sábado, 24 de dezembro de 2011

BENESSES DO SANTO NATAL



                                                                                            

“Hoje sabereis que o Senhor vem e vos salva, amanhã vereis a sua glória!” (Missal Romano)

“Ó feliz culpa...” (Santo Agostinho)

  Por R. G. dos Santos

    
“... Que dá ao orbe de Deus” a possibilidade de receber a promessa do Messias, broto estrondoso saído de Maria Santíssima, síntese da obra da criação. Eis que o grande dia vem e já está às portas! Contemos as horas e os minutos... Eis diante de nós o Natal do Senhor! 

Esse insigne acontecimento - inserindo-se na rica e pedagógica dinâmica da Redenção do Mundo já prometida por Deus Nosso Senhor a Adão no jardim da queda - nos enche de consolo e nos ensina uma serie de verdades lapidares que gostaríamos de descrever abaixo.

Em primeiro lugar, vem o Logos Eterno fazer-se Homem para reparar com justiça a Divindade traída pela soberba do homem. Fazendo-se Senhor de si e medida de tudo, julgou a humana criatura – desgraçadamente – estar acima do bem e do mal, obnubilando em si mesma a presença de Deus. Como fugir de Deus é impossível, dada sua onipresença, tenta o humano em vão se esconder do Altíssimo que tudo vê. As folhas de bananeira não conseguem esconder a fealdade do pecado... E ofensa ao Onipotente requer reparação em igual nível. 

Contudo tal reparação, ato de justiça, deveria, logicamente, incluir uma justa punição. O homem deveria ser exterminado da face da terra pela traição orquestrada que fez a Deus! Daí que, em segundo lugar, a encarnação e nascimento do Verbo humanado trás à baila esta certeza: Deus ama com largueza o ser humano, dele nunca desistindo apesar de sua fragilidade. O Verbo Divino, “assumindo a condição de um escravo”, terá como missão precípua “procurar e salvar o que já se dava por perdido”. Ele vem endireitar a vida torta do gênero humano propondo a este uma volta sincera ao coração do Pai com a entrega generosa de sua vida adorável.

Por fim poderíamos citar aqui a última das lições lapidares por nós escolhidas. Por meio desta solenidade, recordamos que a Encarnação de Deus e a assunção da condição humana que Ele faz em quase todas as suas dimensões, exceto o pecado, é como que um selo que atesta a bondade da obra de Deus! A matéria é boa! De Deus “não sai”, digamos nada de ruim! O homem, apesar de sua tendência à malícia, pode ordenar com retidão sua vida para o bem, bem usando retamente os dons da criação. O corpo é bom, ó gnósticos, puritanos e maniqueístas! Submetei-vos ao bom Deus!

Estas são as palavras que gostaríamos de acentuar acerca do Santo Natal. Voltemo-nos para a manjedoura posta na singela gruta de Belém e adoremos o “Senhor Menino”. Que a candura e fragilidade da natureza humana, da qual o Divino Infante se reveste, seja para nós motivos suficientes para a Ele nos voltarmos com fervor, cuidado e afeto.


Laudate Dominum!
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REFERÊNCIAS                                                                     
BIBLIA DE JERUSALÉM
MISSSAL ROMANO

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

China comunista: implacável perseguição anticatólica

Padre Cervellera

“A estrangeiros parece que a China mudou, quando, de fato, sempre foi assim. Há perseguição contínua, cuja extensão pode ter variado, mas nunca cessou”

Bispos, sacerdotes e leigos católicos são presos, mandados para campos de trabalhos forçados, torturados e executados. Entretanto, apesar de tão atroz perseguição, cresce o número de católicos na China. “O martírio de um católico conduz à conversão de outros”, afirma o Pe. Bernardo Cervellera, do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras.
Atualmente fala-se muito sobre a China, mas pouco se sabe a respeito da verdadeira situação dos católicos chineses. A fim de proporcionar a nossos leitores uma ideia do que está ocorrendo naquele país, Valdis Grinsteins, colaborador de Catolicismo, entrevistou em Roma o Pe. Bernardo Cervellera, do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras, considerado o maior especialista romano sobre a Igreja na China. Professor na Universidade Beida, em Pequim (de 1995 a 1997) e diretor da Agência de imprensa vaticana “Fides” (de 1997 a 2002), ele é o atual diretor da prestigiosa Agência “AsiaNews” (www.asianews.it).
  
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CatolicismoCircularam ultimamente muitas notícias sobre um esfriamento das relações entre a China e o Vaticano. O que há de certo nisso?
Pe. Cervellera — Sou convidado algumas vezes a participar de encontros com industriais italianos que me perguntam sobre a China. Quando me refiro às perseguições que sofrem lá os católicos, ficam surpresos. Porque hoje muitíssimas pessoas possuem uma imagem turística da China, aliada a uma noção confusa oriunda de notícias que informam sobre a quantidade de arranha-céus construídos nas grandes cidades, da existência de grande número de automóveis Ferrari, do aumento da renda média do trabalhador chinês, etc. Pensam tais pessoas que, pelo fato de a China estar apresentando aparentes mudanças do comunismo para o capitalismo, a situação dos direitos humanos também se alterou. Acompanho há 20 anos a situação chinesa e posso afirmar que, se do ponto de vista geográfico muita coisa mudou (novas autopistas, condomínios, trens, etc.), por outro lado, a perseguição religiosa manteve-se sempre constante.
Houve há poucos meses sagrações ilícitas de bispos, ou seja, sem mandato papal. Nos últimos quatro anos ocorreram cinco dessas sagrações. Alguns bispos débeis ou timoratos foram obrigados a participar das mesmas, tendo sido conduzidos à força pela polícia. Isto é algo que não se registrava desde a época da Revolução Cultural dos anos 50 e do início do maoísmo. Época na qual se tentava criar uma igreja nacional composta de padres e bispos sob a direção do Partido Comunista Chinês. Na teoria, uma igreja independente de Roma; na prática, dependente do governo comunista. Perguntei recentemente a um católico chinês sobre a mudança de rumo do governo. Ele simplesmente respondeu-me dizendo que para os estrangeiros parece que a China mudou, quando ela, de fato, sempre foi assim. Há uma perseguição contínua, cuja extensão pode ter variado um pouco, mas nunca cessou desde que os comunistas tomaram o poder em 1949.


