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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Ano da Fé e Grupos de Estudos – parte I


Por Pietro Mariano dos Santos

“Meu povo se perde por falta de conhecimento.” (Oséias 4,6)

A – Ano da Fé em tempos de crise

O “Ano da Fé”, proclamado por Bento XVI[1], é uma grande resposta às necessidades do tempo presente. As palavras do Papa em um seu documento[2] referentes à “Porta da Fé” [3] - que nos introduz na única e verdadeira Igreja de Cristo - são, para bom entendedor, uma conversão ao mais essencial da eclesiologia tradicional, infelizmente abandonada por tantos pseudo-teólogos da modernidade.

Não é segredo para ninguém a evidente manobra de certo ecumenismo modernista, que pretende a Igreja Católica como, tão somente, “mais uma” instituição ao lado de todas as outras que se dizem cristãs. Nessa falsa perspectiva teológica, “tanto faz” ser católico ou não, pois “o mais importante é o amor” – dizem. Como se fosse possível a caridade sem o concurso da verdadeira revelada pelo Pai através de Cristo à Sua Igreja. “A fé sem caridade não dá fruto, e a caridade sem a fé seria um sentimento constantemente à mercê da dúvida”. (Porta Fidei, Bento XVI, n.14).

Estamos perante a mais completa rejeição de um dogma Católico: “Extra Ecclesiam nulla salus” (Fora da Igreja não há salvação); proclamado, não só por Inocêncio III (1208), como também no Concilio Lateranense IV (1215) e no Concilio Florentino (1442). Graças a Deus, tal verdade fora ultimamente retomada por J. Ratzinger em “Dominus Iesus”, para espanto dos “progressistas”. Sobre esse tema central afirmara o Cardeal Giacomo Biffi:
“À luz destes testemunhos, não se vê como se possa contestar o principio: ‘fora da Igreja não há salvação’, a menos que se relativize toda doutrina eclesial e se considere que não existe no âmago da concepção católica nenhum ensinamento certo e irrevogável.” [4]

Porém as loucuras não param por aqui...

Outros vão ainda mais adiante em sua revolta: além de afirmarem o “tanto faz” ser católico ou pertencer a qualquer outra suposta “igreja cristã”, chegam a defender que nem mesmo o cristianismo seria tão necessário assim, uma vez que poderíamos pertencer a qualquer outra religião (Judaísmo, Budismo, Islamismo, Hinduísmo etc.). Defendem-se afirmando que “Deus é o mesmo” (Sic) e que, portanto, qualquer religião seria válida. A centralidade do cristianismo para esses “moderninhos paz e amor” seria um ato orgulhoso de padres e bispos “quadrados”, “fechados” e fundamentalistas.



Ora, vá dizer a certo tipo de Maometano que Alá é “Pai e Filho e Espírito Santo”, e tente voltar vivo para nos comunicar sua resposta...
Sobre este ponto, assevera-nos Bento XVI que crer em Jesus é o caminho para se chegar definitivamente à salvação. Ele é, de acordo com o atual para emérito, o único salvador do mundo (Porta Fidei, Bento XVI, n.6).

É por vermos idéias tão distantes da verdade, que entendemos um pouco mais a decadência atual. Além disso, somente um número reduzido de cristãos têm tido a ousadia de pregar destemidamente a fé de sempre (Porta Fidei, Bento XVI n. 8).  Tal carência na evangelização acaba por impedir a muitos de cruzarem o limiar daquela Porta que nos conduz ao batismo na única Igreja realmente fundada por Nosso Senhor. Afirmamos assim – “realmente fundada” – porque a lábia modernista de alguns padres (é com tristeza que o dizemos) tem enganado aos incautos com a falsa doutrina de que a Igreja Católica estaria tão somente “fundamentada em Cristo”. Isso equivale a defender que o catolicismo não foi - segundo eles - de fato, histórico e objetivamente, fundado pelo Filho de Deus.
“Já não nos defrontamos com adversários ‘em pele de cordeiro’, mas com inimigos aberta e desavergonhadamente assumidos na nossa própria casa, os quais, tendo feito um pacto com os maiores inimigos da Igreja, estão decididos a arrasar a fé [...]” [5] (S. Pio X)

Eis o motivo de vermos tantas “velhinhas bondosas” ensinando aos seus netinhos por aí sandices como esta: “Não, meu filho, Jesus nunca fundou uma Igreja... isso é coisa dos homens. A gente só vai à missa porque é bom cada pessoa ter sua crença. Eu vou morrer católica porque nasci nessa ‘lei’.”

