhecimento da verdade”. O fato é que, amiúde, sabemos o que devemos fazer, porém, é com muitas dificuldades que o executamos; se é que o executamos! Deste modo, peca-se, geralmente, não por falta de conhecimento, mas, sim, por falta de uma força necessária para agir corretamente. Pode-se perceber tal realidade quando afirmamos: “Mas, sou tão fraco ...
Sem Deus nada podemos fazer. Busquemos socorro sobrenatural! Vivamos da graça de Deus! Deste modo, tudo torna-se mais leve e suave. Santa Bernadete, por exemplo, traçando um singelo sinal da Cruz sobre si mesma, converteu um pobre pecador. Maravilha da graça! Isso, porque aquela mulher heróica vivia sempre na fidelidade para com a vontade divina, deste modo, o mais simples movimento de seu ser passava a possuir um valor sobrenatural. E nós, após tantas pregações, tantos escritos, tantos esforços... para quantos fomos canais límpidos de conversão? Com a graça do Altíssimo, todos os nossos atos tornar-se-ão sobrenaturais, convertendo os transviados, amolecendo os corações empedernidos, e abrindo as inteligências à verdade do evangelho.



[1] THIBON, Gustave. O que Deus uniu. Coleção Éfeso. Trad. Mário Pacheco. Lisboa: Aster, 1958. Pg. 65
[2] Certas práticas dos grandes santos são mais para serem admiradas que imitadas nas mesmas proporções em que se deram. Estas foram fruto de uma alma de escol preparada por Cristo para os grandes embates que lhe esperavam na luta pela causa do Evangelho.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Santa Mª. Madalena de Pazzi - Regras de perfeição

incorruptomariamadpazzi   Corpo incorrupto de Santa Mª. Madalena de Pazzi

 

Num (de seus) êxtases, o Salvador lhe prescreve as regras de perfeição seguintes:

I. Quero que, em tôdas as ações exteriores e interiores, contemples sempre a pureza que te fiz ver: pensa que cada uma de tuas palavras e ações poderá ser a última.

II. Zelarás, na medida de tuas fôrças e da graça que te darei, por tôdas as almas que eu te der.

III. Não darás jamais ordem ou conselho, ainda que te seja permitido, sem te lembrares de mim crucificado.

IV. Não notarás defeito de criatura alguma, sem antes te assegurares que é desta mesma criatura.

V. Sejam tuas palavras sinceras, verdadeiras, graves e despojadas de tôda adulação: sempre me citarás como exemplo das obras que as criaturas devem fazer.

VI. Lembrar-tS. Maria Madalena de Pazzie-ás, na conversa com tuas companheiras, de que tua afabilidade não deve ser em detrimento de gravidade, nem a gravidade da humildade e mansidão.

VII. Tôdas a obras tuas deverão ser feitas com mansidão e humildade, de molde a serem como um amante para atrair a mim as almas; e com tanta prudência que sejam regra para os meus membros, vale dizer, as almas religiosas e o teu próximo.

VIII. Noite e dia estarás sedenta, como um cervo, a exercer a caridade com os meus membros, estimando a debilidade e o cansaço de teu corpo como a terra da qual é formado.

IX. Empenhar-te-ás, na medida que te conhecer, em ser o alimento dos que têm fome, bebida dos que têm sêde, vestimenta dos que estão nus, jardim dos prisioneiros e alívio dos aflitos.

X. Com os que deixo sôbre o mar dêste mundo, serás cautelosa como serpente; e com os meus eleitos simples como pomba, temendo aquêles como a face de um dragão e amando êstes como o templo do Espírito Santo.

XI. Domina as paixões, pedindo-me esta graça, a mim, o mestre de tôdas as criaturas.

XII. Condescenderás com as minhas criaturas, como uso de soberana caridade, ao conversares no mundo, lembrando-te sempre destas palavras do meu Apóstolo: Quem é que doente está, sem que com êle eu esteja?

XIII. Não privarás ninguém de algo que possas dar, se to pedir: não privarás tampouco criatura alguma do que lhe foi concedido, sem antes haveres considerado que sou o perscrutador dos corações e que te julgarei com poder e majestade.

XIV. Estimarás a regra e suas constituições, com os votos, na mesma medida que quero estimes a mim, empenhando-te em imprimir em todos os corações o amor pela vocação à qual os chamei, e da religião.

XV. Desejarás ardentemente ser submissa a todos, e terás horror de ser preferida a alguém.

XVI. Não acreditarás existir alívio, repouso e consolação senão no desprêzo e na humildade.

XVII. Não cessarás de levar ao conhecimento das criaturas os teus desejos e minhas vontades, senão quando eu te chamar, e meu Cristo, teu confessor.

XVIII. Perseverarás em contínua oblação de todos os teus desejos e obras, com meus membros, dentro de mim.

XIX. Desde a hora em que deixei minha mãe puríssima, que é a vigésima- segunda, até a hora em que me receberás, permanecerás em contínua oblação de minha paixão, de ti mesma, e de minhas criaturas, a meu Pai Eterno; e isto te servirá de preparo ao recebimento sacramental do meu corpo; dia e noite visitarás o meu corpo e meu sangue trinta e três vêzes (contando que a caridade e a obediência não o impeçam).

XX. A última regra consiste em que, em tôdas as ações, tanto exteriores como interiores, que eu te permitir, sejas transformada em mim (1).

Notas:

(1) Vita 1, c. III, n. 27.