CatolicismoOs bispos chineses fiéis ao papado continuam sendo presos?
                          Stalin e Mao Tsé-Tung



Pe. Cervellera — Por uma sugestão de Stalin a Mao Tsé-Tung, o Partido Comunista Chinês quis inicialmente exterminar a Igreja, mas isto não funcionou. Criaram então, em 1957, a Associação Patriótica, a qual ficou encarregada pelo Partido Comunista de controlar a Igreja. Já o Papa Pio XII condenou essa associação em 1958 e declarou que os bispos que sagrassem outros bispos escolhidos por ela estavam excomungados. Todos os bispos que se opuseram, nos anos 50, a essa manobra comunista, terminaram na prisão, sendo obrigados a permanecer 20 ou 30 anos sob o regime de trabalhos forçados. Por exemplo, o bispo de Xangai, D. Ignatius Kung; o bispo de Booding, D. José Fan Xueyan; o bispo de Cantão, D. Dominic Tan Yee-Ming, e tantos outros. Há ainda vários bispos “clandestinos” — ou seja, que se negam a fazer parte dessa Associação Patriótica — os quais se encontram nas mãos da polícia. É o caso, por exemplo, de D. Jacobo Su Zhimin, há 15 anos nessa situação. Ele está desaparecido e sem sinais de vida. E isso só por não querer fazer parte da Associação Patriótica. Também o bispo de Yixian, D. Cosme Shi Enxiang, encontra-se nas mãos da polícia há 10 anos. De forma totalmente ilegal, apesar das poucas leis existentes na China. Estamos preocupados, porque muitos bispos que a polícia fez desaparecer, reapareceram depois... mortos.
Foi o caso, entre outros, de D. José Fan Xuyean, bispo de Booding. Após passar três meses nas mãos da polícia, em 1992, seu cadáver foi deixado diante da porta de sua casa, envolto em papel celofane. Seus familiares constataram que ele tinha sido torturado brutalmente, a ponto de ter uma de suas pernas quebrada. Era um ancião de 90 anos, que já havia passado 32 anos na prisão.
Há poucos anos ocorreram outras mortes. Em 2007, alguns meses antes das Olimpíadas (esta celebração da modernidade da China...), um dos prelados da província Hebei, D. Giovanni Han Dingxian, bispo de Yongnian, reapareceu num hospital após seis anos de detenção. Seus familiares encontraram-no moribundo. De fato, ele faleceu às 23 horas daquele mesmo dia. Seu corpo foi cremado e sepultado às 5 horas da manhã, sem a presença dos familiares. Os fiéis julgam que a cremação foi efetuada para evitar as provas que derivariam da autópsia.

*“O bispo de Booding, após passar três meses nas mãos da polícia, em 1992, teve seu cadáver deixado diante da porta de sua casa, envolto em papel celofane”

CatolicismoQual é a situação atual dos bispos “subterrâneos”, considerados “ilegais” pelo regime comunista?
   Missa clandestina de católicos chineses





Pe. Cervellera — Existem na China 37 bispos “subterrâneos”, ou seja, que não pertencem à igreja oficial, controlada pela Associação Patriótica. Esses bispos encontram-se em prisão domiciliar; estão isolados, não podem exercer seu ministério. O mais velho deles é o bispo de Zhengding, D. Julio Jia Zhiguo, muito estimado pela população. Ele mantém 200 meninos abandonados, sobretudo deficientes físicos, que não são aceitos por motivos culturais. O bispo lhes proporciona roupa e alimento, cuida dessas crianças com a ajuda de algumas freiras. Ele é vigiado dia e noite por quatro policiais, para que não possa sair de casa nem se encontrar com quaisquer pessoas. Sua “culpa”: não querer renunciar a seus vínculos com o Papa. Muitas vezes é preso e levado para “férias” forçadas, a fim de receber doutrinação política do Partido Comunista sobre a grandeza de seu programa e de como se deve dar adesão ao mesmo.
Atualmente até os bispos da igreja oficial — de obediência ao governo — estão na mira do Partido Comunista. Não é uma perseguição na qual eles são conduzidos a campos de trabalhos forçados ou fuzilados, mas são controlados. Desde 2006, quando das novas sagrações ilegais, eles são seguidos e controlados em suas viagens pastorais. Por que este medo do governo? É que, graças ao trabalho dos Papas, quase todos esses bispos da igreja oficial — sagrados mediante intervenção do partido e sem permissão papal — escreveram ao Vaticano pedindo perdão pela sua situação, tendo sido reintegrados na comunhão católica. Quando o Papa Bento XVI escreveu uma carta aos católicos da China, em 2007, ele a enviou indistintamente aos bispos da Igreja Católica, não fazendo distinção entre aqueles que eram fiéis e os que não eram.

* “Nos anos 50 os comunistas queriam destruir todas as religiões. Convencendo-se de que não o conseguiam, tentaram então criar religiões nacionais”

CatolicismoSe há tantos bispos que tiveram de pedir perdão ao Papa por estarem ligados à Associação Patriótica, por que o governo tem tanto medo deles?
Pe. Cervellera — Porque a Igreja Católica chinesa é hoje muitíssimo mais unida que no tempo da Revolução Cultural ou nos anos 80. Este é o ponto importante e o que explica o aumento da perseguição. A unidade da Igreja na China é um dos grandes fracassos do Partido Comunista Chinês. Nos anos 50 eles queriam destruir todas as religiões. Convencendo-se de que não o conseguiam, tentaram então criar religiões nacionais — seja a budista, a islâmica, ou igrejas protestantes nacionais. E, transcorridos 60 anos, na prática, a Igreja Católica é hoje mais unida do que antes. É por isso que a Associação Patriótica — cujo novo presidente é paradoxalmente um bispo em comunhão pessoal com o Papa — deseja a sagração de bispos ilegítimos, a ponto de forçar um bispo excomungado a ser presidente de um organismo subordinado a ela, a conferência dos bispos da igreja patriótica. Este é um modo de misturar as coisas, criar divisão e confusão generalizada.
A situação é muito dura. Os bispos oficiais [subservientes ao regime] e os “subterrâneos” [obedientes a Roma] são muito controlados. Fiscalizam-se todos os seus encontros e discursos, são levados à força a reuniões onde os obrigam a ouvir dissertações sobre a política do partido, além de serem isolados, para não receberem o reconforto e o apoio da Igreja.
Em maio, por ocasião da festa da Padroeira da China — Nossa Senhora de Sheshan, próximo de Xangai — Bento XVI pediu orações pela Igreja naquele país e, sobretudo, pelos bispos, para que não defeccionem. E para que não sejam derrotados pela tentação de oportunismo, ou seja, de uma vida cômoda e de não perseguição. Uma vida tranquila é melhor do que uma vida isolada. E a Associação Patriótica exerce esse tipo de perseguição, vencendo o coração pelas suas debilidades. Infelizmente, há pessoas que por oportunismo desejam se tornar bispos, ou seja, ser promovidas a tais pelo partido, receber honrarias, uma residência cômoda e nova e, de vez em quando, lembrar-se do Papa na oração. É preciso rezar muito por elas.