Alguns anos depois...
Olha lá a velhinha com seu netinho pulando e dançando - apesar da osteoporose e Cia - em cultos protestantes ou terreiros de macumba...

Acima, "missa sertaneja' em uma famosa rede de tv católica. Abaixo, o "pastor fazendeiro" ($$$), Waldomiro Santiago.
 Semelhanças não são mera coincidência. 
Deste modo, aumentam-se as convulsões que se seguiram após o Concilio... Um a um, como em fila bem organizada, vão saindo uns pobres fiéis da Igreja Católica e se perdendo em seitas dos mais variados tipos: não auscultaram a fé de sempre, e, se a ouviram, ela não lhes plasmou o coração pela graça...

S.S. Paulo VI vira no Ano da Fé por ele proposto em 1967 uma conseqüência e exigência do período pós conciliar. Ele estava ciente das graves dificuldades daquele tempo, sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira Fé e da sua reta interpretação (Porta Fidei, Bento XVI, n. 5). Com efeito, chegara ao ponto de afirmar que, por alguma brecha, a fumaça de satanás entrara na casa de Deus.

O atual papa emérito, reiteradas vezes, quis dar-nos a entender que os textos do Concílio Vaticano II devem ser conhecidos e assimilados no âmbito da Tradição da Igreja. “Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concilio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação [...]” [6]

Essa proposta nos faz recordar as sábias palavras de São Vicente de Lérins, citadas pelo antigo Arcebispo de Paris, o Cardeal Suhard, (que, infelizmente, auxiliava os padres Chenu e De Lubac, apesar de seu modernismo manifesto):
“Mas, dir-se-á talvez, não é a religião susceptível de qualquer progresso na Igreja de Cristo? Seguramente que sim, e muito grande. Quem seria bastante inimigo da humanidade, bastante hostil a Deus, para lhe tentar opor? Mas, com uma condição indispensável: que se trate verdadeiramente de um progresso da fé e não da sua alteração. Pois o próprio do progresso consiste em que um ser se desenvolva permanecendo ele próprio; enquanto a alteração consiste em que uma coisa se transforme em outra [...]” [7]

Cristo Rey
Caso um legítimo progresso na doutrina (claro, pela ação do Espírito Santo) - sem alteração - não seja realizado hoje em lugar do que tem ocorrido, o mundo continuará se afastando daquele ideal tão bem representado no auge da Idade Média (Século XIII). Está evidente na atualidade, para qualquer observador, o quanto a sociedade dista do projeto católico onde Cristo exercerá Seu Reinado Social. “Enquanto no passado era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes setores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.” (Porta Fidei, Bento XVI, n. 2)

Essa situação preocupante exige de nós uma atitude. É o que meditaremos na segunda e última parte deste nosso artigo. Peçamos a Nossa Senhora do Bom Conselho que nos proteja e ilumine por sua doce intercessão nos caminhos desta vida de lutas e dificuldades.

Virgem Santíssima, ora pro nobis!
Maria Sempre!




[1] O ano da fé teve inicio aos 11 de outubro de 2012 (cinqüentenário da abertura do Concílio Vaticano II) e se estenderá até 24 de novembro de 2013.
[2] Porta Fidei, sobre a o Ano da Fé, S.S. Bento XVI.
[3] Conf. At. 14,27
[4] BIFFI, Giacomo. Para amar a Igreja. Trad. Socorro Coelho. B. H., Ed. O Lutador, 2009, p. 79
[5] S.S. Papa São Pio X, Sacrorum Antistitum.
[6]  S.S. Bento XVI, Discurso à Cúria Romana (22 de dezembro de 2005)
[7] SUHARD, Cardeal. Triunfo ou declínio da Igreja. Lisboa, 1947, p. 66.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Pequena Introdução à Filosofia