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Livro: Vida dos Santos
Autor: Padre Rohrbacher, Volume IX, páginas 246, 247 e 248.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Quaresma: Jejum

 

"O que pode ser mais eficaz do que o jejum? Por sua observância nos aproximamos de Deus e, resistindo ao diabo, triunfamos da sedução dos vícios. O jejum sempre foi um alimento para a virtude. Da abstinência, enfim, procedem os pensamentos castos, a vontade reta, conselhos saudáveis; e pela mortificação voluntária do corpo, damos morte à concupiscência da carne, renovando o espírito pela prática das virtudes.
Mas como a salvação de nossas almas não é conquistada apenas pelo jejum, completemo-lo pela misericórdia para com os pobres. Seja abundante em generosidade o que retiramos ao prazer; que a abstinência dos que jejuam reverta para o alimento dos pobres. Pensemos na defesa das viúvas, no socorro dos órfãos, na consolação dos que choram, na paz aos revoltosos. Que o peregrino seja recebido, que o oprimido seja ajudado, que o nu seja vestido, que o doente seja curado, a fim de que, todos os que oferecerem o sacrifício de nossa piedade, por estas boas obras, a Deus, autor de todos estes bens, mereçam receber Dele, o prêmio do Reino Celeste." (São Leão Magno - Sermão sobre o jejum)

 

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São Tomás de Aquino nos diz que a prática do jejum existe por três motivos:
"Primeiro, para reprimir as concupiscências da carne. Donde o dizer o Apóstolo (2 Cor 6, 5): «Nos jejuns, na necessidade», porque o jejum conserva a castidade. Pois, como diz Jerônimo, «sem Ceres e Baco Vênus esfria», é, pela abstinência da comida e da bebida a luxúria se amortece.
Segundo, praticamos o jejum para mais livremente se nos elevar a alma na contemplação das sublimes verdades. Por isso, refere a Escritura que Daniel (Dn 10), depois de ter jejuado três semanas, recebeu de Deus a revelação.
Terceiro, para satisfazer pelos nossos pecados. Por isso, diz a Escritura (Jl 2, 12): «Convertei-vos a mim de todo o vosso coração em jejum e em lágrimas e em gemido». E é o que ensina Agostinho num sermão: «O jejum purifica a alma, eleva os sentidos, sujeita a carne ao espírito, faz-nos contrito e humilhado o coração, dissipa o nevoeiro da concupiscência, extingue os odores da sensualidade, acende a verdadeira luz da castidade».
O jejum é objeto de preceito. Pois o jejum é útil para delir e coibir as nossas culpas e elevar-nos a mente para as coisas espirituais. Ora, cada um está obrigado, pela razão natural, a jejuar tanto quanto lhe for necessário para conseguir tal fim. Por onde, o jejum, em geral, constitui um preceito da lei natural. Mas, a determinação do tempo e do modo de jejuar, conforme à conveniência e à utilidade do povo Cristão, constitui um preceito de direito positivo, instituído pelos superiores eclesiásticos. E tal é o jejum da Igreja, diferente do jejum natural.
— Os tempos de jejum estão convenientemente determinados pela Igreja. O jejum é ordenado por dois motivos: para delir a culpa e para nos elevar a mente às coisas espirituais. Por isso, os jejuns foram ordenados especialmente naqueles tempos em que, sobretudo, devemos os fiéis nos purificar dos pecados e elevar a mente a Deus pela devoção. O que sobretudo se dá antes da solenidade Pascal, quando as culpas são delidas pelo batismo, celebrado solenemente na vigília da Páscoa, em memória da sepultura do Senhor; pois, pelo batismo, somos sepultados com Cristo para «morrer ao pecado», na frase do Apóstolo (Rm 6, 4). E também na festa Pascal devemos, sobretudo, pela devoção, elevar a mente à glória da eternidade, a que Cristo deu começo pela sua ressurreição. Por isso, imediatamente antes da solenidade Pascal, a Igreja nos manda jejuar; e pela mesma razão, nas vigílias das principais festividades, quando devemos nos preparar devotamente para celebrar as festas que se vão celebrar". (Ia IIae, q. CXLVII, a. 1, 3, 5. - P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae)

 

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Adaptado por Sociedade Apostolado

Fonte: http://www.voltaparacasa.com.br/sobre_o_jejum.htm

domingo, 15 de junho de 2008

Dez Preceitos da Serenidade


Por Papa João XXIII


- Só por hoje tratarei de viver exclusivamente este dia, sem querer resolver o problema de minha vida, todo de uma vez.


- Só por hoje terei o máximo cuidado com o meu modo de tratar os outros: delicado nas minhas maneiras, não criticarei ninguém, não pretenderei melhorar nem disciplinar ninguém a não ser a mim.

- Só por hoje sentir-me-ei feliz com a certeza de ter sido criado para ser feliz, não só no outro mundo, mas também neste.

- Só por hoje adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que as circunstâncias se adaptem a todos os meus desejos.



- Só por hoje dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura, lembrando-me de que assim como é preciso comer para sustentar o meu corpo, assim também a leitura é necessária para alimentar a vida de minha alma.


- Só por hoje praticarei uma boa ação sem contá-la a ninguém.


- Só por hoje farei uma coisa de que não gosto, e se for ofendido em meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.


- Só por hoje far-me-ei um programa bem completo do meu dia. Talvez não o execute perfeitamente, mas em todo caso vou fazê-lo. E guardar-me-ei bem de duas calamidades: a pressa e a indecisão.


- Só por hoje ficarei bem firme na fé de que a Divina Providência se ocupa de mim mesmo como se existisse somente eu no mundo, ainda que as circunstâncias manifestem o contrário.


- Só por hoje não terei medo de nada. Em particular, não terei medo de gostar do que é belo e não terei medo de crer na bondade.


Fonte: www.veritatis.com.br/article/510