CatolicismoPoder-se-ia então afirmar que o Partido Comunista está preocupado porque não consegue controlar a Igreja?
Pe. Cervellera — O partido não está tão preocupado com o controle da Igreja Católica quanto com a difusão dela. O cristianismo difunde-se muitíssimo na China. E isso não obstante serem necessários três a seis meses de catecismo, assistência à missa, participação nas orações, etc. Há anualmente pelo menos 150.000 adultos – não nos referimos às crianças – que se fazem batizar. Enquanto o governo prega que a riqueza é o mais importante, as pessoas procuram a vida espiritual. Este é o motivo da perseguição. Enquanto os direitos humanos forem comer, beber, vestir, etc., o partido pode controlar. Ele pode permitir que se construa uma casa ou que se vista com roupas Armani; permite a satisfação das necessidades materiais. Mas quando surgem necessidades espirituais, o partido não sabe o que fazer e teme que as pessoas escapem de seu controle. Para os comunistas, as religiões devem ser controladas ou eliminadas. Isto cria problemas para o partido, porque na China está ocorrendo um grande renascimento religioso. Nós afirmávamos isto anos atrás e não nos davam crédito. Hoje se trata desse tema com frequência, existindo abundante documentação a respeito. Fala-se do regresso de Deus à China. As pessoas procuram algo mais do que o materialismo.
CatolicismoQue tipo de pessoas se convertem ao catolicismo?
Pe. Cervellera — Todo tipo de pessoas. Mas existe uma categoria que chama especialmente a atenção. Convertem-se ao catolicismo antigos — e dos mais ardorosos — membros do Partido Comunista, que estão desiludidos pelo que ali se faz. Eles vêm que estão nas mãos de um grupo que os utiliza para ganhar dinheiro — com o qual, por sua vez, financiam o partido para que este controle o povo. Notam haver uma grande simbiose entre capitalismo e comunismo. Estão desiludidos com a insensibilidade do partido diante das necessidades das pessoas. O salário dos trabalhadores é dez vezes menor que no Ocidente, não existem auxílios de seguridade social, etc. Estes desiludidos aproximam-se da Igreja. Por exemplo, um ativista que criou um sindicato não oficial e que havia estado no massacre da Praça de Tiananmen tornou-se católico.


CatolicismoExiste alguma possibilidade real de a Igreja mudar a situação na China?
Pe. Cervellera — O que teme o partido é que haja uma fusão entre a busca dos valores espirituais e a tensão dentro da sociedade. Existe nisso algum nexo. Esta tensão aparece em situações que são relativamente pouco conhecidas, mas na China há anualmente 180 mil rebeliões sociais. O governo as chama de “incidentes de massa”. São pessoas que se rebelam devido às injustiças, porque confiscaram suas casas, contaminaram os rios e não há água para beber, por problemas de transporte, saúde, etc.
Os ex-comunistas que se tornam religiosos procuram alguma dignidade para as pessoas, e o fundamento para isso é religioso. O homem possui direitos inalienáveis. Ao Estado incumbe reconhecê-los, e não se arvorar em deter poderes para concedê-los ou não. Se o homem não tivesse uma dimensão religiosa ele seria apenas um objeto nas mãos do poder. As pessoas procuram os fundamentos espirituais do direito do homem.
Um advogado cristão que defendia pessoas perseguidas por sua fé, foi sequestrado pela polícia, torturado, colocado em situação de isolamento, sem poder comer, etc. Ao ser liberado, em junho último, ele denunciou tudo quanto sofreu. Isso antes não acontecia. As pessoas começam a denunciar os maus tratos recebidos e perdem o medo que tinham. Para o governo, esta mistura de rebelião social aliada à busca de fundamentos religiosos e de coragem pode ser fatal.
CatolicismoÉ conhecido o dito de Tertuliano de que “o sangue dos mártires é semente de cristãos”. O Sr. conhece algum caso na China que nos pudesse contar?
Martírios na China, durante a perseguição anticatólica de 1900

“Para os comunistas, as religiões devem ser eliminadas. Isto cria problemas para o partido, porque na China está ocorrendo grande renascimento religioso”
 

Pe. Cervellera — Recentemente entrevistei um chinês que acabava de se converter ao catolicismo. Eu queria saber o que o havia levado a abraçar a fé. Ele contou-me que tudo começou quando a polícia deteve um de seus vizinhos. Intrigado sobre o motivo da detenção de alguém tão tranquilo e normal como esse vizinho, foi perguntar aos familiares dele. Estes lhe disseram que havia sido preso por ser católico. Isto chamou sua atenção, pois o que podia uma fé ter de importante quando o mais valorizado na sociedade era possuir bem-estar material, comodidades e reconhecimento social? Como não entendia, começou a estudar os fundamentos de nossa Religião e constatou que a fé é o bem mais importante da vida. É por ela que arriscamos tudo o que temos. É a mais preciosa pérola. Como resultado, decidiu se converter e foi batizado. O martírio de um católico conduz à conversão de outros.

Virgem Santíssa, mãe dos Católicos, Rogai por nós!

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Fonte: Revista Catolicismo ( www.catolicismo.com.br )