“A última palavra da razão sobre si mesma é o reconhecimento de um vazio que só as promessas cristãs poderão preencher.” 
(Pe. Leonel Franca)


 Por Saulo Eleazer

        Filosofia (etimologicamente philos sophias) é um amor à sabedoria que se objetiva na busca da Verdade à luz do Logos; uma disciplina da razão construída com processos demonstrativos de ordem intelectual. De acordo com a história, Pitágoras de Samos (± 580 – 500 a.C.) fora o primeiro a utilizar-se desta nomenclatura. Certa feita, aclamado como “sábio”, julgou-se indigno desta denominação. Pedira, então, para ser chamado, tão somente, “amigo do saber”. Esta postura, do pré-socrático revela-nos duas características essenciais num filósofo: humildade e perseverança.

        Antes, porém, de aprofundar o sentido desta ciência, é necessário ter em mente alguns dados fundamentais. Prescindir de certas informações basilares poderia nos levar a conclusões errôneas e perigosas.
        A realidade compreende duas zonas (ou ordens) especificamente unidas e intercomunicadas: uma “Natural”, acessível às luzes da razão, e outra “Sobrenatural”, cognoscível pela Divina revelação. A esta corresponde, obviamente, um conhecimento sobrenatural, a fé[1]; enquanto que àquela corresponde um conhecimento natural: estamos aqui no terreno próprio da Filosofia.

        Ora, Deus é autor de ambas as ordens, portanto, não pode haver jamais qualquer incompatibilidade ontológica entre elas. Assim como a realidade natural se submete à sobrenatural, de igual modo, o conhecimento filosófico (e o conhecimento natural como um todo) deve subordinar-se ao conhecimento sobrenatural, mantendo, entretanto, sua devida autonomia nos limites essenciais que lhe são próprios.

        Embora a filosofia possua certa autonomia na medida em que reconhece como sua a consideração e o estudo das coisas criadas como tais (isto é, sua natureza e causa), não pode, no entanto, contradizer as afirmações dogmáticas da fé cristã. [2] Esta deve ser tomada, isto sim, como regra do procedimento correto da razão, pois, “Cristo iluminou a vida, e iluminando-a envolveu também a filosofia de claridades benfazejas.” [3] Assim, a Filosofia, este saber pelos supremos princípios, porque sustentada com elementos racionais, está submetida a uma sabedoria superior que lhe eleva e robustece.

        Como se percebe facilmente, em virtude dessa subordinação, a Filosofia longe de ser desfalcada ou prejudicada, recebe da fé (e, por conseguinte, da teologia) grandes benefícios. A fé não ensina ao filósofo filosofar, nem mesmo se intromete em seus domínios próprios para sinalizar-lhe em que ponto seu raciocínio se extraviou, mas, ao contrário, se limita, tão somente, a indicar-lhe seu erro incompatível com a verdade que ela sabe ensinar com toda certeza. É o próprio filósofo quem deve recomeçar seu caminho para encontrar o desvio ocorrido durante o percurso investigativo.

        Portanto, a Filosofia, ainda que especificamente distinta do conhecimento sobrenatural, ela, como expressão que é junto a este de uma realidade total (composta de natureza e sobre-natureza, intimamente unidos), forma com ele um saber onde ambos os setores se comunicam hierarquicamente para constituir a “Sabedoria Cristã”. Deste modo, preparando-nos racionalmente para o grande benefício da iluminação cristã, assimilando e desenvolvendo as suas riquezas investigáveis, a razão acompanha-nos sempre na vida como benfeitora e amiga.

Finalmente, no universo desta sabedoria, a verdadeira filosofia não cria a realidade; é, tão somente, seu arauto. Suas resoluções são conforme as exigências do ser, assim como, da natureza de nossa inteligência; com efeito, seus conceitos se sustentam e terminam nos aspectos distintos da realidade extra-mental.


_________
Bibliografia:
_ ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mertrezou, 1960.
_ DERISI, Octávio N. Filosofia Moderna y Filosofia Tomista. Buenos Aires: Sol y Luna, 1941. 242 pg.
_ FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. 2 Ed.. Rio de Janeiro: José Olimpo, 1942. 302 pg.
_ RATZINGER, Joseph; D`ARCAIS, Paolo Flores. Deus existe? Trad.: Sandra Martha Dolinsky. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009.
_ MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. Os Filósofos do Ocidente. Vol.1. 2º edição. São Paulo: Paulinas, 1981. 232 pgs.


[1] A fé consiste num ato do entendimento submetido ao império da vontade com o auxílio da graça. Não confundir com o subjetivismo sentimentalista dos tempos hodiernos.
[2] Ao lado da doutrina revelada há um patrimônio de verdades acessíveis à razão no exercício natural de suas funções. Por exemplo, sem o auxílio da fé a razão humana é capaz de elevar-se a certo conhecimento de Deus e da lei moral. Existem, portanto, uma teodicéia e uma ética como disciplinas puramente racionais.
[3] FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. 2 Ed.. Rio De Janeiro: José Olimpo, 1942. Pág. 178.

domingo, 27 de junho de 2010

Santo, Intolerante e Radical!

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Nikon D1H

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                          Santo Inácio e São Pedro Canísio
 
 
Por Prof. Pedro M. da Cruz.
 
 
 
“A espada material, entretanto, deve esgrimir-se a favor da Igreja: a espada espiritual, pela Igreja mesma.”
(Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam, 1302)
“...a autoridade temporal se submeta à autoridade espiritual...”
(Unam Sanctam)
 
 
Vivemos num tempo de revoltas. Tudo parece conspirar contra o Cristo e sua Igreja. Líderes mundiais pautam suas decisões em mil argumentos, menos no Evangelho. Professores, editores, e, inclusive sacerdotes, preferem as novidades filosóficas à multissecular doutrina Católica, segundo eles, ultrapassada e ineficaz. Outrora, já se perguntava o Salvador: “Quando vier o Filho do homem, acaso encontrará fé sobre a terra?” [1]
Ao lado dessas discrepâncias, quantos são os “falsos profetas” que vivem a nos assediar! Invadem nossos lares por processos midiáticos; batem à nossa porta promovendo a mentira; dia e noite trabalham sem cessar... Escrevera-nos São Mateus: “Seduzirão a muitos. E, ante o progresso crescente da iniquidade, a caridade de muitos se esfriará. Entretanto, aquele que perseverar até o fim será salvo.” [2]
Santo Inácio de Loyola, em carta a São Pedro Canísio (datada em treze de Agosto de 1554[3]) revela-nos um espírito esquecido por inúmeros católicos. Seus conselhos baseiam-se na visão de um mundo consciente da verdade revelada. Este escrito, com toda certeza, escandalizará a muitos que ainda não tenham assimilado devidamente a Doutrina Cristã. Porém, isso é compreensível, dada a triste situação do mundo atual...
A nível de reflexão, poderíamos indagar sobre o estado em que se encontra a realidade brasileira. Caso seguíssemos os conselhos deste santo, será que o PT ainda estaria no poder? Perante a bagunça ideológica que embebeda nossas universidades, quais seriam os sentimentos do fundador da Companhia de Jesus? Reconheçamos: um mundo que honra abortistas e ditadores comunistas está, evidentemente, contrário ao Evangelho. Possa a Virgem Maria interceder por nós em hora tão dramática.
 