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

SOBRE A POSSIBILIDADE DE CONHECER À LUZ DA METAFÍSICA DE ARISTÓTELES

Aristóteles
 

Por R. G. Santos                                                                                            

INTRODUÇÃO
No início do livro I da Métafísica vemos um abordar didático da temática do conhecimento. É nesse sentido que já em suas primeiras linhas assevera o Filósofo que “todos os seres humanos naturalmente desejam o conhecimento” (980 a 22).
Tal é, portanto, o objetivo do texto que se segue: compreender e explicar as etapas do ato de conhecer em Aristóteles. Para isso iremos descrever e comentar as subdivisões ou etapas da epistemologia aristotélica para que, ao fim e ao cabo, tenhamos instaurado um entendimento coerente do assunto.
CONHECIMENTO DOS PARTICULARES
Primeiramente, faz-se necessário estabelecer uma primeira subdivisão, suscitada pela leitura do fundador do “peripato”.
Existem dois parâmetros norteadores para a intelecção do conhecer no nosso autor. Uma classe de conhecimentos é agrupada no âmbito dos particulares, por dependerem mais diretamente do contato com o objeto na sua realidade singular. Outra já considera, feitos os progressos e as abstrações necessárias na sensibilidade, os universais no que se referem aos conceitos.
No primeiro parâmetro, a saber, no “universo” das etapas do conhecimento que dependem proximamente do contato com os entes particulares, temos os níveis da sensação, da memória e da experiência.
Na sensação, ou seja, no contato direto com o objeto particular que se apresenta diante do sujeito, temos uma primeira instância de conhecimento. Nela consegue-se captar as impressões sensíveis das coisas. Tal captação se dá ao nível dos sentidos e é possível aos seres animados. O “estagirita” aqui dá ênfase à mediação do sentido da visão, quando faz sugerir que a mesma é condição mais propícia para o conhecimento[1].
Na memória, segunda etapa para a aquisição do conhecimento, se dá a retenção vinda da impressão sensível ou do contato com dado ente na realidade. Tal capacidade já é inerente a um grupo mais reduzido de seres animados. Dessa forma, se lê na Metafísica que somente são capazes de aprender aqueles animais que possuem sentidos anexos à faculdade de reter da memória[2].
Outra etapa diz respeito à experiência. Ela se constitui como degrau no processo de conhecimento em dependência da “ação” da memória. Afinal de contas, “(...) as numerosas lembranças de uma mesma coisa acabam por produzir o efeito de uma única experiência”(980 a 1).
CONHECIMENTO DOS UNIVERSAIS
A partir da experiência podemos ascender a níveis mais “rebuscados de conhecimento. E aqui passamos a tratar de outra instância epistemológica: a referente aos conhecimentos dos universais.
Na relação de muitas e semelhantes noções de experiências formadas pelas “retenções” feitas pela Memória de impressões sensíveis tem-se a arte. Esta, na concepção aristotélica, “(...) é produzida quando a partir de muitas noções da experiência forma-se um só juízo universal relativamente a objetos semelhantes” (981 a 6).
No vértice de tudo o que mencionamos, tem-se a ciência como instância máxima de conhecimento. Ela transcende a arte e a técnica que são assimiladas pela mera repetição, dando explicações plausíveis e nítidas dos fenômenos da experiência. A ciência dá a razão de ser das coisas e dos fatos. Assim sendo, o cientista (ou sábio) está para além dos outros níveis por conseguir inteligir “certos princípios e causas” (982 a 2).
São estas, portanto, as considerações que julgamos relevante pontuarmos nestas linhas. Tal exposição nos permite compreender e perceber a originalidade da idéia aristotélica do conhecimento.
Afinal, rompendo com o modo platônico de pensar, ele valoriza a acesso aos sentidos como condição legítima para a aquisição do conhecimento, isso sem descurar o aspecto supra-sensível do mesmo. Nele, percebemos ainda um maior vínculo entre imanência e transcendência no processo epistemológico.

Maria Santíssima, Rogai por nós.

Referências
ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2006.



[1] Cf. 980 a 26
[2] Cf. 980 b 25

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O Cardeal Ratzinger e o Missal de Paulo VI

Paulo VI

    
     O segundo grande acontecimento no início de meus anos de Ratisbona foi a publicação do missal de Paulo VI, com a interdição quase completa do missal anterior, depois de uma fase de transição de cerca de seis meses. O fato de que, depois de um período de experiências que não raro haviam desfigurado profundamente a liturgia, se voltasse a ter um texto litúrgico obrigatório, devia ser saudado como algo de certamente positivo. Mas fiquei pasmo com a interdição do missal antigo, uma vez que nunca ocorrera algo parecido em toda a história da liturgia.


     Deu-se a impressão de que isso fosse completamente normal. O missal anterior fora realizado por Pio V em 1570, dando seqüência ao Concílio de Trento; era, pois, normal que, depois de quatrocentos anos e um novo Concílio, um novo papa publicasse um novo missal. Mas a verdade histórica é outra. Pio V limitara-se a mandar reelaborar o missal romano então em uso, como no decurso vivo da história sempre ocorrera ao longo de todos os séculos. Não diferentemente dele, também muitos dos seus sucessores haviam novamente reelaborado esse missal, sem nunca contrapor um missal a outro. Sempre se tratou de um processo contínuo de crescimento e de purificação, em que, porém, a continuidade jamais era destruída.


     Não existe um missal de Pio V que tenha sido criado por ele. Existe só a reelaboração por ele ordenada, como fase de um longo processo de crescimento histórico. O novo, depois do Concílio de Trento, tinha outra natureza: a irrupção da reforma protestante ocorrera sobretudo sob a forma de "reformas" litúrgicas. Não havia simplesmente uma Igreja católica e uma Igreja protestante uma ao lado da outra; a divisão da Igreja deu-se quase imperceptivelmente e teve a sua manifestação mais visível e historicamente mais incisiva na mudança da liturgia, que, por sua vez, foi muito diversificada no plano local, tanto que as fronteiras entre o que ainda era católico e o que não mais o era, muitas vezes eram muito difíceis de definir. Nessa situação de confusão, possibilitada pela falta de uma norma litúrgica unitária e pelo pluralismo litúrgico herdado da Idade Média, o Papa decidiu que o Missale Romanum, o texto litúrgico da cidade de Roma, uma vez que seguramente católico, devia ser introduzido em todos os lugares onde não se pudesse reivindicar uma liturgia que datasse de pelo menos duzentos anos antes. Onde isto ocorria, podia-se conservar a liturgia precedente, dado que o seu caráter católico podia ser considerado certo. Não se pode de fato, pois, falar de um interdito em relação aos missais anteriores e até aquele momento regularmente aprovados. Agora, ao contrário, a promulgação da interdição do missal que se desenvolvera ao longo dos séculos, desde o tempo dos sacramentais da antiga Igreja, implicou uma ruptura na história da liturgia, cujas conseqüências só podiam ser trágicas.

Ratzinger
  Como já ocorrera muitas vezes antes, era totalmente razoável e estava plenamente em linha com as disposições do Concílio que se chegasse a uma revisão do missal, sobretudo em consideração da introdução das línguas nacionais. Mas naquele momento ocorreu algo mais: fez-se em pedaços o edifício antigo e se costruiu um outro, ainda que com o material de que era feito o edifício antigo e utilizando também os projetos anteriores. Não há nenhuma dúvida de que esse novo missal continha em muitas das suas partes autênticas melhorias e um real enriquecimento, mas o fato de que ele tenha sido apresentado como um edifício novo, contraposto ao que se formara ao longo da história, que se proibisse este último e se fizesse de certo modo a liturgia aparecer não mais como um processo vital, mas como um produto de erudição especializada e de competência jurídica, trouxe-nos danos extremamente graves.


     Foi assim, de fato, que se desenvolveu a impressão de que a liturgia seja "feita", que não seja algo que existe antes de nós, algo de " dado", mas que dependa das nossas decisões. Segue-se daí, por conseguinte, que não se reconheça esta capacidade decisional só aos especialistas ou a uma autoridade central, mas, em definitivo, cada "comunidade" queira fazer sua própria liturgia. Mas quando a liturgia se torna algo que cada um faz por si mesmo, ela não nos dá mais aquela que é a sua verdadeira qualidade: o encontro com o mistério, que não é um produto nosso, mas a nossa origem e a fonte da nossa vida.