Carta de Santo Inácio à São Pedro Canísio
 
“Primeiramente, se a Majestade do Rei se confessasse não somente Católica, como sempre o fez, mas se pronunciasse abertamente contrária e inimiga das heresias, e declarasse guerra a todos os erros heréticos, parece que seria, entre os remédios humanos, o maior e mais eficaz.
Aproveitaria imensamente também não permitir a permanência no governo, sobretudo no governo supremo de alguma província ou lugar, nem em cargos de justiça nem em dignidades, ninguém que seja contaminado de heresia.
Finalmente, oxalá ficasse assentado e fosse a todos manifesto o seguinte: Não deve ser agraciado com honrarias e riquezas alguém que se convença ou caia em grave suspeita de heresia. Antes, deve ser destituído destes bens! E se aplicassem alguns corretivos, castigando a alguns com a pena da vida, ou com perda dos bens e do desterro. Tudo isso para mostrar que o negócio da religião deve ser tomado a sério. Este seria um remédio mais eficaz.
Quanto aos professores da Universidade de Viena e de outras universidades ou quem nelas exerça cargos de governo, observe-se o seguinte: se em coisas referêntes à religião católica não gozam de boa fama, devem, ao nosso ver, ser destituídos do cargo. O mesmo pensamos a respeito dos reitores, diretores e professores de colégios privados, para evitar que corrompam os jovens. Os mestres de escola e educadores deveriam entender e provar, de fato, com a experiência, que não haveria para eles lugar nos domínios do Rei, caso não fossem católicos e dessem publicamente provas de sê-lo.
Seria conveniente que, após diligente pesquisa, os livros heréticos encontrados em poder dos livreiros e de particulares fossem queimados, ou levados para fora das províncias do reino. Igualmente diga-se dos livros dos hereges, mesmo quando não heréticos, como os que versam sobre gramática, sobre a retórica, sobre a dialética, de Melanchton etc. Do mesmo modo seria de grande proveito proibir, sob graves penas, que nenhum livreiro imprimisse algum dos livros citados.
Não se deveria tolerar curas ou confessores suspeitos de heresia. Deveriam ser despojados imediatamente de todas as rendas eclesiásticas todos os que fossem declarados heréticos; pois é melhor uma grei sem pastor do que ter um lobo por pastor.
Todos os que fossem tidos como heréticos seriam infames e inábeis para todas as honras; e ainda que parecesse possível, talvez fosse prudente conselho penalizá-los com o desterro ou com cárcere, e alguma vez até com a morte.”[4]
 
✠ ✠ ✠
 

[1] Conf. S. Luc. 18, 8
[2] Conf. S. Mat. 24,11-12
[3] VIGIL, José Maria. Vivendo o Concílio. Trad. J. Alves. São Paulo: Paulinas, 1987.
[4] Claro que, em determinadas situações, cabe, por parte da Igreja, certa postura mais estratégica em vista do bem comum. “...estas liberdades, se existem causas justas, podem ser toleradas, porém, dentro de certos limites para que não se degenerem em uma insolente desordem. Onde estas liberdades se acham vigentes, usem delas os cidadãos para o bem, porém pensem sobre elas o mesmo que a Igreja pensa. Uma liberdade não deve ser considerada legítima mais do que quando supõe um aumento na facilidade para viver de acordo coma virtude. Fora desse caso, jamais.” (Leão XIII, Libertas praestantissimum, 1888)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Reinado de Cristo

285035
Por Prof. Pedro M. da Cruz.
 
“De repente, os perseguidores da Igreja de Jesus Cristo e de todos os homens entregues ao pecado perecerão...” ( Nossa Senhora de La Salette – 1846)
O que procurais?” Interpela-nos, novamente, o Cordeiro redivivo.[i]É essencial termos clareza de nossos objetivos, caso contrário, seremos como um mundo vago e às escuras. Se carecemos de meta e resolução, nos tornamos como destroços de um navio naufragado, arrastados pelo curso dos acontecimentos. Nesta perspectiva surgem as indagações: o que pretendemos com a pregação do Evangelho? Que fulano ou beltrano se convertam, e nada mais? Será que nosso escopo é, tão somente, uma sociedade mais justa, apesar das péssimas diferenças ideológicas? Buscar-se-ia, talvez, uma preparação para o Além, muitas vezes, firmada num desprezo gnóstico pelas coisas materiais, ou quiçá, um mal compreendido conforto metafísico? Qual o fim último de todos os nossos esforços? Por que trabalhamos? Qual o nosso objetivo?
Um alvo é necessário! Não podemos andar tateando, sem rumo, procurando certas melhorias aqui e acolá, como se o cristianismo fosse um mero “tapa buraco”. Sejamos claros, claríssimos: o que queremos é a transformação do mundo! Sim, de todo o mundo! Com todo o complexo de suas culturas e instituições; aniquilarmos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativar todo pensamento, reduzindo-o à obediência a Cristo[ii]; queremos uma ordem mundial que exista perfeitamente à luz do Evangelho, o Reino de Deus na terra, uma prefiguração da Sociedade Celeste.[iii]
Sabemos que o reinado temporal de Cristo, ainda que glorioso nesta terra, será uma mera sombra embaçada da futura realidade escatológica, onde todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão na terra, reunir-se-ão no Verbo encarnado para celebração da glória de Deus;[iv] mesmo assim, é imperativo que este mundo preste tributo ao Rei vitorioso, existindo ao máximo, no que lhe é possível, segundo a verdade de seus sublimes ensinamentos. “Christus vincit! Christus regnat! Christus ímperat![v]
Como podemos perceber, a Igreja possui um alto ideal de sociedade humana; de um Estado perfeitamente cristão. Ali, as nações não terão senão um único Deus, assim como, uma única fé, um único Batismo, e uma única Religião. As duas autoridades - temporal e espiritual – devidamente unidas entre sí, e reconhecendo seus legítimos limites de atuação, marcharão à luz do Evangelho com o firme propósito de sempre atuarem em plena conformidade com os ensinamentos do Divino Mestre .[vi]
Obviamente, que a Igreja fundada pelo Filho de Deus, mãe e mestra sapientíssima da verdade, sabe o momento propício de exigir dos homens aquilo que eles podem conceder. Deste modo, mesmo entendendo que a ordem social cristã seja a mais perfeita para o mundo, não afirma, no entanto, que todas as outras tentativas de organização humana sejam completamente más, uma vez que nelas há muitas características boas, que, inclusive, por serem boas, pertencem, em sua realidade mais íntima, ao próprio Salvador.[vii] Sendo assim, muitas vezes, as tolera com destreza, tendo em vista um bem maior para o futuro.
Queremos uma Cristandade! E que esta se traduza num todo, harmoniosamente ordenado, para maior glória de Deus e salvação dos seres humanos! Por ela lutamos com entusiásmo, fiéis aos nossos pastores, a exemplo dos católicos medievais, que souberam encarnar do modo mais perfeito até então alcançado, apesar das contingências históricas, o ideal cristão de sociedade temporal. Descrevendo aquela época memorável, falava-nos Leão XIII nestes termos solenes: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nesta época, a influência da sabedoria Cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre sí por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.”[viii]
Mont Saint-Michel
Restauremos esta era gloriosa! E se, no passado, a cristandade brilhou com tal fulgor perante as trevas dum mundo agonizante, agora resplandecerá com ainda maior beleza e superioridade perante o neo-paganísmo hodierno que assola nosso tempo. É próprio de Deus vingar com uma grandeza superior o dom outrora rechaçado. A cristandade, uma vez restaurada, tomará contornos imponderáveis, crescendo de requinte em requinte numa sublime manifestação das perfeições infinitas de Deus. Afinal, é este o fim de todas as coisas visíveis;[ix] e o alcançará na medida em que formos cada vez mais ousados em nossa fidelidade a Cristo, Rei do universo.