Maria Santíssima, rogai por nós!



Cardeal Ratzinger, A Minha Vida.
Em negrito - Grifos nossos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Necessidade da Igreja Católica

      A alma humana é sedenta de um bem absoluto. Um bem que não pode ser tirado, um bem que não é perecível, um bem já adquirido. Por isto nada do que é material satisfaz o homem.

 O homem tem sede de infinito. Um ser finito ter sede do infinito é como uma formiga desejar beber todo o oceano. Uma formiga por sua natureza não deseja beber toda a água do oceano. Somente os animais, os insetos, os vermes é que se contentam com a matéria. Isto mostra que o homem vive para alcançar um objetivo sobrenatural.
O homem possui duas faculdades principais, que são a inteligência e a vontade.

Inteligência sedenta da Verdade Plena
Falemos primeiro da inteligência: qual é o objetivo da inteligência? Seu objetivo é conhecer.
O homem durante anos e até mesmo séculos estudou profundamente. Seus estudos abrangram deste o átomo até os astros do universo. Mas, mesmo depois disto tudo ele ainda continua insaciado. Ele não pode parar, pois, pará-lo antes de atingir o infinito é frustrá-lo.
A inteligência tem sede de luz infinita, de certeza plena, embora seja finita e limitada. Por isto, a única coisa que pode saciar a inteligência humana é a Verdade. Deus o criou para conhecê-la.
A inteligência humana tem sede de verdades eternas, imutáveis. Possui sede de princípios sólidos e constantes. E somente a Verdade é imutável, eterna, sólida e constante; e a Verdade é Deus. Por isto é que a fé, e não a ciência, é que pode dar ao homem esse conhecimento pelo, absoluto, isento de dúvida.

Vontade sedenta do Amor Pleno
Lembrememo-nos da vontade, a outra faculdade básica do homem, que é a capacidade de querer, de amar. O objeto desta faculdade é o bem, o amor.
Enquanto a inteligência busca a certeza plena, a vontade busca a felicidade plena, absoluta, imperecível. Por isto, não se satisfaz com o bem relativo, passageiro, perecível. Estes bens podem até encantar, mas conquistados, mostram-se insuficientes para saciar a sede da vontade humana. Somente o amor, que dá a posse de Deus, Bem Pleno e Absoluto, pode satisfazer a vontade humana
A medida do armor é amar sem medidas - Agostinho
Aquilo que é constante faz parte da natureza. Ao observarmos as formigas sempre trabalhando, dizemos que elas são trabalhadoras; ao observarmos os pássaros voando, dizemos que são voadores. Ao vermos as pessoas falando, dizemos que falar faz parte da natureza humana. O mesmo acontece com a religião, que é uma constante na história da humanidade, em todas as nações e em todas as épocas. Por isto, a sede de Deus faz parte da natureza humana. Negar o desejo de se alcançar Deus é agir contra a própria natureza do homem.
Assim como uma mulher que se utiliza de meios anticoncepcionais está agindo contra a natureza, o ateu ao negar a concepção de Deus em seu coração, também faz o mesmo.
Uma constante na natureza dos seres criados é desejo de se alimentar. Seria muito estranho que Deus nos tivesse criado com o desejo pelo alimento, sem nos dar meios de nos alimentar. Deus nos criou dependentes de algumas coisas; mas de coisas que existem, que estão ao nosso alcance. Da mesma forma não poderia ter criado o homem com sede Verdade e Felicidade Plenas, se elas não estivessem ao seu alcance.

O Alcance da Verdade Plena
Portanto, Deus oferece ao homem meios de alcançar o que por sua natureza tanto deseja. Mas embora por nossa limitação possamos alcançar as coisas que dependemos (alimentos, educação, moradia e etc), a inteligência humana não é capaz de conhecer sozinha a Verdade que está acima dela. Pode apenas vislumbrar siluetas da Verdade Absoluta, como fizeram os grandes pensadores pagãos.
Stº Tomas - Inspirado por Deus
Assim como um pai dá a seu filho um brinquedo desejado que não está a seu alcance, Deus dá ao homem o conhecimento da Verdade, através de Sua Revelação Divina. Esta Revelação Divina é transmitida por um meio oral e outro escrito. 
A Sagrada Escritura, por ser veículo da Revelação Divina por meio escrito, está sujeita a diversas e contraditórias interpretações. Embora Deus queira anunciar a Verdade também através dela, nela Sua Mensagem está envolvida em mistério, para que os infiéis não a profanem.

Por isto, a Sagrada Escritura em si, não é suficiente para a posse da Verdade Absoluta e Plena.
Também a Tradição, veículo oral da Revelação Divina, também sozinha não pode levar ao homem o conhecimento da Verdade, pois com o passar do tempo, seu conteúdo poderia ser modificado como se fosse um telefone sem fio.
Portanto, não bastava a Deus Revelar a Verdade ao Homem, sem que lhe desse meios de manter a integridade de Sua Revelação e meios de transmití-la de forma correta.
Por isto, Ele deu ao homem um Magistério que lhe desse essas garantias. Este Magistério iniciou-se com os Judeus, sob a liderança de Moisés e em nossos dias é a Igreja Católica que o representa sob a liderança do Papa (1). Por isto a Igreja é necessária para que o homem tenha posse da Verdade, objeto da inteligência (2).

O Alcance do Amor Absoluto
Por suas limitações o homem não é capaz de alcançar e manter o Amor Absoluto (Sumo Bem), indispensável à sua vontade. Assim como um recipiente sujo compromete a pureza do líquido que armazena, o homem falho compromete a manutenção do Amor em sua plenitude.
Somente a Graça de Deus dá capacidade ao homem de encontrar e manter o Amor Pleno.

Por este motivo é que os Sacramentos da Igreja são necessários, pois eles são fontes da graça de Deus, que nos auxiliam na santificação. 

Os sacramentos são ações visíveis de uma graça invisível. Por exemplo: o ato que o sacerdote faz ao aspergir água sobre a cabeça de uma criança, é o um ato visível que por detrás dele está a ação invisível do Espírito Santo na regeneração da criança.