Neste sentido, o cristianismo convoca cidadãos de todas as nações, não olhando a diferença dos costumes, das leis, das instituições, e não suprimindo nem destruindo nenhuma destas coisas, mas, pelo contrário, aceitando e conservando tudo aquilo que, embora diverso, tende para um só e mesmo fim glorioso.[x] Aqui, cada nacionalidade, mantendo suas legítimas peculiaridades, tranqüilamente submissas a seus governantes, esforçar-se-á por viver absorta no oceano do Evangelho, conduzida na senda da verdade pela única Igreja de Jesus Cristo. Deste modo, todos os homens e todas as coisas estariam dispostas segundo a doutrina da Igreja, formando a verdadeira e mais perfeita ordem que pode existir entre as criaturas humanas: a maravilhosa Civilização Cristã![xi] Esta é, como temos observado, a estruturação de todas as relações e instituições humanas, sem esquecermos, do próprio Estado, à luz da realeza absoluta do Filho de Deus. Então - diz-nos Nossa Senhora de La Salette - Jesus Cristo será servido, adorado e glorificado; a caridade florescerá por toda parte. Os novos reis serão o braço direito da Santa Igreja, a qual será forte, humilde, piedosa, pobre, zelosa e imitadora das virtudes de Nosso Senhor; o Evangelho será pregado por toda parte e os homens farão grandes progressos na fé.[xii]
Não corresponde este tempo magnífico à gloriosa era de Maria profetizada por São Luiz Maria Grignion de Montfort? De fato, se foi por intermédio da Santíssima Virgem que o Redentor veio ao mundo, é também por meio dela que Ele deve reinar neste mesmo mundo restaurado.[xiii] Este, caríssimos, é outro aspecto profundo do assunto por nós tratado que merece a atenção devida em outro artigo. Por hora, voltemos à nossa reflexão, sem tocarmos, por exemplo, no período tenebroso de tribulações, que após este interstício providencial, assolará os eleitos nos tempos do Anticristo, denso palco da Parusia.[xiv]
Por certo é à Igreja que pertencem os meios próprios para promover a salvação das almas; mas, a sociedade e o Estado têm os meios instrumentais para o mesmo fim, cabendo a eles, como um corpo que é conduzido por sua alma, agirem em harmoniosa conformidade com a autoridade espiritual. Por isso, escrevia-nos o grande São Pio X, que somente através da religião verdadeira poder-se-á gerar no mundo uma verdadeira civilização;[xv] o que torna, mais uma vez gritante, a certeza comprometedora de que, cabe à Igreja Católica, dada a ordem das coisas, um papel tão indubitável quanto necessário, na implantação de um sistema de coisas onde todas as ações particulares dos homens, assim como, todas as leis, costumes, instituições e manifestações artísticas da humanidade, sejam os meios ideais para alcançarmos a salvação eterna.[xvi] Com efeito, movidos por um agente mais alto e sublime, a sociedade e o Estado produzirão um efeito superior a si mesmos, para a maior glória de Deus.[xvii]
É ousada a pretensão do catolicismo! E como poderia deixar de sê-lo? Temos a convicção de que com Deus faremos proezas.[xviii]Mas, não é verdade que, ainda no fim dos tempos, encontrar-se-á o joio em meio ao trigo? Sim, foi exatamente o que nos profetizou o Mestre divino.[xix] Como pensar então numa Civilização Católica onde coexista a verdade e a mentira, o bem e o mal? Não seria um contra-senso, um disparate? Lembremo-nos, no entanto, que até mesmo a desgraça do ímpio contribui para manifestar a justiça do Pai celestial.[xx] Se, ao lado da futura cristandade, ainda encontraremos o espectro sombrio do mal, isso se dará para realçar com mais impacto a santidade dos bons. Porém, quando chegar o perfeito, o imperfeito desaparecerá,[xxi]e após a volta gloriosa do Salvador, reinará a luz absoluta e nela não haverá treva alguma.[xxii]
Finalmente, nos recordamos das sábias palavras de Leão XIII ao Cardeal Gibbons. Ele afirmava, acertadamente, que é por meio do homem que o homem deve conhecer o caminho da salvação. Não esperemos, portanto, a realização gloriosa do reinado temporal de Cristo independente de todo esforço humano. Nosso suor e nossas lágrimas regarão o solo donde nascerá a verdadeira civilização cristã. Ratifiquemos, com gravidade, que estamos diante de questões realmente cruciais! Usemos, pois, os meios humanos como se os divinos não existissem, e os divinos como se não existissem os humanos - já nos ensinava Santo Inácio de Loyola.
Se a alma cristificada participa dos sonhos do Redentor,[xxiii] então, uma conformidade de desejos se impõe; concomitantemente, querer-se-á, por exemplo, uma atmosfera cultural que favoreça, ao máximo, as melhores condições de desenvolvimento pessoal e coletivo rumo ao mais perfeito cumprimento da vontade de Deus. Ou, não seria esta a vontade de Cristo? De fato, tudo deve propiciar o culto devido ao Criador e a salvação das almas.
É óbvio – ressaltemos - que o Reino de Cristo, propriamente dito, não pertence a este mundo, Ele mesmo o afirmou categoricamente; [xxiv]sabe-se, entretanto, que há uma relação íntima entre as coisas espirituais e aquelas que se dão entre nós. A ordem temporal deve, neste sentido, prefigurar, majestosamente, as realidades sobrenaturais![xxv] Pela própria natureza das coisas, a sociedade e o Estado, assim como todas as manifestações da inteligência humana, possuem o dever gravíssimo de transformarem-se, progressivamente, numa imagem sempre mais tangível e perfeita, das inexprimíveis maravilhas celestiais. Somente assim cumprirão seu objetivo, oferecendo à criatura o auxílio necessário à consecução do fim glorioso ao qual fora chamada: a Bem-aventurança eterna!

[i] S João 1,38
[ii] II Coríntios 10, 5
[iii] Apocalipse 21, 22-23
[iv] Efésios 1,9-12
[v] Tradução: “Cristo vence! Cristo reina! Cristo impera!”
[vi] JOSE GUIMARÃES, Pe. Fernando. Conferências da assunção, Pe. Júlio Maria. I Série, 1897. São Paulo: Editora Santuário, 1988. Pg . 171. Sabemos que o sumo Pontífice possui um poder direto sobre as coisas espirituais e um poder indireto sobre as coisas temporais, enquanto dizem respeito à salvação das almas.
[vii] S. Tiago 1,17
[viii] Leão XIII, Encíclica Immortale Dei, de 1885
[ix] Romanos 1,19-21
[x] João Paulo II. Carta Apostólica sobre Santo Agostinho de Hipona. Documentos Pontifícios, Nº 210. Petrópolis: Vozes, 1986. Pg. 19. Ver também, Gaudium et Spes – 58: “A Igreja purifica e eleva incessantemente os costumes dos povos. Com as riquezas do alto ele fecunda, como que por dentro, as qualidades do espírito e os dotes de cada povo e de cada idade, fortifica-os, aperfeiçoa-os e restaura-os em Cristo.”
[xi]Jamais se deve perder de vista que o objetivo da Igreja está na evangelização e não na civilização. Se ela civiliza, é para evangelizar.” (Pio XI ao Exmo. Sr. Roland-Gosselin / Gaudium et Spes – 58)
[xii] Conf. Revista Catolicismo, Nº 669 – Setembro 2006 – Ano LVI.
[xiii] DE MONTFORT, S. Luiz Maria Grignion. Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Vírgem. 30º Edição. Petrópolis: Vozes, 2002. Fim do prefácio do Pe. F. W. Faber, e a introdução na pg. 17.
[xiv] S. Mateus 24. O texto faz referência não só às tribulações que precederão imediatamente a volta gloriosa de Cristo, como também às vicissitudes que acompanham a Igreja ao longo dos séculos. Mesmo no tempo em que se implantará uma era mais gloriosa para a Igreja, estará em efervescência no íntimo dos maus os complôs, aqui e acolá insinuados, contra a justiça implantada por Deus entre os homens, que por não ser absoluta, e sim profético- escatológica, se esfriará devido à apatia e cegueira dos bons. Mas, as coisas seriam mais diferentes se os homens fossem melhores e correspondessem à graça do bom Deus... no mais, a única ordem absoluta é o Reino de Deus na eternidade.
[xv] Carta ao Episcopado Francês, de 28 de Agosto de 1910, sobre “Le Sillon
[xvi] Explica-nos o Vaticano II que a Comunidade política existe por causa de um bem comum, e que este compreende o conjunto daquelas condições de vida social, que permitam aos homens, às famílias e às sociedades poderem conseguir mais fácil e desembaraçadamente a própria perfeição. (Gaudium et Spes – 74)
[xvii] DE OLIVEIRA, Plinio Corrêa. Revolução e Contra-Revolução. 4º Edição em Português. São Paulo: Artpress, 1998. Pg. 60.
[xviii] Salmo 107, 14 (Heb.108)
[xix] S. Mateus 13,41
[xx] Provérbios 16,4; Romanos 9,21-24
[xxi] I Coríntios 13,10
[xxii] I S. João 1, 5
[xxiii] S. João 17, 21-23
[xxiv] S. João 18, 36
[xxv] Basta observar, por exemplo, a relação que se faz entre Jerusalém e a glória eterna. Conf. Apo. 21; e também: Sal.19,1: “ Narram os céus a glória de Deus ...”