Ao Encontro da Verdadeira Igreja
Por este motivo a Igreja é necessária, pois é através dela que temos o conhecimento da Verdade, que tanto nossa inteligência almeja. Por isto São Paulo escreveu a Timóteo: "A Igreja é a Coluna e o Fundamento da Verdade" (1Tm 3:15).
E também é através da Igreja que recebemos os Sacramentos, que nos auxiliam a alcançar e manter o Amor Pleno. Por isto a Igreja tem que ser visível para que o homem a encontre e tenha posse de Deus. Mas, a visibilidade da Igreja não está em seus prédios, mas sim, em sua estrutura hierárquia, instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Fora deste edifício divinamente instituído, não há Igreja. Esta é a característica que Deus nos deu para sabermos se estamos na Igreja Verdadeira: a Igreja deve ter origem apostólica.
Possuir origem apostólica não é crer no que os apóstolos criam, mas sim ter sido gerada através da sucessão regular dos apóstolos, e manter a unidade com a hierarquia

. Da mesma forma como não podemos dizer que uma criança é da família "Lima" sem ter sido gerada por esta família, não podemos afirmar que uma igreja é apostólica, sem ter sido gerada através da sucessão regular dos apóstolos e sem manter a unidade com a hierarquia da Igreja.

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Fonte:
http://www.veritatis.com.br
Notas
(1) LIMA, Alessandro. A Fé e a Autoridade da Igreja. Disponível em http://www.veritatis.com.br/apologetica/artigospapaprimado/675-a-fe-e-a-autoridade-da-igreja

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pe. Robério. Apostasia de um sacerdote...


“Não vos levam em conta Senhor...” (Sal.85,14)

Por Prof. Pedro M. da Cruz 
     Certa feita perguntara Jesus: “Também vós quereis me abandonar?[1]. O fato é que muitos discípulos já não queriam mais segui-lo; afinal, eram duras demais as suas palavras...[2]
Ainda hoje, mesmo após tantas ocorrências de milagres estupendos e múltiplas comprovações científicas que validam a origem divina do catolicismo, existem, infelizmente, os apóstatas. Eles desertaram, passaram para “outro evangelho” e submeteram-se aos que perturbam a obra cristã [3].  “O Deus desse mundo cegou suas inteligências para que não vejam claramente a luz...” [4]
Até onde vai a loucura do ser humano!
Ficamos tristes ao saber do caso “Pe. Robério”. Ele – Robério Pereira de Souza, ex-padre da arquidiocese de Montes Claros – após nove anos de ministério presbiteral, segundo suas próprias palavras: assinou uma carta, renunciou ao título de padre e foi viver sua vida...[5]
A mesma vida que Nosso Senhor ordenara “perder”...[6]
Ora, São Paulo havia recomendado que tomássemos cuidado com aqueles que provocam divisões e escândalos em contradição com a doutrina apostólica. Escrevera-nos claramente: “Evitai-os[7]. Entretanto, o que fizera Pe. Robério?  Exatamente o contrário!
Basta conferirmos uma sua entrevista escandalosa e cheia de contradições:
Quando criança ia às escondidas a cultos “evangélicos” influenciado por certa professora da “Igreja Batista”. Bem se vê o mal que determinados profissionais podem causar às nossas crianças...
Escutava programas de Rádio ligados ao protestantismo, como, por exemplo, alguns da “Igreja Quadrangular”. Aos poucos o erro ia encontrando guarita em sua alma desprevenida...
Nutria estranha curiosidade por seitas, grupos neopentecostais...
Mantinha contatos com “pastores evangélicos” (Ex. Pr. Paulo, Pr. Israel).
E, por fim, assistia programas de televisão pertencentes às chamadas “igrejas crentes” (R.R. Soares e Valdomiro Santiago).
Perguntemo-nos: o que se poderia esperar de atos tão contrários aos ensinamentos bíblicos? Basta lembrarmos aos leitores de nosso Blog que São João havia ordenado aos cristãos que não recebessem em casa pregadores de doutrinas diferentes e, inclusive, que nem mesmo os saudassem.[8] Talvez, Pe. Robério houvesse esquecido essas palavras da Escritura...
Por isso, agora, após sua triste apostasia, chegou ao ponto de:
Negar o valor da Santa Missa.
Quebrar todas as suas imagens sagradas, dentre elas, as da Virgem Maria, nossa Mãe...
Fazer afirmações inverídicas sobre a fé romana (como, por exemplo, a suposta existência da adoração aos santos).
Finalmente, renegar as “brancuras da Igreja Católica” – para usar uma sua expressão: o papa, Maria e a Santíssima Eucaristia. [9]
E ainda afirmava que não falava mal de nossa Igreja... Quanta contradição! Aliás, muito comum entre filhos da pseudo-reforma.
Irmãos rezemos por essa pobre alma; ela que fora chamada às alturas do sacerdócio e tem chegado a tal estado de escândalo e vergonha cujo nome custa-nos pronunciar: APOSTASIA.
Perante as feridas do Corpo Místico, o que fez o pobre sacerdote? Correu ao encontro do Salvador e lutou até a última gota de seu sangue pela honra da Esposa? Não.
Quanta dor...
Bem dissera o Texto Sagrado: “Fogem das minhas chagas os amigos, os mais íntimos olham-me de longe.[10] Sim, de muito longe...
Oh, Senhor! Abandonaram-vos novamente... Perdoai. Ele não sabe o que está fazendo.
Será? Calemo-nos. À Deus pertence o julgamento...
Maria Santíssima livrai-nos dessa loucura e convertei os sacerdotes que claudicam nas estradas da ilusão, enganados pelo erro, olhando de longe o Filho de Deus... Fugindo de suas chagas...
Mãe do Bom Conselho rogai por nós!



[1] Jo. 6,67
[2] Jo. 6, 60-66
[3] Gal. 1, 6-9
[4] II Cor. 4, 4
[5] Revista Conteúdo Ago./Set. 2011, p. 8-9
[6] Mat. 10, 39
[7] Rom. 16, 17
[8] II Jo. 11. Conf. Também: Didaqué Cap. XI
[9] Conteúdo, 2011; p. 8-9
[10] Sal. 37, 12. Luc. 23, 49

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Sobre a crítica de Schelling ao cartesianismo


Schelling

Por R.G. Santos
Schelling é entre teóricos do idealismo alemão o mais lúcido para muitos, o que não desabona, obviamente, muitas de suas posturas intelectuais. Isso se torna evidente pela profundidade e pelo cuidado com que parece considerar a evolução e as conseqüências dos pensamentos anteriores procedendo, por vezes, a críticas pontuais a respeito dos mesmos. Nessa perspectiva, vem a propósito evidenciarmos a consideração que irá fazer acerca da proposta cartesiana.
Num primeiro instante convêm tratar do modo como Schelling concebe o primado do eu, oriundo da reflexão cartesiana. Nosso autor critica fortemente esse aspecto da exaltação exagerada do eu porque o mesmo não pode ser ponto de partida para se conceber a realidade (rejeita também a absolutização do objeto - o que se dá propriamente em Espinosa). Porém tenta salvá-lo da mera passividade a que o tinham concebido Kant e Fitche, autores que radicalizam Descartes.
Ainda nesse aspecto, da relação entre sujeito e objeto, Schelling destoa-se do cartesianismo. Isso ocorre porque Schelling concebe o conhecimento numa perspectiva mais umbilical. Há aqui, nesse sentido, uma maior ligação (e a função do cordão umbilical, dentre outras, é a de ligar...) entre sujeito e objeto. Há uma clara tendência a se revalorizar o real e as coisas. Tenta, assim, reequilibrar a seu modo a relação desequilibrada por Descartes, quando este passou a enfatizar por demais o eu e desencadeou a médio e longo prazos uma onda de subjetivismos responsáveis por um entendimento engessado da realidade.
Nessa linha ele ainda critica, ou melhor, tenta tematizar as relações entre natureza e idéia, dicotomizadas e divorciadas de certa maneira em Descartes, nas noções de res extensa e res cogitans, trabalhando em função de reduzir  o grau de separação das bifurcações que impedem uma noção mais coesa nas considerações sobre o real e o ideal, entre “matéria e forma”.
Estes são, em linhas gerais, os “reparos” feitos a Descartes por parte de Schelling. Vemos aqui nosso autor conceber a realidade de maneira mais lúcida e integral embora seja tido, por aspectos que aqui não nos foi possível pontuar, como integrante da linha subjetivista (idealismo alemão) e, portanto, seja um dos pensadores tidos como da modernidade malsã.

Maria Santíssima, rogai por nós.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

CRISTO NA ECONOMIA


Ideal de sociedade Cristã


O meu Pai trabalha continuamente e Eu também trabalho. Jô 5,17


É impossível falar de Economia nos últimos dois mil anos sem se referir a Jesus Cristo. A sua presença real fez-se sentir continuamente e afetou de forma decisiva toda a realidade. É por isso que, naturalmente, a consideração dos problemas econômicos também tem de levar em conta sua influência.

Mas a presença de Cristo é superior, sublime, divina. É por isso que tantas vezes ela escapa à nossa observação humana e terrena. Aqueles que puderam conhecer a figura visível de Cristo foram continuamente confundidos, desarmados, descoroçoados pela sua presença e pelas suas palavras. O espanto é a atitude mais freqüente nos Evangelhos. Desde a Anunciação – “Como pode ser? [1]” -, passando pelos milagres – “Quem é este?” [2] – até à Ressurreição – “Vede as minhas mãos e os meus pés: sou eu mesmo!” [3].
          
         Assim, quando falamos da influência do Senhor, na economia como em todas as outras coisas, temos de estar bem alerta para não cairmos no simplismo, na generalização, na interpretação imediata, errônea, terrena das palavras que Ele disse e das ações que praticou ao longo destes dois mil anos. Foi esse erro de perspectiva que ao longo destes séculos criou tantas heresias em tantos domínios, e também na economia.


A INFLUÊNCIA QUE O SENHOR NÃO QUIS TER


 A analise da influencia de Cristo na economia destes dois mil anos não pode deixar de começar com esta enorme perplexidade perante um ensino e atuação que não é deste mundo[4]. Por isso, a primeira coisa que vale a pena notar é que o Senhor não quis fazer, a influencia que Ele não quis ter.
          
          Um dos aspectos mais nítidos da presença de Cristo é Ele ter evitado cuidadosamente mudar o sistema social e econômico, reformar este mundo, transformar a sociedade. Repetidamente, Ele afastou interpretações das suas palavras e ações que fossem diretamente político-econômicas, e colocou-as noutro nível – porque o meu reino não é daqui. [5] Ele podia facilmente ter criado um partido ou força social, um governo, um sistema de regras comunitárias. Todos – discípulos, opositores, até simples curiosos – esperavam que Ele o fizesse.  Jesus, porém, sabendo que viriam buscá-lo para fazê-lo rei, refugiou-se sozinho na montanha[6]. Múltipla vez, Cristo, deste modo suave e elegante, afastou a interpretação imediata das suas ações e palavras.
          
         Quando O tentam envolver nestes assuntos, Ele escusa-Se delicadamente. Disse-lhes então alguém da multidão: “Mestre, diz a meu irmão que reparta comigo a herança.” Ele respondeu: “Homem, quem me estabeleceu como juiz ou árbitro da vossa partilha? [7].” Ao confrontar-se com autoridade, separa muito bem os níveis: “Daí, pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. [8]“.
           Cristo respeitou escrupulosamente a autoridade do sistema político-económico do seu tempo. Notou-lhes os defeitos, mas sempre Se recusou a entrar em esforços de reforma, em conspirações ou em projetos de revolução, até em reflexões especulativas. Essas realidades não passavam de simples meios para um fim sublime: “Eu digo-vos: fazei amigos e riquezas injustas, para que, no dia em que estas faltarem, eles vos recebam nas moradas eternas. [9]É indiscutível que a influência que Cristo quer ter é diferente: Aquele que vem do alto está acima de todos; o que é da terra é terrestre e fala como terrestre. Aquele que vem do céu dá testemunho do que viu e ouviu, mas ninguém acolhe o seu testemunho[10].
             
              Esta atitude foi bastante mal compreendida no seu tempo, por discípulos, opositores e simples curiosos. Muitos levaram a mal a falta de empenhamento de Cristo nas pequenas discussões políticas em que eles gostavam de se envolver.  A mesma atitude foi também muitas vezes tomada pela Igreja, na seqüência de seu Mestre. E também ela foi incompreendida ao longo dos séculos. “A missão da Igreja não é a intervenção direta no plano econômico, técnico, político ou do contributo material para o desenvolvimento, mas consiste essencialmente em oferecer aos povos não um “ter mais”, mas um “ser mais”, despertando as consciências com o Evangelho[11].

          Muitos são aqueles que, na Historia e, sobretudo no nosso tempo, insistem em fazer uma aplicação temporal e política dos ensinamentos, idéias e visões do Senhor. É comum apresentar Jesus como inspiração de modelos, sistemas, intervenções concretas. Cristo não é um pensador, não é um activista social, um político ou um analista. Por isso, compreendê-lo nesses registros, como é tão freqüente nos nossos dias, tem de gerar erros graves. As muitas interpretações políticas e econômicas da pessoa de Cristo são, simplesmente, embustes e enganos, que passam ao lado do propósito do Senhor.

A INFLUÊNCIA QUE O SENHOR QUIS TER

            O propósito de Cristo não é modificar a sociedade, mas ultrapassá-la completamente. Isso é evidente para quem O ouve. Por isso vos digo: não vos preocupeis com vossa vida, com o que haveis de comer, nem o corpo, com o que haveis de vestir. Não será a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que as vestes: [...] Buscai, pois, em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça. E todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo. [12] Para compreender a influencia de Cristo é preciso compreender o seu objetivo.

            O seu propósito é salvar o mundo. O que ele quer é levar-nos a nascer do alto[13], a ser perfeitos como o Pai do Céu é perfeito[14]. Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. [...] Este é o meu mandamento: amai0vos uns aos outros como eu vos amei. [15]
                Este é o objetivo do Senhor. Esta é a influência que Lhe interessa.
Papa Bento XVI
       E esta é a origem da maior influência econômica que Cristo poderia ter. Apesar de manter sempre o respeito estrito pela autoridade político-econômica de seu tempo e de todos os tempos, o Senhor não deixou de ser revolucionário. E, embora o seu reino não seja daqui, Ele afirma claramente: Eu sou rei[16]. O seu objetivo não é mudar a sociedade. È muito mais profundo, vasto e exigente do que isso. E esse objetivo acaba por ser muito mais poderoso para mudar a sociedade.

          Para ter essa influencia e cumprir o seu objetivo, Cristo escolheu também um método e uma forma especial de influencia. A influência que Cristo quis ter é a influencia da sua Igreja, que é o seu corpo: Eu sou a videiro, vós as varas[17]. A presença visível de Cristo no mundo – e, portanto na economia – foi nestes dois mil anos a da Igreja, porque é assim que Ele quer. Tudo quanto ligardes na terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu. [...] Porque onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei ali no meio deles[18].

            A Igreja de Cristo não é apenas uma Instituição que continua ao longo do tempo. A Igreja é Cristo. A Igreja de Cristo não é uma instituição, é um acontecimento concreto, sempre o mesmo, que se repete sucessivamente ao longo dos tempos. A Igreja de hoje, como em cada tempo, faz acontecer outra vez o que Cristo fez há 2000 anos. A Igreja faz presente hoje, na História, presente na nossa historia concreta, a pessoa concreta de Cristo. No século XXI, a Igreja não será mais nem menos visível que no século I ou no século XIII. Por isso, ao falar da Igreja de Jesus Cristo estamos a falar de algo que não tem comparação com mais nada.


A INFLUÊNCIA QUE O SENHOR TEM

Tal como Cristo, a sua Cabeça, a Igreja não é daqui. Mas ela vive cá, porque foi aqui que o Senhor a quis colocar. “Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal” [19]. Destes dois fatos nasce o mistério da Igreja de Cristo. Virada continuamente para o Céu, a Igreja não deixa de atuar na sociedade terrena e aí ter vasta influência que o Senhor decidiu ter neste mundo.

Os exemplos do impacto da atuação eclesial sobre a economia são miríade. Qualquer cristão ou comunidade, ao defrontar-se como o problema de viver a vida neste mundo de olhos cravados no Céu, busca essa influência. Ao resolve-lo – na sua atuação econômica concreta, de trabalhador, consumidor, investidor, contribuinte – cria uma influência de Cristo na economia.

A História registra apenas alguns exemplos mais salientes. Logo em Jerusalém, os discípulos, esperando a vinda próxima do Senhor, criaram uma economia de gratuidade e partilha[20]. Esta opção eminentemente razoável se o fim do mundo fosse próximo, mostrou-se insustentável a longo prazo. Aliás, a perseguição se encarregou de desbaratar a primeira economia cristã[21]. Mais tarde, integrando-se no Império Romano, os discípulos, esforçando-se por caminhar para o reino dos Céus, iam mudando a economia imperial. O caso dos escravos[22] é uma boa demonstração dessa influencia.

S. Francisco e S. João
Ao longo dos séculos, os exemplos multiplicam-se. Olhando apenas para os mais evidentes, é possível seguir a história da economia paralela à da Igreja. Quando São Bento (480-547) foi para Montes Cassino, o seu objetivo era salvar a Igreja e determinar a nova forma medieval de evangelizar. Mas o seu mosteiro beneditino, que se iria espalhar pela Europa em sucessivas vagas, constituía mendicantes de São Francisco e São Domingos, no século XII, foram à resposta da videira de Cristo à nova realidade urbana da baixa Idade Média, influenciando decisivamente a sua vida e a sua economia. A teologia de São Tomás de Aquino e dos escolásticos lança as bases da futura ciência econômica.

Com a Idade Moderna nascia o capitalismo comercial, depois industrial. A Igreja esteve presente aí como sempre, procurando sempre ordena-lo para o Céu. As comunidades índias conhecidas por Reduções do Paraguai e destruídas em 1639 são dos exemplos mais notáveis de criatividade econômico-social, representando bem a originalidade ímpar dos jesuítas. As Misericórdias portuguesas, disseminadas por todo o império, e por isso, por todo o mundo, são também exemplos excelentes e ainda vivos de instituições que, viradas para a salvação das almas, tiveram profunda influência econômica.

Foi a Igreja que começou a segurança social, que hoje o Estado cria e regula. Ao longo de milênios, foi para a Igreja que se viraram os pobres e aflitos, até que o Estado percebeu que era bom fazer igual. O amor ao próximo, que a Igreja trouxe à luz do dia e pregou desde sempre, é hoje pregoado por partidos, organizações leis e discursos. A solidariedade, a igualdade, a luta contra a pobreza, a discriminação, o racismo são valores que a Igreja sempre defendeu e que o mundo só defende porque “copiou”.

Todos estes, e muitos outros, são exemplos eloqüentes da forma como os cristãos viveram a sua vocação divina no mundo que o Senhor veio salvar. “Pela força do Evangelho, ao longo dos séculos, os monges cultivaram as terras, os religiosos e as religiosas fundaram hospitais e asilos para os pobres, as confrarias, bem como homens e mulheres de todas as condições, empenharam-se a favor dos pobres e dos marginalizados, convencidos de que as palavras de cristo: Cada vez que fizestes estas coisas a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt 25,40), não deviam permanecer um piedoso desejo, mas tornar-se um compromisso concreto de vida “[23].



FONTE: A Econômia de Deus, Págs 59 - 67. João César das Neves. Ed. Principia em co-edição com Grifo.

[1] Luc 1,34.
[2] Mat 8,27.
[3] Luc 24,39.
[4] Jô 18,36.
[5] Jô 18,36.
[6] Jô 6,15.
[7] Lc 12,13-14.
[8] Mt 22,21.
[9] Luc 16, 9.
[10] Jo 3, 31-32.
[11] Redemptoris Missio, 58.
[12] Mt 6, 25-33.
[13] Jo 3, 7.
[14] Mt 5, 48.
[15] Jo 15, 9-12.
[16] Jo 18, 37.
[17] Jo 15, 5.
[18] Mt 18,18-20.
[19] Jo 17,15
[20] At 2, 42-47.
[21] At 8, 1.
[22] 1 Tim 6,1-10; cf tb Fm 8-21.
[23] Centesimus Annus, 57.